Para Entender O Capital: Livros II e III
O Capítulo 21 do Livro II: Reprodução Ampliada
No capítulo 21, relativamente curto, Marx aborda o caso da reprodução
ampliada. Proponho seguir o texto bem de perto, antes de tecer um comentário mais geral sobre seu significado e sua importância. Marx começa voltando ao capítulo 22 do Livro I, no qual havia descrito como o capitalista individual, tendo realizado em forma- -dinheiro o mais-valor incorporado na mercadoria, é forçado pelas leis coercitivas da concorrência a expandir a acumulação usando uma parte daquele dinheiro extra para comprar mais meios de produção (capital constante) e mais força de trabalho (capital variável), a fim de produzir ainda mais mais-valor. Se isso é verdade para os capitalistas individuais, também tem de ser, diz Marx, para o capital social total. A expansão pode não ser suave e contínua, já que chegam a ser necessários muitos anos para entesourar capital monetário suficiente para abrir uma nova fábrica ou construir uma ferrovia. Mas poupar o dinheiro não é a única dificuldade. Mais capital constante e variável tem de estar prontamente disponível para realizar compras no mercado a fim de construir a nova fábrica ou a ferrovia. É preciso, portanto, que a “reprodução numa escala ampliada” já tenha ocorrido na forma-mercadoria. Por conseguinte, o dinheiro, “em si mesmo, não é um elemento da reprodução efetiva”, porque, se não há mercadorias excedentes disponíveis, o dinheiro poupado é inútil.
Há aqui, obviamente, um problema do tipo “o ovo e a galinha”, que só
pode ser contornado enfatizando-se a continuidade e a interconexão dos diferentes momentos no interior da circulação global do capital.
O entesouramento (poupança) de dinheiro pode não constituir em si
mesmo uma nova riqueza, mas cria um “novo capital monetário potencial”. Porém, se todos entesourarem antecipando uma expansão futura, ninguém comprará mercadorias aqui e agora, e o processo de circulação será interrompido. Mercadorias não vendidas obstruem o sistema. A única forma de criação de dinheiro que se acrescenta diretamente à riqueza real é a produção de ouro, uma vez que esse metal é uma mercadoria que contém mais-valor. Numa situação em que todos poupam e ninguém compra, o único fundo disponível para realizar o mais-valor de cada um seria o mais-valor dos produtores de ouro. Isso, diz Marx, é obviamente uma ideia “absurda”. Precisamos ir a fundo na dificuldade de que poupar reduz o gasto e, portanto, diminui as perspectivas de realização. Para isso, temos de investigar como o processo de acumulação opera dentro de cada setor e entre os dois setores.