Para Entender O Capital: Livros II e III

David Harvey · Capítulo 22 de 61

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Para Entender O Capital: Livros II e III

Capital Consumido versus Capital Empregado

 

As ideias esboçadas nesses capítulos têm outras implicações

potencialmente fecundas. Por exemplo, a distinção entre “o capital aplicado no processo de produção” e “o capital nele consumido”. Marx aponta a existência dessa distinção, mas não chega a desenvolvê-la profundamente, limitando-se a constatar que a primeira forma supera a última à medida que o capital se desenvolve. Em particular, ele não explora as implicações dessa distinção para a medição da composição de valor do capital, que desempenha um papel tão crucial em sua teoria da taxa tendencial da queda do lucro. Obviamente, a composição de valor do capital é muito mais alta (e, mantendo-se constantes as demais circunstâncias, a taxa de lucro é muito mais baixa) se o capital empregado é considerado a grandeza relevante. A maioria dos analistas preferiria o capital consumido, mas a enorme e crescente quantidade de capital empregado dá um peso intuitivo à teoria da queda tendencial da taxa de lucro (o argumento é “basta olhar para enorme quantidade de capital fixo físico em nossa sociedade em comparação com épocas mais simples” e “é óbvio que a composição de valor do capital está aumentando rapidamente”). Uma forte onda de investimento de capital fixo pode aumentar o capital empregado, mas não tem nenhum impacto sobre o capital consumido num dado tempo de rotação. De fato, se esse investimento ajuda a economizar no uso de capital constante líquido, então poderia ser associado a uma composição de valor decrescente do capital consumido e a uma taxa crescente de lucro. Mas a distinção entre capital empregado e capital consumido também é sensível a mudanças nos tempos de rotação. Engels reconheceu a importância de tudo isso para a medição da taxa de lucro e, por essa razão, inseriu na análise do Livro III um capítulo dedicado ao efeito dos tempos variáveis de rotação sobre a taxa de lucro.

A categoria do capital fixo depende, como vimos, do uso dado pelo

usuário: “Por exemplo, uma máquina, como produto ou mercadoria do fabricante de máquinas, faz parte de um capital-mercadoria. Ela só se torna capital fixo nas mãos de seu comprador, o capitalista, que a utiliza produtivamente”. Além disso, tão logo uma nova mercadoria é produzida, desaparece a distinção entre o valor dos componentes fixos e o dos componentes circulantes que entram em sua produção. Se mudam os usos, o capital fixo ou é dissolvido ou é instantaneamente criado. Por exemplo, como já observamos, uma casa habitada não é capital fixo, mas uma fábrica é. Porém, se começo a fabricar coisas na minha casa – instalar máquinas de costura e contratar imigrantes para fazer camisas –, ela se converte subitamente em capital fixo. Quando uma casa que antes abrigava uma confecção é convertida em residência, ela passa da categoria de capital fixo para a de fundo de consumo. Além disso, o capital é fixo apenas em relação ao tempo de rotação daquela parte do capital definida como líquida. Uma máquina produzindo sorvete numa base diária é capital fixo, mas um tipo similar de máquina usado na produção de um navio petroleiro que leva dois anos para ser construído não será capital fixo se for inteiramente consumida no período de produção.