Para Entender O Capital: Livros II e III
V. Juro, Crédito e Finanças
(Capítulos 21-26 do Livro III)
Observações Gerais
Começo com uma visão geral da argumentação de Marx nesses primeiros
capítulos sobre o capital monetário porque, como acontece com frequência em Marx, é difícil vislumbrar o bosque olhando apenas para as árvores. O fluxo inteiro da argumentação é, de fato, muito interessante, e os laços que amarram esses capítulos e lhes dão unidade são muito fortes.
Em primeiro lugar, tenho de recordar ao leitor que o texto de que
dispomos foi penosamente reconstituído por Engels a partir dos manuscritos de Marx. Se, por um lado, a maioria de nós reconheceria seu enorme esforço para se manter fiel à intenção de Marx, estudos subsequentes dos manuscritos originais indicam que nem todas as escolhas de Engels foram acertadas. Foi ele, por exemplo, quem criou as divisões e subdivisões dos capítulos a partir de um manuscrito contínuo. Assim, não surpreende que a ligação entre os capítulos seja tão estreita. Você também perceberá que longas passagens foram inseridas pelo próprio Engels, num esforço para completar, corrigir ou atualizar a obra de Marx. Não tratarei desses problemas aqui. Devo proceder como se o texto que temos diante de nós fosse um esboço acurado, mesmo que incompleto, das ideias de Marx.
Marx começa observando que há mais sobre o papel do dinheiro como
capital do que aquilo que ele considerou até o momento. A posse de dinheiro abre o caminho (e isso é uma precondição necessária) para a produção do mais-valor e, consequentemente, para a produção de capital. O capital monetário (definido como dinheiro usado para produzir mais-valor) pode, portanto, assumir uma forma-mercadoria. Ele tem tanto um valor de troca (um preço) como um valor de uso. Seu valor de uso está no fato de ele facilitar a produção de mais-valor. Seu valor de troca (preço) é o juro. Essa é uma leitura muito diferente daquela do Livro II, em que Marx sustenta que o dinheiro, como capital, só pode atuar como dinheiro, isto é, ser usado para comprar e vender. Essa mudança conceitual é importante. Não penso que Marx tenha apenas mudado de opinião ou esteja sendo incoerente. Também não se trata de um daqueles exemplos de mudança dos significados relacionais à medida que o contexto do estudo se desdobra. Como então explicar essa mudança?
Quando nos confrontamos com questões desse tipo, penso que é sempre
recomendável examinar o movimento global da argumentação de Marx. O ponto importante nesses capítulos é a ressurreição explícita do conceito de fetichismo, que ocupa um lugar vital no primeiro capítulo do Livro I. As verdadeiras bases do capital (isto é, da produção de mais-valor), ele afirma ali, encontram-se sob aparências superficiais que, embora reais, são enganosas. É verdade que vamos ao mercado e usamos dinheiro para comprar mercadorias (inclusive força de trabalho). O problema é que essas relações de mercado mascaram o caráter social e sensível do trabalho incorporado na produção de mercadorias e o processo que levou as mercadorias ao mercado. O projeto de Marx é ir além dessas aparências superficiais.
Então por que Marx retorna à natureza fetichista das aparências
superficiais nesse ponto do Livro III de O capital? Em nenhum outro lugar do livro ele faz isso tão explicitamente. Aqui, proclama que “o caráter fetichista do capital e a representação do fetiche do capital agora estão completos”. Ele parece quase contente e triunfal. O capital portador de juros é, diz ele, “a mistificação do capital em sua forma mais flagrante”.
Considero que essas observações são de grande importância. A
impressão que tenho é que Marx, tendo definido o fetiche desde o início como uma barreira externa, objetiva e real à verdadeira compreensão, pode agora retornar ao seu cerne com uma profunda compreensão interna e subjetiva de seu poder destrutivo e potencialmente violento. Em suma, agora podemos esperar penetrar na mente do especulador de Wall Street. Mas quem pode dizer realmente que está imune à sereia fetichista da pura vontade do dinheiro e a seu poder aparentemente ilimitado de acumulação infinita a uma taxa composta? Podemos esperar compreender o que penetrou também em nossas mentes?
