Para Entender O Capital: Livros II e III

David Harvey · Capítulo 46 de 61

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Para Entender O Capital: Livros II e III

VIII. O Tempo e o Espaço do Capital

(Capítulos 12-14 do Livro II)

 

Felizmente, os capítulos 12-14 do Livro II são escritos de maneira

bastante simples e lúcida. Não apresentam nenhuma dificuldade particular e, de todo modo, repetem os temas sobre o tempo de rotação que foram apresentados nos capítulos 5 e 6. Assim, temos um ponto de retorno fácil ao mundo do Livro II, depois de experimentar o tumulto e as confusões da especulação financeira do Livro III.

Marx aborda aqui alguns fatos materiais óbvios da produção e da

circulação que afetam os tempos totais de rotação do capital. O tempo total de rotação é constituído do tempo de produção mais o tempo de circulação, mas o tempo de produção se divide em período de trabalho – quando o trabalho produtor de valor é efetivamente aplicado na produção de mercadorias – e tempo necessário para que o processo de produção seja completado sem nenhum input de trabalho (como, por exemplo, em grande parte da produção agrícola). O capítulo 12 é sobre “o período de trabalho”, definido como a “sucessão de um número maior ou menor de jornadas de trabalho conexas” necessária para incorporar valor e mais-valor numa dada mercadoria, seja ela uma locomotiva ou algodão. O capítulo 13 é sobre “o tempo de produção”, que é o tempo de trabalho mais qualquer tempo extra que seja necessário para acabar a mercadoria sem dispêndio de trabalho (por exemplo, o tempo para fermentação, amadurecimento, maturação etc.). O capítulo 14 trata do “tempo de curso”, que é o tempo necessário para levar a mercadoria ao seu destino final para o consumo. Tenho um interesse particular nesse capítulo, já que o tempo de circulação é muito afetado pelo tempo e pelo custo do transporte (uma questão que já encontramos anteriormente) e também por decisões locacionais (como a tendência dos fornecedores de se instalar no entorno do local de produção para minimizar o tempo e o custo do transporte). Isso coloca a questão do papel das relações espaciais, das economias de aglomeração e da produção do espaço na circulação e na acumulação de capital.

A heterogeneidade das temporalidades dos períodos de trabalho, dos

tempos de produção e dos tempos de circulação é, observa Marx, “infinita”, e isso coloca problemas potenciais de coordenação entre os diferentes ramos da produção no interior da divisão geral do trabalho. Embora a fiação do algodão possa ser feita continuamente ao longo do ano, sua colheita ocorre somente uma vez nesse período. Isso gera questões complexas sobre a quantidade de capital que é vinculada (entesourada, seja como mercadoria, seja como dinheiro) para cobrir as disjunções entre os diferentes tempos de rotação. O capital entesourado é inativo e, portanto, não produz mais-valor. Grandes estoques e reservas de algodão cru, por exemplo, mantêm inativa boa parte desse capital-mercadoria. Esse capital, diz Marx, é tecnicamente “desvalorizado” ou “imobilizado”. Isso, como vimos, é um problema sério e que precisa ser enfrentado, seja pelo sistema de crédito, seja por outros meios.

Há, portanto, uma pressão crescente para encontrar maneiras de reduzir a

quantidade de capital mantida em estado ocioso. É aqui que entram em jogo técnicas como tempos acelerados de rotação e gerenciamento de estoques, além de arranjos institucionais como o sistema de crédito. O impulso competitivo para encurtar os períodos de trabalho e os tempos de produção teve efeitos de longo alcance. Por exemplo, inovações tecnológicas e organizacionais (como o sistema just-in-time, desenvolvido no Japão nos anos 1980) ajudaram a reduzir ao mínimo os estoques de capital-mercadoria (e, portanto, de capital ocioso). Se a colheita de algodão é feita somente uma vez no ano, diferentes tempos de colheita em diversas partes do mundo ajudam a aumentar a disponibilidade de algodão ao longo do ano e, assim, reduzem a necessidade de grandes estoques. Houve também, na história do capitalismo, um impulso constante para economizar custos e tempos de deslocamento.