Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 8 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 2

CASA DA INFÂNCIA

 

A casa representa para os indivíduos seus valores

sentimentais, suas lembranças e recordações. Essa é o canto do

mundo em que nos encontramos... Sem ela, seríamos seres

isolados.

Gaston Bachelard

 

A casa da m inha infância tinha dois andares e um quintal à sua volta. Era cheia de cantos de solidão, de m istério. Nem sem pre se entendiam as conversas dos adultos. Um a tia de quem pouco se fala, a m orte m isteriosa de um conhecido, a conversa interrom pida quando as crianças se aproxim am , a ordem inevitável de ir im ediatam ente para a cam a... Passei m uito tem po achando que trom pa de falópio era “peru”, por causa de um livro ilustrado que a m am ãe tentava esconder num a prateleira alta da estante.

A velha m áquina de costura, com prada durante a Segunda Guerra, era um a m esa de escritório fabulosa! As gavetas, duas de cada lado, deslizavam que era um a beleza! Era um tal de procurar fichas naqueles arquivinhos que não tinha m ais fim ! A gaveta de talheres da sala de j antar era retirada da sua habitual m orada, indo para dentro de um caixote. Transform ava-se, subitam ente, num a eficiente m áquina registradora, e nas suas diversas divisões o dinheiro do banco im obiliário era devidam ente arrum ado. As roupas do arm ário vinham todas para fora. Ficavam penduradas à venda na grade da j anela, num grande m agazine colorido!

Havia um a m agia recobrindo os obj etos, a qual era responsável pelos verdadeiros valores da intim idade. Um a linguagem aparentem ente incom preensível: a poltrona se tornava séria com o a cara do papai. O lustre era horroroso, m as sem ele a sala não seria aquela, tão fam iliar. A toalha branca, posta só aos dom ingos na m esa de j antar, m udava tudo ao redor, assim com o as colchas especiais, que só apareciam para anunciar um dia festivo. Que sabor diferente tinha a escadinha que subia para o sótão da que descia para o porão ou da que levava para o m eu quarto! E são essas pequenas lem branças, incorporadas de tal form a, que fazem parte de m im até hoj e. Minha casa foi um a grande m ãe que m e protegia. Em cada buraquinho, criava um a história infantil.

Éram os quatro, sendo eu o terceiro e único filho. Papai, com o com andante de avião, usava a farda m ais linda e im ponente que j á vi. Com o eterno viaj ante, era tam bém um eterno visitante – de quem tínham os sem pre saudades – e, consequentem ente, desobrigado do chato cotidiano. Este cabia à m am ãe, defensora árdua do direito de a m ulher trabalhar fora. Resolvia tudo na falta do velho, desde as ordens para a em pregada até a solução dos trâm ites bancários. Procurava se atualizar, fazendo cursos livres, fosse de arte, fosse de linguística. Dedicava-se ao m agistério infantil com esm ero, em pregando os m étodos didático-pedagógicos m ais m odernos. Alfabetizou-nos antes m esm o de irm os para o colégio. Sem pre atenta aos deveres, era m ulher seca, econôm ica e coerente nos seus m étodos educacionais. Com base nessa lógica, podíam os prever, exatam ente, com o iria reagir. Quando negava determ inada coisa, sabíam os que a negaria sem pre. Nada variava conform e o seu hum or. Essa coerência nos dava segurança. Já papai era m ais cam arada, brincalhão e im previsível.

Sem pre adorei dirigir. Aos seis anos, pedi um j ipe ao Papai Noel. Um a sem ana antes do Natal, brincando na garagem da casa, dei de cara com um carrinho igualzinho ao que havia pedido. Fiquei alucinado! Saí correndo para contar à m am ãe que havia chegado antecipadam ente o m eu presente! Engasgada, negou que fosse o m eu. Deveria ser da criança que havia m orado antes na casa. Desconfiado, fiz um a m arquinha na traseira do j ipe e no dia de Natal fui conferir. Lá estava ela! Depois desse fato, passei a duvidar de Papai Noel, o que, aliás, m eu pai achou ótim o. Costum ava dizer que trabalhava, com prava os brinquedos, e quem levava a fam a era esse velho de barbas brancas.