Dito de maneira mais técnica, o dinheiro é retratado no Livro I como o
fetiche consumado (que ao mesmo tempo representa e esconde o caráter social do trabalho). De que maneira o dinheiro circula como capital é o tema da investigação do Livro II. Aqui, no Livro III, a circulação do capital portador de juros reaparece como a forma fetichista consumada da circulação do capital. Mas devemos entender por que o capital monetário parece ter o poder mágico e oculto de criar cada vez mais dinheiro em si e por si. Esse poder tem efeitos reais. Ele “distorce” e “mistifica” (essas são as palavras empregadas por Marx) as leis de movimento do capital com efeitos terríveis e vertiginosos. Assim, o capital corre continuamente o risco de ser vítima de suas próprias formas fetichistas e das compreensões falsas e fictícias que decorrem delas.
O que Marx faz, então, para dar corpo a esse argumento?
O preço (valor de troca) do capital monetário é chamado de juro, e o
ciclo do capital monetário aparece agora como a circulação do capital portador de juros. Não há, no entanto, nenhuma “taxa natural de juro” do tipo proposto pela teoria burguesa. Devemos lembrar que Marx considerava o preço “natural” (o preço das mercadorias quando a oferta e a demanda estão em equilíbrio no mercado) uma aproximação do valor. Nesse caso, porém, o “preço natural” não pode existir.
Então, o que determina a taxa de juro, considerando-se que não existe um
valor inerente ao capital monetário como mercadoria, ou uma taxa “natural” de juro? Ela é estabelecida em primeiro lugar, afirma Marx, pela oferta e demanda de capital monetário. Ao longo de O capital, no entanto, Marx sustentou que a oferta e a demanda, sendo “particularidades”, não explicam nada quando estão em equilíbrio. Não há nenhum ponto “natural” de equilíbrio. Acreditar nisso seria aceitar a verdade de uma proposição tautológica: valor pode gerar valor. A taxa de juro, diz ele, também é estabelecida pela concorrência. Mas as leis coercitivas da concorrência também são vistas como particularidades, como executoras das leis internas do movimento do capital que não são ditadas pela concorrência. Até agora, tanto a oferta e a demanda quanto a concorrência foram desconsideradas como “particularidades” (segundo a formulação dada nos Grundrisse). Nesse ponto, no entanto, elas ocupam o centro do palco e explicam tudo. Trata-se de uma enorme mudança conceitual.
Temos aqui, como eu gostaria de sugerir, um ponto de profunda tensão na
análise de Marx. Sua relutância (às vezes recusa obsessiva) em lidar com as particularidades no Livro II contrasta com a necessidade de lidar com elas aqui para entender a circulação do capital portador de juros.
Isso conduz à questão da relação entre essas particularidades e as leis
gerais de movimento do capital. É nesse contexto que ganha sentido o movimento que vai da realidade subjacente examinada no Livro II ao fetiche das aparências superficiais no Livro III. Vemos por que o capital não pode sobreviver sem suas formas fetichistas, e como estas últimas distorcem e mistificam as leis gerais do movimento. No entanto, como perceberam alguns críticos burgueses, se o capitalismo funciona realmente com base em suas formas de manifestação, por que não descrever simplesmente tais formas e esquecer toda essa complicação sobre realidades subjacentes, teoria do valor e coisas do gênero? A resposta de Marx seria provavelmente que as violentas contradições exibidas no movimento superficial só podem ser antecipadas e entendidas por meio de um estudo das dinâmicas subjacentes que produzem as formas do fetiche e sustentam as intervenções fetichistas nas leis de movimento do capital. Nosso objetivo ao ler esses capítulos, portanto, é descobrir como funcionam realmente essas relações entre leis subjacentes e formas de manifestação.
Marx trata o juro como “autônomo e independente” (palavras dele),
porém subsumido ao mundo da produção de valor e mais-valor. O que ele entende por “subsumido a” é o que precisa ser estabelecido. Dito de outro modo, a taxa de juro e a circulação do capital portador de juros podem trilhar caminhos autônomos e independentes porque são particularidades determinadas pelas oscilações da oferta e demanda e da concorrência. Existem – para empregar a linguagem da introdução dos Grundrisse – caminhos pelos quais essas particularidades retornam para afetar a generalidade da produção de uma maneira determinada, e não apenas contingente. Se é assim, como funcionam as leis gerais do movimento do capital quando essas particularidades operam livremente? Ou as particularidades estão de algum modo submetidas às leis gerais de movimento do capital?
