Para Entender O Capital: Livros II e III

David Harvey · Capítulo 8 de 61

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Para Entender O Capital: Livros II e III

A Singularidade do Consumo

 

A produção de mais-valor depende de sua realização por meio do

consumo. O consumo não pode, portanto, ser mantido inteiramente fora da economia política como uma categoria geral, porque ele retroage “sobre o ponto de partida [da acumulação do capital] e enceta de novo todo o processo”. Nos Grundrisse, Marx dedica diversas páginas aos modos como o consumo e a produção de mais-valor se relacionam entre si. É importante, diz Marx, distinguir entre (a) o consumo produtivo da parte do capitalista que necessita de matérias-primas, materiais auxiliares, maquinaria, energia etc. para pôr um processo de trabalho em movimento, e (b) o consumo “final” de trabalhadores, capitalistas e várias “classes improdutivas” (militares, funcionários públicos etc.) que sustentem qualquer ordem social. O consumo é necessário para completar a realização do mais-valor produzido na forma-mercadoria. Mas a demanda precisa ser acompanhada da solvência. Em suma, o capitalista só reconhece um tipo de demanda: a demanda efetiva.

Então o que é deixado de fora da ciência econômica e da economia

política? Chamar o consumo de “singularidade” é caracterizá-lo como algo externo ao domínio do cálculo racional, algo potencialmente incontrolável, caótico e imprevisível. Portanto, o estado atual de demandas, necessidades e desejos (e, assim, as qualidades e políticas da vida cotidiana) fica em segundo plano na teoria geral. O capital é tratado como agnóstico em relação a que valores produzir para satisfazer o consumo final, e parece indiferente à questão de as pessoas quererem cavalos, fuscas ou BMWs. O capitalista parece dizer ao consumidor: o que quer que você sonhe, demande, necessite ou deseje nós produziremos, desde que você tenha dinheiro suficiente para comprá-lo. Com isso, evita-se a questão do desenvolvimento histórico e geográfico dos padrões reais de consumo e dos estilos de vida. No Livro I de O capital, Marx pressupõe a existência constante de uma demanda efetiva, e que as mercadorias (com exceção da força de trabalho) são negociadas por seu valor. Isso permite a Marx produzir uma teoria geral da acumulação capitalista dotada da mesma relevância para regimes de consumo final inteiramente distintos. Essa é a vantagem de se abstrair de todo o regime distintivo de valores de uso. Se Marx tivesse se prendido aos hábitos de consumo da Inglaterra de meados do século XIX, não poderíamos lê-lo do modo como fazemos hoje.

Mas há algumas forças gerais em ação que precisam ser elaboradas. Se a

mercadoria não é mais demandada, requerida, almejada ou desejada como um valor de uso, então ela não tem valor algum. Portanto, tanto velhos como novos usos e carências têm de ser estimulados para manter a acumulação em marcha. O problema é que “a mercadoria ama o dinheiro,

mas ‘the course of true love never does run smooth’” 6. “Hoje o produto satisfaz uma necessidade social. Amanhã é possível que ele seja total ou parcialmente deslocado por outro tipo de produto semelhante”. Desde a época de Marx, criou-se uma vasta indústria para estimular a demanda por intermédio da moda, da publicidade, da ênfase em escolhas de estilos de vida etc. Mas a curiosidade e o desejo humanos não são uma tabula rasa na qual qualquer coisa pode ser escrita. Basta observar a vivacidade com que crianças pequenas manifestam o desejo de jogar quando ganham um iPad para reconhecer que o brilhantismo de Steve Jobs reside tanto em sua compreensão das demandas, necessidades, desejos e capacidades humanas quanto em sua sofisticação técnica.

A manipulação e a mobilização dos desejos humanos foram e continuam

a ser fundamentais para a história do capitalismo; contudo, Marx as exclui da economia política precisamente porque considera que lidar com isso é tarefa da história. Mas elas não são algo inteiramente fora da elaboração teórica.

Os trabalhadores, por exemplo, fazem escolhas sobre como e com que

gastam seu dinheiro, assim o estado de suas demandas, necessidades e desejos pode ser importante. A manutenção dos equilíbrios necessários entre os diferentes setores da economia pode exigir, como sugere Marx, a manipulação do consumo de massa para tornar o consumo dos trabalhadores “racional” em relação à acumulação. Por isso, a filantropia burguesa frequentemente busca canalizar os hábitos de consumo dos trabalhadores para modos favoráveis à acumulação. Isso seria claramente exemplificado mais tarde pelo uso que Henry Ford fazia dos assistentes sociais para monitorar e dirigir os hábitos de consumo dos trabalhadores quando introduziu em suas fábricas o salário de cinco dólares pela jornada de oito horas de trabalho. A distinção entre bens de luxo e bens de salário também se tornou importante, porque a dinâmica do consumo burguês e a do consumo dos trabalhadores são qualitativamente diferentes.

