Viagem Solitária
Capítulo 6
O FUTURO NO COLO
Embalo-me neste desejo de ser pai,
A barriga grande, roliça, teimando em tombar para mim,
decidida por mim, embora feita por outro.
Serei fértil em todo o restante.
(Do poem a “Vir a Ser”, do autor).
Era m adrugada quando descia de m oto a Rua Voluntários da Pátria, na zona sul do Rio. Voltava de um a festa na casa de um a fam osa coreógrafa, Regina Miranda, aonde cheguei com um am igo do grupo de reflexão do Herbert Daniel. O m arido dela, Eduardo Mascarenhas, era um psicanalista badalado a quem acabei contando a m inha história, talvez para testar sua abertura. Ele ficou visivelm ente im pactado.
Olhei o céu, todo estrelado. “Estou vendo o passado”, pensei. “Talvez m uitas dessas estrelas j á nem existam m ais.” A lua estava m inguante. Mal sabia que, horas depois, estaria com m eu futuro no colo.
Cheguei às três horas da m adrugada na casa de m eus pais, que estavam passando o fim de sem ana no sítio, em Teresópolis. Quando eu precisava ir ao Rio à noite, preferia dorm ir na casa deles, por isso tinha a chave. Quando cheguei ao quarto, encontrei Lola, agoniada. A bolsa d’água tinha estourado. A seu pedido, Leila foi buscá-la em nossa casa, em Niterói. Com a m ala pronta, Lola m e esperava para ir direto para a m aternidade.
Foram 16 longas horas esperando que a dilatação aum entasse. Lola queria de todo j eito fazer parto norm al. A m aternidade era pública, recom endada pela Dra. Elizabeth, nossa am iga m édica. Estim ulava o parto natural e apresentava excelente nível técnico.
A tensão aum entou. Não sabia o que estava acontecendo lá dentro. Era um a sala onde várias parturientes com partilhavam a espera do m esm o m om ento. Ouvia de fora os gem idos, enquanto dorm itava no banco de m adeira do corredor.
Finalm ente m e cham aram para assistir ao parto. Decidiram por cesárea, porque a criança poderia entrar em sofrim ento. Lavei m eticulosam ente as m ãos, vesti um avental, um gorro que m e deram e cobri os sapatos. Lem bro-m e do centro cirúrgico, aquela roda de gente em volta de Lola, panos cobrindo tudo, ela anestesiada, m eio grogue. Um dos m édicos o puxou. Ele apareceu. Lola riu enquanto ainda estava dentro dela e chorou depois que ele saiu. Não houve palm ada. Olhei aquela coisinha ensanguentada de cabeça para baixo, sem chorar. Não vi cortar e suturar.
O m édico apertou seus testículos, no prim eiro exam e. Fui o segundo a pegá-lo no colo. Levei-o para lhe fazerem a aspiração das secreções. Conferi m eu filho todinho para m e certificar de que estava tudo norm al. Com ecei contando os dedos. Estranhei as unhas dos dedões do pé em form ato triangular e a entrada dos ouvidos, que pareciam ter duas verruguinhas.
Levei-o para Lola, que não conseguiu pegá-lo. Chorou e apagou.
Veio ao m undo num a sexta-feira, às 15h05m in, com 50 centím etros. Carioca da Praça XV, signo de Gêm eos, regido pelo ar, com o o pai aquariano. Difícil descrever a em oção. Estava exausto. Não tinha dorm ido. Levaram m eu filho lá para dentro, e não o vi m ais nesse dia. Só iria para o peito no dia seguinte. Fui para casa dorm ir.
Lola ficou quatro dias no hospital, e ia eu visitá-los todos os dias no horário perm itido.
Van, m inha m ana caçula, apareceu na m aternidade. Tirou as prim eiras fotos. Foi a única visita lá de casa. Levei para Lola um a faixa para am arrar na barriga, na hora de se levantar. Pela m inha experiência depois da histerectom ia, sabia que dava m uito conforto após um a cirurgia abdom inal. Sentiu-se tão aliviada que não a tirou m ais, só para os curativos.
Ele nasceu cabeludo, de cor castanho m édio. Ficava verm elho à toa e teve m uito soluço. No prim eiro dia, troquei um a fralda sozinho. Mam ava m uito, e Lola ficou com os bicos dos seios doloridos. Lavei suas prim eiras fraldas.
Os olhos eram separados e ligeiram ente puxados com o os da m ãe. As orelhas e o queixo eram redondos, a “m adrugada” larga. Madrugada é com o papai sem pre cham ou esse intervalo entre o nariz e a boca, deve ser um term o nordestino antigo.
Nos prim eiros dias, não arrotava fácil e soltava m uitos gases. Dorm ia de lado porque estava com um a pinça plástica no um bigo para que secasse e caísse. Só então ele poderia tom ar banho, o que aconteceu um a sem ana depois. Guardei aquela tripinha seca num a caixa com seu nom e.
Em casa, com eçou o festival de fraldas, de risos, de tom ar sol na calçada. Nossa rua era m uito tranquila, e quase não passava carro. Eu sentava no m eio-fio, botava-o nuzinho no colo para pegar o sol da m anhã. Aonde chegasse com ele, fazíam os sucesso. Muito risonho, conquistava a todos. A m oça do caixa na padaria da esquina se tornou sua fã. Tornou-se o m eu cartão de apresentação!
Tudo foi contam inado por aquele serzinho tão cheio de vigor e alegria, energizando-m e até os ossos. Mais que pai dele, Yuri m e transform ou em pai da hum anidade. Fiquei tolerante até com os m oleques m ais endiabrados. Sem grandes quedas ou doenças sérias, tirando um a bunda assada aqui ou um dedo cortado ali, foi desabrochando sob o olhar m aravilhado de todos. Sem pirraças, nem enj oos, a não ser dentro de autom óveis.
Meu filho tornou-se um ser tão belo que parecia um Jesusinho na terra.
E eu, literalm ente o José, o pai que o criava, m as que não o tinha feito.