Essa questão se torna fundamental porque Marx reconhece claramente
que a massa de capital monetário que chega ao mercado monetário pode agir e age como “o capital comum da classe”. Foi assim que ele ocasionou as grandes rupturas financeiras e comerciais de 1847-1848 e 1857, de modo muito semelhante como a crise de 2007-2009 balançou os alicerces do capital na nossa época. Se a circulação do capital portador de juros funciona como o “capital comum da classe”, como podemos excluí-lo de qualquer especificação das leis gerais do movimento do capital? Faço essa pergunta com a máxima ênfase, porque a resposta terá enormes consequências para o modo como teorizamos a formação da crise sob o capitalismo em geral, e como poderíamos utilizar os insights de Marx numa análise dos eventos recentes em particular.
O primeiro passo é examinar como a circulação do capital portador de
juros adquire autonomia e independência diante do mais-valor (lucro) gerado por meio da circulação do capital industrial. Marx começa distinguindo os capitalistas monetários (aqueles que têm o poder do dinheiro) dos capitalistas industriais (aqueles que organizam a produção de mais-valor). A taxa de juro é fixada pela concorrência entre essas duas frações de classe. Isso coloca a relação de poder entre capitalistas monetários e capitalistas industriais numa posição central do ponto de vista histórico, se não teórico.
A história dessa relação é às vezes interpretada teleologicamente – o
capital financeiro assumiu inevitavelmente uma posição cada vez mais dominante em relação ao capital industrial a partir de 1980, e isso produziu um tipo diferente de capitalismo – capital financeiro –, com leis de movimento diversas daquelas que foram definidas quando o capital industrial era dominante (como, supõe-se, era o caso na época de Marx). Em geral, Marx não desenvolve esse argumento (embora em certas passagens pareça fazê-lo), eu tampouco. Mas não há dúvida de que o equilíbrio de forças entre essas duas frações de classe (assim como entre elas e outras grandes frações, como os proprietários fundiários e os comerciantes) jamais foi estável, e certamente houve mudanças de hegemonia. Giovanni Arrighi, por exemplo, desenvolve em sua obra um argumento muito plausível de que as mudanças hegemônicas na economia global (por exemplo, da Inglaterra para os Estados Unidos na primeira metade do século XX) foram precedidas por fases de financeirização (do tipo que Hilferding, Hobson e Lênin descreveram no início dos anos 1900). A indubitável onda de financeirização que ocorreu a partir dos anos 1970 parecia pressagiar outra mudança de hegemonia (dos Estados Unidos para o Leste Asiático?). Para compreendermos a história do capitalismo, portanto, devemos levar em conta o equilíbrio de forças atualmente existente entre essas diferentes frações de classe em diferentes épocas e lugares, e as consequências oriundas da concorrência entre elas.
Marx vai além, porém. O que de início aparece como uma relação entre
frações de classe é, na realidade, internalizado na pessoa do capitalista individual. Todos os capitalistas encarnam dois papéis muito distintos. Os capitalistas industriais têm sempre de conservar uma parte de seu capital na forma de dinheiro. Eles têm sempre a opção, portanto, de usar seu dinheiro para produzir mais mais-valor (e lucro) por meio da expansão da produção, ou simplesmente emprestar a outrem em troca de juros. A lógica dessa decisão oferece possibilidades atraentes para o capitalista individual. O que você faria no lugar dele? Assumiria todo o incômodo da produção real de mais-valor (tendo de lidar com trabalhadores insolentes, maquinaria pouco confiável e mercados inconstantes) ou apenas emprestaria o dinheiro para ganhar juros e com a renda iria viver nas Bahamas? Segundo Marx, a ambição de muitos capitalistas industriais na Inglaterra frequentemente era trabalhar na produção até poderem se tornar rentistas ou financistas, e então se mudar para uma propriedade rural e viver confortavelmente de renda. Mas se todos procurassem viver do juro ou da renda e ninguém produzisse mais-valor, observa Marx, a taxa de juro cairia a zero, e o lucro potencial sobre o reinvestimento na produção atingiria altitudes inéditas. Encontramos aqui ao menos um ponto em que a circulação do capital portador de juros tem de se submeter à produção de mais-valor.