Ao longo de O capital, os diversos modos pelos quais o consumo pode

afetar a produção são amplamente descritos em termos formais e técnicos, e não como relações sociais e modos de vida cotidiana dotados de uma dinâmica própria. Marx evita qualquer caracterização específica da natureza e da forma dos hábitos de consumo final, e certamente evita qualquer menção a preferências culturais, moda e valores estéticos, ou a compulsões e desejos humanos (o papel da sexualidade na formação do consumismo, por exemplo). Mas, na exposição de Marx, podemos claramente ver certos imperativos que explicam por que a China é hoje o maior mercado de BMWs, embora até alguns anos atrás suas ruas estivessem cheias de bicicletas.

Parte do trabalho que Marx deixou para nós consiste, portanto, em chegar

a uma melhor compreensão do consumismo contemporâneo do que aquela que costumamos ter. As metodologias tradicionais da investigação econômico-política não funcionam muito bem nessa esfera (e essa é provavelmente a razão pela qual Marx evitava introduzir no campo da economia política uma quantidade demasiada de fatos do consumo). Isso se aplica na mesma medida ao consumo produtivo – a aplicação de trabalho no processo de trabalho para consumir materiais na produção de mercadorias. Reconhece-se, em particular nas obras de Mario Tronti e Antonio Negri, que a dificuldade de controlar o caráter singular dos trabalhadores empregados tem um enorme potencial revolucionário, precisamente por seu caráter singular.

Em tempos recentes, foi realizada uma enorme quantidade de estudos

sobre o consumo e o consumismo, sobretudo no campo dos estudos culturais; infelizmente, muitos não conseguiram situar o tema em conexão com a totalidade de relações consideradas por Marx. Muitos desses estudos foram concebidos com uma postura antagônica ao caráter de lei necessária da acumulação do capital. Em certo sentido, evidentemente, esse antagonismo está correto, e constitui precisamente a razão por que Marx sustentava que no consumo há singularidades, e não generalidades. Mas na medida em que o fim último do ato histórico (oposto à economia política como lei necessária) é entender o modo de produção capitalista como uma totalidade orgânica em evolução, então toda tentativa de entender nossa conjuntura atual exige que se insira no campo da investigação o mundo do consumo, das subjetividades políticas e das preferências estéticas, culturais e políticas dos indivíduos, não como um substituto para a economia política, mas como um campo fundacional e complementar de análise.

Evidentemente, o mundo do desejo humano não se encontra livre da

influência marcante das leis de movimento do capital. O modo como o capital transformou nosso mundo material tem implicações no modo como também nossas concepções, nossa estrutura psicológica, nossas demandas, necessidades e desejos, e nossa autocompreensão foram transformados. Quando as leis de movimento do capital produziram a suburbanização como resposta ao persistente problema da super-acumulação, esse processo foi acompanhado de uma transformação de gostos, preferências, demandas, desejos e subjetividades políticas. E como tudo isso se impregnou na cultura, a rigidez dessas preferências culturais acabou criando uma séria barreira à mudança revolucionária. Se, por exemplo, é necessário revolucionar e rejeitar os modos suburbanos de vida a fim de se abrir novos caminhos para a acumulação do capital ou, de forma ainda mais premente, para a transição ao socialismo por intermédio da reurbanização, então a feroz intervenção de poderosos instrumentos políticos nos estilos de vida e nos hábitos culturais suburbanos terá primeiro de ser confrontada e, em algum momento, superada.

É inegável que Marx, ao longo dos três livros de O capital, opera no

âmbito da “silogística fraca” derivada da economia política clássica e que, em grande medida, confina suas investigações teóricas no nível da generalidade, no interior de um modo de produção capitalista de funcionamento perfeito. Nos textos que chegaram até nós, ele marginaliza e frequentemente exclui questões de universalidade (relação com a natureza), particularidade (relações de troca e distribuição) e singularidade (consumo e consumismo), ainda que em vários planos de estudo (como o dos Grundrisse) reconheça que, para completar seu projeto, precisaria escrever outros livros sobre, por exemplo, a concorrência (no Livro III há um capítulo não muito instrutivo sobre esse tópico), o Estado e o mercado mundial. Quando atinge um ponto em O capital em que o arcabouço não funciona, como veremos nos capítulos sobre a circulação do capital portador de juros, ele finalmente passa adiante. Contudo, não tenta reespecificar como seriam as leis de movimento sob essas novas condições, em que o arcabouço não funciona.

O Livro II de O capital é escrito quase inteiramente à sombra do modelo

da “silogística fraca”, que Marx tendia a impor a todas as suas investigações econômico-políticas. Ele raramente se aventura além desse modelo. Embora amplo e esclarecedor em algumas direções, o mundo teórico que ele descreve é, em outras, rigorosamente limitado. Confinando-se tão estreitamente no nível da generalidade, Marx pôde chegar a uma compreensão do capital que transcendia as particularidades históricas de sua época. Essa é a razão pela qual podemos lê-lo hoje – mesmo o Livro II – e compreender o que ele tem a dizer. Por outro lado, esse arcabouço torna difícil qualquer aplicação imediata às circunstâncias efetivamente existentes. Essa é a tarefa que nos foi legada. Podemos apreciar melhor a natureza dessa tarefa, no entanto, quando entendemos os limites autoimpostos da teoria geral de Marx e o que, dentro de suas limitações, essa teoria pode fazer por nós. É no espírito dessa questão que proponho abordar o conteúdo do Livro II. E é a essa empreitada estimulante, porém desafiadora, que darei início agora.