Para Entender O Capital: Livros II e III
O Capítulo 28 do Livro III: Meios de Circulação e Capital
O Capítulo 28 do Livro III: Meios de Circulação e
Capital
O capítulo 28 ocupa-se em grande parte com a discussão dos pontos de
vista de Tooke e outros autores que defendiam haver uma distinção entre o dinheiro como capital e o dinheiro como moeda em circulação. Não examinarei a crítica de Marx (ou os acréscimos de Engels) em detalhes. Da perspectiva de Marx, a distinção mais relevante é entre o dinheiro usado pelos capitalistas para comprar as mercadorias que serão usadas na produção e o dinheiro tomado emprestado para comprar as mercadorias produzidas. A distinção é “entre a forma-dinheiro da renda e a forma-dinheiro do capital”. Ambos os usos do dinheiro são incorporados na circulação do capital industrial. Às vezes Marx se refere ao fluxo do crédito na produção como “capital monetário”, em oposição ao “capital dedicado ao intercâmbio de dinheiro”, que flui para os consumidores a fim de sustentar a realização do valor e do mais-valor no mercado.
Os banqueiros podem fornecer capital mutuado para a produção e o
crédito para que os consumidores comprem as mercadorias produzidas. Por exemplo, os mesmos banqueiros podem emprestar aos empreiteiros para a construção de conjuntos habitacionais e aos consumidores para que comprem esses imóveis. As demandas de meios de pagamento (crédito ao consumidor) e meios de compra (empréstimo de capital) não são nem sincronizadas nem iguais. Mas a ausência de qualquer uma delas pode constituir uma barreira no interior da circulação do capital industrial. Embora Marx não desenvolva a questão, podemos inferir a possibilidade de que, sob condições de crédito fácil e muita liquidez de excedente, tanto a oferta quanto a demanda de uma mercadoria fundamental (como, por exemplo, imóveis) podem criar uma “bolha” de investimento, precisamente porque os fluxos de capital portador de juros podem operar livremente para influenciar ambas as condições (oferta e demanda): “As duas esferas da circulação possuem uma conexão interna, uma vez que, de um lado, o volume de renda a ser gasto expressa a escala do consumo e, de outro, a quantidade de capital circulando na produção e no comércio expressa a escala e a velocidade do processo de reprodução” do capital.
Alguns aspectos auxiliares entram em foco, como a velocidade de
circulação do dinheiro e o papel do sistema de crédito no atendimento dessas demandas. É óbvio que variações na disponibilidade podem produzir flutuações cíclicas de aparente prosperidade, seguidas de períodos de escassez, e Marx apresenta breves indicações de como os aspectos monetário e creditício dessas variações costumam se comportar. O que vimos nos mercados imobiliários de muitos países, dos Estados Unidos à Irlanda ou à Espanha, entre 2005 e 2012, foi a produção de uma bolha de ativos, seguida de um violento colapso dos fluxos financeiros, à medida que os preços dos imóveis se distanciavam da renda.