Isso nos leva a outra questão: existe algum tipo de equilíbrio entre a taxa
de lucro sobre o capital industrial e a taxa de juro sobre o capital monetário? O juro junta-se ao lucro sobre o capital comercial na equalização da taxa de lucro? No caso do capital comercial, há uma metamorfose (uma transação efetiva) em que o capital em forma-mercadoria é realizado como dinheiro. Mas o juro é muito diferente, porque é uma relação entre dinheiro e dinheiro. Nesse caso, não há nenhuma metamorfose envolvida. O problema, portanto, é que o dinheiro, como insiste Marx no Livro I, pode ser acumulado sem limite. Em suma, o capital portador de juros parece ter o poder mágico (fetiche) de crescer a uma taxa de composição composta (ele é a galinha que parece ter o poder de botar ovos de ouro, como diz Marx no Livro I). Deposito dinheiro numa caderneta de poupança e ele cresce como por mágica. Se o dinheiro pode ser acumulado ilimitadamente, o capital monetário também pode. Essa é a suprema fantasia fetichista capitalista.
A fantasia do crescimento composto eterno é persistente – uma fantasia
que Marx destaca quando cita esta maravilhosa imagem de um tratado publicado em 1772: “um xelim investido a 6% de juro composto na época do nascimento do nosso Salvador teria aumentado para uma soma tão grande em ouro que não caberia nem mesmo no sistema solar inteiro”. Isso poderia explicar, aliás, por que tivemos de abandonar o padrão-ouro e renunciar às mercadorias como lastro para o papel-moeda. A oferta global de dinheiro é ilimitada, porque é feita apenas de números. O Federal Reserve adiciona cerca de 1 trilhão à oferta de dinheiro num piscar de olhos (seria completamente diferente se adicionasse barras de ouro). A ideia da acumulação ilimitada, embora extrapole os limites do acreditável, realmente impulsionou a explosão monetária e comercial de 1847-1848 e 1857-1858, como mostra Marx. Relações de concessão e empréstimos podem fugir do controle e produzir cada vez mais dinheiro em forma de crédito (a proliferação de títulos de crédito). Isso confere necessariamente um caráter fictício a todos os mercados de crédito.
É aqui, então, que Marx invoca o conceito – muito importante, mas não
desenvolvido – de capital fictício. Isso dá uma feição mais tangível ao fetiche do capital monetário. Seu papel é abordado numa análise incompleta e, de certa maneira, confusa da crise de 1847-1848, tudo isso misturado com uma crítica das ideias de alguém chamado Overstone. Volto a enfatizar que o fetichismo, como definido no Livro I, é real e objetivo, mesmo quando esconde relações de valor subjacentes. A mercadoria é realmente trocada por dinheiro no supermercado, mas a maneira como ela faz isso esconde informação sobre o trabalho (valor) que entrou em sua criação. O capital fictício tem de ser entendido do mesmo modo. Ele não é produto da mente delirante de um banqueiro cocainômano de Wall Street, mas uma forma real de capital – dinheiro que se tornou mercadoria, dotada de um preço. Embora o preço seja fictício, somos todos forçados a responder por ele (seja pagando uma hipoteca, procurando juros para a nossa poupança ou contraindo empréstimos para alavancar um negócio).
Trataremos dos detalhes dessa questão mais adiante. Mas há uma clara
ilustração de sua importância na discussão de Marx sobre a distinção entre o capital mutuado (o dinheiro emprestado para a expansão da produção) e o dinheiro empregado para descontar letras de câmbio (que facilita a realização do valor no mercado). O capital monetário intervém na circulação do capital industrial em dois pontos distintos: no início e na conclusão do ciclo. O mesmo financista pode emprestar dinheiro aos empreiteiros para a construção de imóveis e, em seguida, garantir mercado para esses imóveis concedendo empréstimos aos futuros compradores. Desse modo, o capital monetário facilita tanto a oferta como a demanda de mercadorias. É fácil ver que isso pode se tornar um circuito fechado (uma bolha de ativos, digamos, na produção e realização de imóveis). Esse é o ponto em que a taxa de juro e a taxa de lucro se interseccionam e interagem de maneira extremamente significativa e, muito frequentemente, especulativa.
O fluxo da argumentação nesses capítulos vai dos aspectos técnicos da
circulação para o território bem mais profundo em que todas as vulnerabilidades, fragilidades e pontos potenciais de disrupção identificados no Livro II se tornam cada vez mais tangíveis. O capital monetário e, sobretudo, os capitalistas monetários tornam-se autônomos e independentes, mas, de certa maneira, subordinados à produção de mais-valor. O caráter fetichista da forma-dinheiro permite a criação de fantasias e ficções que explodem periodicamente como crises financeiras e comerciais violentas e incontroláveis.