O j ipinho era m ovido a pedais, e fazia questão de m anobrá-lo exatam ente com o um carro norm al. Levava um tem pão para estacionar. E foi nessa que quebrei o aro do volante. Ficou só um a barra de sustentação, e não podia m ais virar o corpo nas curvas. Lavava-o todos os dias, usando um pedaço de estopa com querosene, com o papai fazia com o dele. Rodei até os 13 anos, quando as pernas não cabiam m ais dentro do j ipinho e tinha de colocá-las sobre o capô, com alguém em purrando.

Meu segundo veículo foi um navio. Ficava ancorado na parte de baixo da casa. Era um banheirinho pequeno e velho, com um a privada. Suas paredes eram cobertas de azulej os am arelecidos e rachados. Nessa época, eu tinha m uita prisão de ventre. Para não m e angustiar com a dem ora no banheiro, arranj ei um j eito de ficar lá bastante tem po sem m e entediar. Sentava no vaso, ou m elhor, no banco da cabine do capitão, e tocava em determ inados azulej os, sem pre na m esm a ordem . Depois, esticava o pé e batia em alguns no chão. Segurava então o pino que trancava a j anela, torcia-o duas vezes para a direita, tornava a largar, esticava a m ão para cim a, puxando o apito do navio, que era a válvula, e pronto: com eçava a se locom over. Então, o cocô vinha que era um a beleza!

Dirigi tam bém um “ciclotáxi”. Batizei-o assim porque era feito com a bicicleta – quando não a virava de cabeça para baixo e fazia pipoca, rodando os pedais com as m ãos. Com o o quintal dava a volta ao redor da casa, dividi-o em quatro bairros distintos. Conform e o núm ero de voltas que desse, o m esm o lugar virava um novo bairro. Dessa form a, a pequena área onde brincava transform ava-se num a enorm e cidade. No bolso direito dos shorts, carregava o dinheiro do passageiro e, no esquerdo, levava o do troco. O dinheiro era de folhinhas de fícus, árvores que ladeavam o m uro.

Outra pilotada era na Vem aguet do papai, um a cam inhonete 1959. Virava avião, ônibus ou navio, conform e a vontade. Eu e Vânia, m inha irm ã caçula, abaixávam os prim eiro os bancos traseiros. Ela se sentava de costas para a j anela lateral do banco detrás, virando o trocador, enquanto eu, na frente, com o m otorista, m exia em todos os com andos.

Quando saturava dos brinquedos velhos, ficava im aginando o que poderia inventar. Foi num a dessas que acabei descobrindo os tacos da sala e a rede da varanda.

O assoalho da sala era de parquê paulista, em tons claro e escuro. Bastavam algum as fichas e regras, um dado, e estávam os diante do m aior tabuleiro que j á tínham os tido. Com o o desenho dos tacos era j unto às paredes, éram os obrigados a afastar alguns m óveis. Essa brincadeira só era possível quando m am ãe não estava em casa.

Tínham os duas redes. Um a era posta som ente nos dias quentes, no quarto dos velhos, para papai dorm ir no verão. A outra ficava na varanda do andar de baixo. Vânia, ou Van, com o a cham ava, era a m inha m elhor com panheira nas traquinagens, fosse roubando fruta no quintal do vizinho, fosse dando-m e guarida nas broncas da m am ãe ou gastando todo o sabão em pó da casa para brincarm os de “hom em das neves”. Na rede, fazíam os os núm eros circenses, exibindo-nos para um a plateia fictícia. O quadro final e m ais perigoso era o “salto da m orte”. Ficava de pé na rede aberta e em m ovim ento. A sonoplastia de um tam bor dava o tom de clím ax e suspense.

Minha especialidade nas apresentações era o equilibrism o da vassoura. Conseguia m antê-la alguns m inutos no queixo ou na palm a da m ão, passando-a depois por todos os dedos.

O quarto da em pregada era outra casa. Situava-se em cim a da garagem , independente, com um a escada de concreto. No seu vão inferior havia um a espécie de arm ário, sem pre escuro, úm ido e pavoroso. Im aginava-o cheio de baratas e outros bichos e nunca ousei botar a m ão no fundo, que coincidia com o início da escada. Associava-o aos lugares m ais horripilantes dos contos de fadas.

