Para Entender O Capital: Livros II e III
O Capítulo 12 do Livro II: O Período de Trabalho
Tomemos duas formas de produção: a fiação de algodão e a manufatura
de locomotivas, cada uma operando com a mesma jornada de trabalho de dez horas. No primeiro caso, certa quantidade de produto acabado é “fornecida diária ou semanalmente [...]; no outro, o processo de trabalho precisa ser repetido talvez durante três meses para produzir [...] uma locomotiva”. Há, portanto, um contraste inicial entre processos de produção contínuos e discretos. Há também diferenças importantes no tempo necessário para completar diferentes processos discretos de produção. “Essas diferenças na duração do ato de produção ocorrem não apenas entre esferas de produção distintas, mas também no interior da mesma esfera de produção, de acordo com o volume do produto a ser fornecido”. Os exemplos fornecidos por Marx são instrutivos. “Uma casa de tamanho habitual é construída em menos tempo que uma grande fábrica [...]. Se a construção de uma locomotiva leva três meses, a de um encouraçado leva um ou vários anos [...] uma estrada rural pode ser construída em alguns meses, ao passo que uma ferrovia exige vários anos”, e assim por diante. “As diferenças na duração do ato de produção são, portanto, infinitamente variadas”, conclui Marx.
Essas diferenças afetam os tempos de rotação. Quanto maior o tempo de
rotação, maior a quantidade de capital circulante requerida antes que a mercadoria esteja acabada. A “velocidade de rotação” afeta a lucratividade.
Marx define o “período de trabalho” como a “sucessão de um número
maior ou menor de jornadas de trabalho conexas” necessária para criar um produto acabado. Cem jornadas de trabalho de dez horas significam um período de trabalho de mil horas. “Por isso”, diz ele, “as interrupções e perturbações do processo social de produção, por exemplo, em consequência de crises, têm efeitos muito distintos em produtos do trabalho que são de natureza discreta e sobre aqueles que requerem um período mais prolongado e contínuo para sua produção”. No caso de produção contínua, o processo se encerra, e não se perde muito capital circulante; mas no caso de uma locomotiva, todo o capital circulante já incorporado no produto é imobilizado ou perdido, e isso implica assumir um risco muito maior quando se empreende tais formas de produção.
Evidentemente, o capital fixo também está envolvido nesses diferentes
processos de rotação, mas a rotação do próprio capital fixo (por exemplo, uma máquina a vapor) permanece intocada pelos distintos tempos de rotação dos produtos que ele ajuda a produzir. Mas o gasto de capital circulante é diferencialmente afetado. Os salários têm de ser adiantados, digamos, semanalmente, e meios de produção também têm de ser adquiridos de forma frequente e contínua ao longo das semanas ou dos anos necessários para criar um produto acabado. Quanto mais longo o período de trabalho, mais capital circulante tem de ser adiantado antes que o capital possa ser recuperado e o mais-valor realizado por meio da venda do produto final. Isso pode ser um grande fardo para o capitalista individual. “Nas fases menos desenvolvidas da produção capitalista”, diz Marx:
os empreendimentos que necessitam de um período de trabalho
prolongado e, portanto, de um grande investimento de capital por um período mais longo, especialmente se só podem ser executados em grande escala, ou não são em absoluto executados de modo capitalista, como é o caso, por exemplo, de estradas, canais etc. construídos à custa da comunidade ou do Estado (em tempos antigos, com relação à força de trabalho, mediante trabalho forçado), ou, então, esses produtos cuja fabricação requer um período mais longo de trabalho só são fabricados numa quantidade ínfima e custeados pelo próprio patrimônio do capitalista.