Mas ambos os papéis, o do dinheiro e o do capitalista produtivo, são
internalizados na mesma pessoa. O modo como as pessoas percebem sua situação e se comportam é muito importante para a compreensão das dinâmicas da acumulação do capital. Marx não se sentia nem um pouco à vontade para explorar essas “singularidades” (o funcionamento interno do espírito de empreendedorismo, a psicologia das expectativas e o papel da confiança nas transações financeiras), mas há elementos suficientes nesses capítulos que sugerem que ele estava ciente de quão importantes essas questões poderiam ser numa análise completa (os aspectos psicológicos dessa questão seriam explorados de modo muito mais explícito, é claro, por Keynes, e as “expectativas” se tornaram hoje um campo autônomo de investigação em economia burguesa).
A análise apresentada aqui ajuda a entender a crise financeira e
econômica de 2007-2009 e toda a sequência de crises financeiras que a precederam. Mas temos de ter cuidado para não distorcer o significado do texto de Marx ou exagerar o que poderíamos aprender de sua teorização incompleta e frequentemente nebulosa acerca das crises de 1847-1848 e 1857-1858.
O eixo filosófico em que gira a argumentação mais técnica de Marx se
encontra, penso eu, no seguinte comentário:
Se o juro é o preço do capital monetário, trata-se de uma forma
irracional de preço, em completa contradição com o conceito do preço como mercadoria. O preço é aqui reduzido a sua forma puramente abstrata, completamente desprovida de conteúdo, como uma simples soma particular de dinheiro paga por algo que, de uma maneira ou de outra, figura como um valor de uso; ao passo que, em seu conceito, o preço é o valor desse valor de uso expresso em dinheiro. O juro, como o preço do capital, é desde o início uma expressão completamente irracional. Aqui, uma mercadoria tem um duplo valor: primeiro um valor e em seguida um preço que é diferente desse valor, embora o preço seja a expressão monetária do valor.
O que vemos aqui é nada menos que a tautologia do valor do valor. Já
encontramos antes algo semelhante a esse argumento. No Livro I, Marx observa:
coisas que em si mesmas não são mercadorias, como a
consciência, a honra etc., podem ser compradas de seus possuidores com dinheiro e, mediante seu preço, assumir a forma-mercadoria, de modo que uma coisa pode formalmente ter um preço mesmo sem ter valor. A expressão do preço se torna aqui imaginária, tal como certas grandezas da matemática. Por outro lado, também a forma-preço imaginária – como o preço do solo não cultivado, que não tem valor porque nele nenhum trabalho humano está objetivado – abriga uma relação efetiva de valor ou uma relação dela derivada.
O exemplo principal que Marx cita é o da renda e do preço da terra não
cultivada. Ele poderia ter observado que o mesmo é válido para o dinheiro. Mas no Livro I, no capítulo sobre o dinheiro, esse exemplo teria confundido imensamente as coisas, já que o capítulo é, em si mesmo, suficientemente confuso. Agora vemos que a forma-preço imaginária se aplica ao próprio dinheiro. Isso põe alguns problemas muito profundos e particulares: o que tal “forma-preço imaginária” fetichista tem de diferente dessas “relações reais de valor”? E como deveríamos pensar sobre seu papel?
E o que exatamente Marx entende por “irracional e contraditório”? Ele
não quer dizer que o juro é irracional e contraditório como um discurso de Sarah Palin ou um monólogo de Groucho Marx. Se fosse assim, teríamos de rejeitar a categoria de juro como arbitrária, lavar as mãos e apenas rir ou chorar, conforme as implicações. Creio que Marx faz uma analogia com a teoria dos números (daí a alusão a “certas grandezas da matemática”), na qual a distinção entre números racionais e irracionais é crucial. Os números irracionais são aqueles que não podem ser reduzidos a uma fração, e incluem exemplos conhecidos, como Ö2 e π (que, longe de ser arbitrário, é uma das constantes mais importantes da teoria matemática e estabelece a razão entre a circunferência e o diâmetro de um círculo).
