Para Entender O Capital: Livros II e III
O Capítulo 19 do Livro II: Exposições Anteriores do mesmo Objeto
O Capítulo 19 do Livro II: Exposições Anteriores do
mesmo Objeto
É geralmente reconhecido que Marx baseou seus esquemas no Tableau
économique, elaborado pelo cirurgião e economista francês François Quesnay e publicado pela primeira vez em 1757-1759. Quem era Quesnay, e por que sua formulação foi tão especial e importante? Quesnay (1694-1774) era cirurgião da corte de Luís XV. Como médico e confidente privilegiado do rei, não só acompanhou os avanços da medicina como também refletiu consideravelmente sobre a natureza do corpo político. Ele ficou impressionado com a descoberta de William Harvey, que revolucionou o conhecimento médico a respeito da circulação do sangue, e enxergou nela paralelos com a circulação do capital no corpo político.
Sempre apreciei o paralelo entre a circulação do capital e a circulação do
sangue (talvez porque eu tenha nascido a cerca de sessenta quilômetros de distância do local de nascimento de William Harvey!). Cito esse paralelo como uma ideia fundamental na introdução de O enigma do capital, mas esqueci que Quesnay foi o primeiro a sugeri-lo – até ser bruscamente lembrado disso ao reler o Livro II de O capital para escrever este livro.
A teoria de William Harvey sobre a circulação do sangue refutou a teoria
de Galeno, que foi predominante durante muitos séculos. Na teoria de Galeno, o coração era o centro da produção de sangue, que dali fluía para vários órgãos e era consumido. Esse é um modelo de mão única da produção que flui para o consumo. William Harvey viu o coração como uma bomba que mantém o sangue em contínua circulação através do corpo; enquanto isso, o sangue é limpo e renovado por uma transformação metabólica de substâncias vindas de fontes externas. Quesnay aplicou a concepção de Harvey ao campo da economia política, e Marx, sempre interessado na fluidez, na continuidade e nos fluxos de valor, foi atraído pelo modo de pensar de Quesnay. O problema é que Quesnay insistia que o valor era produzido unicamente na agricultura, e a produção industrial era um parasita da agricultura. Ele não ousou criticar o consumo ostentador de Versalhes ou o consumismo da aristocracia; ao contrário, defendeu a ideia de que tanto o campesinato quanto a aristocracia fundiária estavam empenhados na produção de valor, mascarando assim a extração de excedentes do campesinato. Essa visão “fisiocrata” (predominantemente francesa) contrastava com o “mercantilismo” (predominantemente inglês, àquela época), que via a acumulação de reservas de ouro pelo comércio como o Santo Graal da política econômica.
Marx contrapunha-se a ambas as escolas de pensamento. Contudo, dadas
as estruturas industriais que prevaleciam na França, as ideias fisiocratas de Quesnay eram plausíveis, já que era o excedente extraído da agricultura que sustentava uma estrutura industrial artesanal (muito diferente das fábricas que Marx viu) dedicada em grande parte à produção de artigos de luxo (joias, roupas finas, cerâmica, tapeçaria etc.) para o consumo da aristocracia (visite Versalhes, onde Quesnay viveu, e veja o que era produzido pela indústria da época).
Marx, apesar de rejeitar as teorias fisiocratas de Quesnay, ficou
interessado por seu modelo de fluxo da economia. Ele parecia oferecer uma maneira científica de romper o modelo “silogístico fraco” da economia política clássica, segundo o qual, à maneira de Galeno, a centralidade da produção predominava sobre as particularidades da distribuição até ser totalmente consumida pelas atividades singulares do consumo. Como escreveu Piero Sraffa – colega muito próximo de Keynes e editor das obras completas de Ricardo – num texto de grande importância para o argumento desenvolvido aqui:
É decerto no Tableau économique de Quesnay que encontramos
o quadro original do sistema de produção e consumo como um processo circular, e isso se encontra em flagrante contraste com a visão, defendida pela teoria moderna, de uma avenida de mão única que conduz dos “fatores de produção” aos “bens de
consumo”.19
É importante ressaltar que essa última visão é puro Galeno e continua a
dominar o pensamento econômico convencional.
