Para Entender O Capital: Livros II e III
Sobre o Capítulo 26 do Livro III: A Acumulação do Capital Monetário
Sobre o Capítulo 26 do Livro III: A Acumulação do
Capital Monetário
Esse capítulo é constituído em grande parte de longos trechos de outros
comentadores, seguidos de uma extensa citação das provas apresentadas no “Report of the Parliamentary Commitee on the Bank Acts” (cujo foco principal é o depoimento de Overstone). Embora Marx faça um comentário crítico aqui e ali, é difícil identificar uma crítica sistemática. Não está claro se ele aceita inteiramente algumas das visões que apresenta ou se apenas copiou passagens para fazer uma análise crítica posterior.
Ele começa, por exemplo, com uma longa citação de Corbet, que me
parece particularmente interessante. A contínua acumulação de riqueza em dinheiro na Inglaterra põe um problema para Corbet:
Depois do desejo de adquirir dinheiro, o desejo mais urgente é
livrar-se dele novamente por meio de algum tipo de investimento que renda juro ou lucro; pois o dinheiro mesmo, enquanto tal, não rende nenhum dos dois. A menos que, simultaneamente a esse influxo incessante de capital excedente, ocorra uma gradual e suficiente ampliação do campo para sua aplicação, temos de nos submeter a acumulações periódicas de dinheiro em busca de investimento, de maior ou menor volume, de acordo com a dinâmica dos acontecimentos. Por uma longa série de anos, a dívida pública foi o grande meio de absorção da riqueza excedente na Inglaterra [...]. Empresas que necessitam de um grande capital para seu funcionamento e que de tempos em tempos criam uma abertura para o excesso de capital não empregado [...] são absolutamente necessárias, ao menos em nosso país, para dar vazão às acumulações periódicas da riqueza supérflua da sociedade que não encontram espaço nos ramos habituais de aplicação.
Marx não faz nenhum comentário sobre essa passagem, seja pró ou
contra. No entanto, em diversos pontos de O capital, o que chamo de “problema da disposição do excedente de capital” entra em foco. É interessante que, na visão de Corbet, o débito nacional, longe de ser o terrível fardo que tão frequentemente se presume que seja, é uma válvula de escape positiva, e as grandes empresas (que realizam, por exemplo, grandes obras públicas, infraestrutura, projetos de urbanização) são também “absolutamente necessárias” para que os excedentes de capital sejam absorvidos. Tudo isso se encaixa na ideia geral, que me é pessoalmente cara, de que a acumulação de riqueza precisa ser acompanhada de acumulação de dívida. Não posso afirmar explicitamente que Marx teria chegado a essa visão, mas ele certamente não a rejeita.
O que sabemos com base nesse capítulo é que Marx desaprovava a maior
parte do chamado “princípio monetário [currency principle]”, como expresso pelo sr. Norman, na época diretor do Banco da Inglaterra, e desprezava inteiramente as visões de lorde Overstone, banqueiro e “lógico usurário”. Mas já que as questões substantivas são exploradas mais adiante no texto de Marx, adiarei a análise delas até o próximo capítulo.