Marx está dizendo, na verdade, que ocorre algo incomensurável e,
portanto, irracional e contraditório na determinação da taxa de juro. Quando consultei a Wikipédia para saber mais sobre os números irracionais (estou longe de ser um especialista nesses assuntos), encontrei algo interessante. Os números irracionais foram descobertos por Hipaso, um pitagórico grego que mostrou que eles eram (assim como a taxa de juro) “incomensuráveis, irracionais e contraditórios”. Como a posição pitagórica era, de modo geral, que todas as relações podem ser reduzidas a números inteiros e suas razões, a descoberta de Hipaso foi um choque para seus colegas pitagóricos. Diz a lenda que Hipaso descobriu os números irracionais a bordo de um barco, e foi prontamente jogado ao mar. Essa é, sem dúvida, a reação típica dos acadêmicos quando alguém refuta sua teoria favorita. Marx foi lançado ao mar há muito tempo pelos economistas, que hoje ficam horrorizados ao ouvir que uma de suas categorias mais fundamentais – a taxa de juro – é incomensurável, irracional e contraditória. Marx, porém, é um nadador forte nas vagas da história. Ele continua a voltar a bordo para lembrar a todos que esse é o caso, de fato, como deveria ser evidente para todos aqueles que, mesmo da maneira mais superficial, testemunharam os eventos de 2007-2009. Se ele será novamente jogado ao mar depende de as coisas se arranjarem num nível satisfatório para a acumulação composta e ilimitada do capital e da riqueza.
A irracionalidade e o caráter contraditório do juro sobre o capital têm de
ser considerados no sentido dessa teoria do número. Só assim podemos então ver como formas fictícias são produzidas e com que efeito, de modo muito semelhante a como π pode ser usado na engenharia. Pensar dessa maneira nos coloca em posição muito melhor para entender tanto as consequências práticas quanto as teóricas que decorrem delas.
Há, no entanto, dois problemas grandes e inter-relacionados que devemos
abordar. Primeiro: em que medida a insistência de Marx no caráter fetichista do juro que sustenta a categoria do capital fictício altera nossa compreensão do funcionamento das leis gerais de movimento do capital? Se aparentemente a categoria distributiva do capital comercial pode ser absorvida pelo arcabouço teórico que Marx construiu até aqui, o mesmo não pode ser dito dos efeitos da circulação do capital portador de juros em relação à circulação do capital industrial. A meu ver, e apesar dos protestos de Marx, isso vale também para o outro “número irracional” tão crucial na teoria de Marx: a renda fundiária. Assim como o juro, a renda fundiária é uma forma real de capital fictício, que tem consequências reais. Se você mora em Manhattan, você não dirá que a renda fundiária e os preços dos imóveis são fictícios e que não paga nada por essa ficção. Muitas pessoas que compram fazem isso pagando juros sobre uma hipoteca – que é uma forma de capital fictício.
O que isso nos diz a respeito das forças que fazem a taxa de juro se
submeter e se subordinar à produção de valor e mais-valor? Embora esteja claro que não podemos todos viver de juros ou rendas se ninguém produz valor, e embora haja uma percepção dominante de que em crises comerciais e monetárias como aquelas de 1847-1848 e 1857-1858 – e, no nosso caso, 2007-2009 – entra em ação uma espécie de poder disciplinador que reconduz todas as fantasias e ficções da atividade financeira à terrenalidade da produção real, na análise de Marx há indicações perturbadoras de que a relação de poder entre as finanças e a produção poderia ocorrer também de maneira inversa.
Uma dessas indicações se encontra numa questão aparentemente
interessante para a análise de Marx. Quando um capitalista industrial acumula capital em forma-dinheiro e o coloca num banco para render juros (o que ocorre, como vimos, em relação à circulação de capital fixo porque o capitalista tem de entesourar capital monetário para repô-lo), esses juros aparecem como uma taxa pura de retorno sobre o direito de propriedade. Esse retorno passivo sobre o puro direito de propriedade contrasta com a criação ativa de mais-valor mediante a organização e a superintendência da produção. Então por que o capitalista não paga salários de superintendência a alguém para cuidar da produção, enquanto ele vive do retorno do puro direito de propriedade? Disso surge uma distinção interessante e fundamental na história do capitalismo entre a posse, de um lado, e a superintendência e a gestão, de outro. Com esses pontos gerais em mente, vejamos agora os detalhes do texto.