Sei que estou me afastando do texto de Marx nesse ponto, mas é porque
penso que o argumento tem uma importância vital. Se, como sugere Sraffa, a teoria econômica contemporânea continua presa ao modelo de Galeno, e se Marx aceitou o modelo de Quesnay e William Harvey, então há ainda uma separação radical entre a teoria econômica burguesa e Marx no campo da economia política. Em O enigma do capital, utilizei essa separação para explicar não só por que a economia política burguesa foi incapaz de perceber a ameaça de risco sistêmico e possível falência, mas também como a teoria marxiana das interrupções na continuidade do fluxo de capital e o potencial surgimento de bloqueios (desde a oferta de trabalho até recursos naturais ou ausência de demanda efetiva) revela de onde poderiam surgir essas crises. A incapacidade de contornar ou transcender as barreiras, ou remover os bloqueios, levaria ao colapso do movimento do capital e à morte do corpo político capitalista, tão certo quanto bloqueios arteriais podem provocar a morte do corpo humano. A metáfora, ainda que excessivamente dramática, tem alguns corolários interessantes. Na teoria de Galeno, o remédio típico eram as sangrias (leia-se: austeridade), seguidas de transfusões (leia-se: alívio quantitativo e liberação de liquidez pelos bancos centrais), mas nenhuma das duas fazia sentido do ponto de vista da teoria de Marx. As políticas de estabilização que surgem da teoria de Marx exigiriam uma análise dos muitos pontos de bloqueios e barreiras que impedem a continuidade do fluxo do capital, e um ataque simultâneo para levar o sistema de volta àquele equilíbrio que os esquemas de reprodução mostram que talvez seja possível – e enfatizo o “talvez”, porque não há nenhuma certeza nisso.
Mas a proposição básica de Marx permanece: se o fluxo de capital for
interrompido por muito tempo, o capital morre. Precisamos de um modelo de fluxo para entender essa dinâmica, e Marx, baseado em Quesnay, foi o primeiro a mostrar como ele poderia ser construído. Assim, não nos surpreenderia que os pensadores burgueses que seguiram nessa direção (por exemplo, alguns teóricos da macroeconomia) tivessem se inspirado – se ousassem confessar – nas inovações fundamentais de Marx, ainda que tenham levantado questões difíceis relativas ao estatuto dos esquemas de reprodução na teoria geral de Marx sobre as leis de movimento do capital.
Há outro ponto importante a respeito da formulação de Quesnay.
Precisamente porque estava interessado na continuidade do fluxo, Quesnay se tornou um enérgico defensor da liberdade de circulação e movimento. Essa liberdade era impedida na França não só por obstáculos físicos ao transporte, mas também pelos inúmeros pedágios e tarifas que os poderes locais cobravam em pontes e estradas. Quesnay defendia a redução e a eliminação de todas as barreiras sociais e políticas que impediam o movimento. Ele foi o primeiro a usar o termo “laisser-faire” – que Adam Smith popularizou e, em seguida, seria adotado por toda a escola ricardiana de livre-cambistas.
Na verdade, Marx dedica pouca atenção a Quesnay no capítulo 19. O
capítulo é dominado por uma crítica àquilo que Marx chama, em outro lugar, de “ridícula tolice” da interpretação que Adam Smith faz de Quesnay. Smith corrigiu a visão errônea de Quesnay de que o valor só poderia ser criado na produção agrícola. Ao fazê-lo, porém, propôs equivocadamente uma teoria do valor que somava as rendas de cada um dos fatores básicos de produção – terra, trabalho e capital – identificados por Quesnay. Obviamente, essa teoria do valor é radicalmente diferente daquela que é apresentada tanto na versão tradicional quanto na versão marxista da teoria do valor-trabalho. Segundo Marx, essa é a “fórmula absurda” que dominou a economia política até Ricardo. A teoria aditiva do valor, de Adam Smith, foi posteriormente modificada pela corrente neoclássica, a fim de estabelecer preços pela combinação dos custos marginais (em vez dos valores absolutos) desses fatores básicos de produção: terra, trabalho e capital (o modelo de Galeno entra em ação). A escassez relativa dos diferentes fatores de produção ocupou o centro do pensamento econômico burguês. E a “fórmula absurda” de Smith sobrevive até hoje.
Marx não compartilha de nada disso. Em suas obras, ele se mostrou
sempre obcecado pela ideia de contrariar a “ridícula tolice” de Adam Smith, e um de seus objetivos ao desenvolver os esquemas de reprodução era certamente desacreditar a interpretação de Smith e sua influência
subsequente20. Quando o valor é equiparado à renda extraída da terra, do trabalho e do capital, não sobra espaço na teoria para a reposição do capital constante utilizado. Nessas condições, a reprodução do capital seria impossível:
A estreiteza da visão reside aqui no fato de que Smith, do
mesmo modo como, antes dele, Quesnay, não vê na reaparição do valor do capital constante sob uma forma nova um importante fator do processo de reprodução, mas apenas mais uma exemplificação – e, ainda por cima, falsa – da distinção que ele introduz entre capital circulante e capital fixo.
Há aqui uma ligação, portanto, com a crítica de Marx às categorias
smithianas de capital fixo e circulante, esboçadas anteriormente (no capítulo 3 deste livro). Marx conclui que “a confusão de ideias smithiana persiste até os dias de hoje, e seu dogma é um dos artigos ortodoxos de fé da economia política”.