Em outras palavras, eles são construídos com a ajuda do crédito. Marx
cita mais uma vez o caso dos imóveis:
a pessoa privada para quem ela [a casa] é construída paga
adiantamentos ao empresário construtor de maneira parcelada. Na realidade, portanto, ela paga a casa fracionadamente, à medida que avança o processo de produção desta última. Ao contrário, na era capitalista desenvolvida, em que, por um lado, somas maciças de capital se concentram nas mãos de indivíduos, enquanto, por outro, o capitalista associado (as sociedades por ações) surge ao lado dos capitalistas individuais e o sistema de crédito está desenvolvido apenas excepcionalmente, um construtor capitalista constrói por encomenda, para pessoas privadas, isoladas. Seu negócio é construir fileiras de casas e bairros inteiros para o mercado, assim
como o negócio dos capitalistas individuais é construir ferrovias como empreiteiros.
Marx cita um “Bank Act Commitee Report”, de 1857, sobre as
estratégias de construção especulativa de imóveis, na qual aparecem todos esses elementos da finança de hipotecas, da aquisição de terra e da alavancagem de fundos mutuados: “Atualmente, sem construir com fins especulativos e em grande escala, nenhum empresário pode progredir. O lucro obtido com a construção propriamente dita é extremamente pequeno; seu ganho principal consiste na alta da renda fundiária, na escolha e aproveitamento corretos do terreno para a construção” (e cita como exemplo Belgravia, um bairro luxuoso em Londres). Penso que esse processo é bem mais importante do que se admite em geral, mas, como envolve extração e apropriação de rendas fundiárias, Marx não prossegue a análise, por isso também não vou examiná-lo mais detalhadamente. Mas é interessante notar quantos exemplos citados por Marx envolvem investimentos no ambiente construído (um tópico que aparece em momentos curiosos como este, mas que ele não isola para uma análise especial).
Como vimos tão nitidamente em tempos recentes, processos desse tipo
são propensos a crises 15:
O empresário já não trabalha mais para o cliente, mas para o
mercado [...]. Se antes um empresário construía três ou quatro casas simultaneamente para a especulação, agora ele tem de comprar um terreno de grandes dimensões [...], nele construir até cem ou duzentas casas e, assim, engajar-se num empreendimento que ultrapassa seu patrimônio em vinte ou até cinquenta vezes. Os fundos são obtidos mediante hipotecas, e o dinheiro é posto à disposição do empresário à medida que progride a construção das diversas casas. Se irrompe uma crise que paralisa o pagamento das prestações, é comum que o empreendimento inteiro fracasse; no melhor dos casos, a construção das casas permanece inconclusa até que advenham tempos melhores; no pior, elas são postas a leilão e liquidadas pela metade do preço.
Em boa parte dos Estados Unidos, Espanha e Irlanda, o pior cenário
possível impôs-se como uma vingança após 2008. Nesse último caso, a especulação imobiliária criou uma bolha de ativos que, ao estourar, desencadeou a crise, ao passo que Marx vê o crash imobiliário como o resultado de uma crise comercial e financeira que teve suas raízes em outro lugar.
A execução de obras que consomem um período
significativamente longo de trabalho e se realizam em grande escala só passam a integrar plenamente a produção capitalista quando a concentração do capital já é bastante considerável e, por outro lado, o desenvolvimento do sistema de crédito oferece ao capitalista o cômodo expediente de adiantar – e, desse modo, também arriscar – capital alheio, em vez de capital próprio.
A mudança da atividade empresarial individual para uma atividade na
qual, como vimos nos capítulos sobre finanças e crédito, os negócios se tornam “o dinheiro dos outros”, tem enormes consequências para o funcionamento do capital; por isso, penso que não é por acaso que o exemplo principal de Marx sejam os grandes investimentos urbanos e infraestruturais. Embora ele não diga explicitamente, é evidente que o envolvimento de capital fictício não é uma realidade distante.