Mas a entradinha perto da porta era clara e não assustava. Nela colocávam os um a cesta de vim e, com os gatinhos que abandonavam no pátio do colégio ao lado. Só conseguíam os m antê-los ali com a desculpa de que não conseguíam os dorm ir com a m iadaria que faziam . E prom etíam os à m am ãe só dar leite até ficarem crescidos. Acabam os criando quase duas dúzias de gatos. Era um corre-corre para arranj ar conta-gotas, paninhos para enxugá-los, algodão para lim par as orelhinhas...

Felinos m e atraem até hoj e. Identifico-m e com o j eito arisco, a independência, a m aciez e a agilidade.

Apesar da m inha vivacidade, do casarão, das três irm ãs m ovim entando o am biente, fui um a criança só e triste. Na pracinha, perto de casa, onde costum ava brincar, era ridicularizado. No colégio, não tinha grupinhos e, em casa, não era com preendido. O que realm ente gostava nunca podia ser claram ente expresso. Num a espécie de revolta, cansado de dissim ular, andava suj o, com roupas largas e despencadas. Quando podia, não penteava os cabelos nem escovava os dentes. Era um ser sem vaidade. Só m e sentia bem quando de shorts e sem cam isa. Não com preendia bem o fato de ser obrigado, nas refeições, a colocar a cam isa para sentar à m esa, enquanto papai estava livre para fazer tal opção. “Será porque era o dono da casa?” Preferi pensar assim . Meu sentim ento em relação a papai era am bivalente. Eu o adorava, m as, ao m esm o tem po, ficava decepcionado porque não m e incentivava a im itá-lo em nada. No dia em que lhe contei que gostaria de ser piloto, ele respondeu:

— Aerom oça é um a péssim a profissão.

Não conseguia entender por que m e tratavam com o se fosse um a m enina! Faziam questão de m e ver com o nunca fui. Sabiam que não gostava disso! Por que insistiam em m e entristecer, em m e ridicularizar? Algo estava errado. Restava saber se com eles ou com igo. Tornei-m e um ser acuado.

Geralm ente, crianças adoram ganhar roupas novas nos dias de festa. Entrava em pânico quando m am ãe nos carregava para a costureira. Relutava. A única coisa que conseguia reivindicar era que, pelo m enos, o vestido tivesse gravata e bolsos. Mam ãe não entendia ou fingia não entender.

— Mas, m inha filha... – e eu consertava m entalm ente para “m eu filho” –, é tão bonitinho esse m odelinho! Toda vez a m esm a coisa. Você acaba m e aborrecendo. Que m ania de gravata!

Ficava doido para que dissesse que não iria m ais m e levar à costureira, m as ela parecia saber que isso não seria um castigo para m im .

— Mam ãe, faz só shorts e um pij am a. Não gosto de vestido!

Não adiantava. Estava decidido, e o pano, j á com prado. Não queria nem m e olhar no espelho. Só o usava quando forçado, depois de brigas e discussões.

Pressentia que o errado deveria ser eu, e não eles, m as que confusão! O pior é que quanto m ais crescia, m ais exigências iam sendo feitas, aum entando as dificuldades. Sabia não possuir um pinto tão grande com o o dos outros m eninos da m inha idade. Mas alim entava a esperança de que ainda crescesse. Deitava na cam a e ficava puxando o m eu “pinto”, para ver se aum entava. Ao acordar, a desilusão! Tudo continuava na m esm a. Nenhum a fada apareceu. Nenhum m ilagre aconteceu.

Aos poucos, fui sentindo vergonha do m eu corpo. Não ficava nu diante de ninguém . Era com o se tivesse um defeito físico, um aleij ão. Não trocava m ais de roupa na frente das m eninas e m e envergonhava quando o inverso ocorria.

Muito pequeno, tom ava banho com Van. Ensaboávam os o chão do banheiro e ficávam os deslizando de barriga para baixo, de um lado para o outro. Depois, por exigência m inha, passam os a fazê-lo de calcinha, em bora o atrito do pano no piso dificultasse a brincadeira. Havia certo cuidado para que a peça m olhada não grudasse no m eu corpo, não o delineasse nem m ostrasse a lisura frontal. Era com o se quisesse dizer a todas as pessoas que o m eu físico não era aquele, ou m elhor, fazê-las entender que m eu corpo m entia contra m im .

Pouco a pouco, essa realidade se agigantou dentro e fora de m im . Ainda não tinha condições de expressar isso diretam ente. Foi então que descobri a grande solução.