A principal preocupação de Marx, no entanto, é com “as circunstâncias
que aumentam o produto de cada jornada de trabalho individual” e “encurtam ao mesmo tempo o período de trabalho”, como “a cooperação, a divisão do trabalho, o emprego da maquinaria”. “Assim, a maquinaria encurta o tempo de construção de casas, pontes etc.”, enquanto “a construção aperfeiçoada de navios encurta, com a velocidade aumentada, o tempo de rotação do capital investido” na construção de navios. Muitos desses aperfeiçoamentos dependem, no entanto, do emprego de mais capital fixo. Isso, em si, gera uma tensão (contradição?) significativa, uma vez que a velocidade de rotação de uma porção de capital precisa ser reduzida, a fim de facilitar a rotação acelerada do resto. A tensão latente entre imobilidade e movimento é onipresente em grande parte do Livro II.
A cooperação pode ser mobilizada para o mesmo propósito: “a
construção de uma ferrovia é abreviada quando se arregimentam grandes exércitos de trabalhadores e a obra é atacada por vários lados ao mesmo tempo”. Nos anos recentes, alguns dos exemplos mais espetaculares de mobilização tanto de tecnologia quanto de massa de trabalho para esse fim vêm da China. Nas aulas que deram origem a este livro, mostrei aos meus alunos um vídeo impressionante sobre a construção de um hotel de quinze andares em noventa horas, na China, para ilustrar o ponto que Marx discute aqui. Esse vídeo pode ser visto no Youtube: “Build a Hotel 15 Floors in China in 90 Hours”. E há outro vídeo, intitulado “China Puts Up a 30-Floor Building in 15 Days”. Em ambos os casos, é claro, as partes são pré-fabricadas, mas é interessante assistir a esses vídeos e refletir sobre a natureza do processo de trabalho. A ênfase está não apenas na cooperação, mecanização e coordenação das divisões do trabalho, mas também na intensidade – no Livro I de O capital, a intensidade aparece gradualmente como uma contribuição fundamental à produção de mais-valor. E, é claro, o trabalho tem de ser pago apenas pelas noventa horas (com turnos).
O pressuposto é que o capital tem de estar suficientemente concentrado e
imediatamente disponível para ser posto em movimento em tais processos:
o que importa é o grau em que os meios de produção e
subsistência [...] estejam dispersos ou reunidos nas mãos de capitalistas individuais e, portanto, o grau que a concentração dos capitais já tenha alcançado. O crédito, na medida em que possibilita, acelera e aumenta a concentração de capital numa só mão, contribui para abreviar o período de trabalho e, com ele, o tempo de rotação.
É importante observar a associação de tempos acelerados de rotação com
a centralização de capital, atividades estatais e o advento do sistema de crédito. As observações casuais que fiz sobre esse tópico ao longo dos meus estudos sobre a história da urbanização sugerem que Marx está absolutamente correto em apontar para essas associações quando se quer tempos de rotação cada vez mais curtos.
O tamanho desse impulso para encurtar os tempos de rotação é ilustrado
mais drasticamente, na visão de Marx, pela criação de ovelhas. “Antes, as ovelhas inglesas, como as francesas ainda em 1855, não estavam prontas para serem abatidas antes dos quatro ou cinco anos.” O resultado é que a maioria das pessoas comia carne de carneiro, e não de cordeiro (banquetes com costelas de carneiro são comuns nos romances de Dickens). Mas, paralelamente, Bakewell apareceu com sua raça de ovelhas, a “New Leicester”, cuja “ovelha de um ano já pode ser engordada e, em geral, já atingiu seu pleno desenvolvimento antes de completar dois anos de vida”. Hoje, comemos carne de cordeiro, e não de carneiro. E cordeiros podem ser obtidos em menos de um ano. Essas intervenções nos chamados ciclos “naturais” são evidentes em toda a agricultura. É possível acelerar até o desenvolvimento das lagostas, transferindo caixas de lagostas para tanques de água com temperaturas diferentes. No mundo da produção capitalista, os ciclos de reprodução “natural” não são sacrossantos.