Viagem Solitária
Introdução
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CORPO ESTRANHO
Millos Kaiser
Eu devia ter uns 7, 8 anos. Tinha achado m uito estranho aquele hom em com várias cicatrizes no peito, am igo dos m eus pais, que tentava puxar papo com igo na praia.
— Mãe, não gostei do João. Ele é esquisito.
Ela estava dirigindo o carro e desconversou, m as sabe com o é: criança, quando encasqueta com algo, encasqueta m esm o. E eu, sem im aginar a bom ba que viria, insisti.
— Filho, o João nasceu m ulher e virou hom em .
Meu m undo caiu. Descobrir que a Vovó Mafalda (apresentadora de program a infantil do canal SBT, interpretado por Valentino Guzzo) era hom em j á havia sido traum ático o suficiente. Eu havia conhecido um caso real, na m inha frente, com a transform ação m arcada na pele, e não por um a fantasia. Fiquei dias com aquilo na cabeça. Hoj e, 15 anos depois, com os horizontes (espero) m ais am plos, reencontro João em sua casa. Dessa vez, sua figura m e é com pletam ente norm al, e a prim eira im pressão que tenho é de que m inha m ãe estava enganada: João não nasceu m ulher e quis virar hom em . Nada disso. João nasceu hom em , m as preso num corpo de m ulher.
João foi o prim eiro caso de transexual m asculino, ou trans-hom em (de m ulher para hom em ), a se ter notícia no Brasil, vindo a público em 1984, ano em que lançou o livro Erro de Pessoa. Estam os falando aqui da m inoria da m inoria: um transexual que m udou seu corpo de m ulher para hom em – processo m uito m ais raro, com plicado e precário do que o inverso. A cabeça j á nasceu pronta, m as fisicam ente falando Joana virou João W. Nery de vez aos 27 anos, em 1977, 20 anos antes de esse tipo de cirurgia ser legalizada no país.
Se fosse hoj e, João não precisaria fazer tudo por baixo dos panos com o fez. Poderia pagar cerca de R$ 10 m il e operar-se num a clínica particular ou recorrer a um dos cinco hospitais universitários do país que operam pelo Sistem a Único de Saúde (SUS), caso suportasse toda a burocracia e espera envolvida nessa opção (desde a im plantação do program a, em 1998, pouco m ais de 20 pacientes foram operados). Mas, de um j eito ou de outro, João continuaria sendo um crim inoso.
O descom passo é tipicam ente brasileiro: m udar o sexo do corpo é legal; do RG e dos dem ais docum entos, não. Quem não tem o prestígio de um a Roberta Close tem que entrar na Justiça ou então fazer um a nova certidão de nascim ento e, a partir dela, tirar novos docum entos – é o que João fez, e o que o artigo 307 da Constituição considera crim e de falsa identidade. Nosso “crim inoso” nunca foi descoberto, m as para virar hom em no papel tam bém teve que m atar Joana e enterrar com ela todas as suas conquistas, com o o diplom a de psicologia, que nunca m ais pôde usar.
“Monstruação”
João teve vários nom es durante a vida. O prim eiro deles, Maria João, ganhou na pracinha onde brincava, em frente a casa onde m orava com os pais e as três irm ãs, na zona sul do Rio de Janeiro. Ele não entendia, assim com o não entendia por que não podia andar sem cam isa com o o pai. “Virar m ocinha” soava com o um a sentença de m orte. Quando a “m onstruação” veio, João não se perm itia sentir cólica ou TPM, surrava os seios e forçava a corcunda para ver se escondia os “apêndices”. Era o com eço de sua batalha contra o próprio corpo, travada até hoj e.
Para não enlouquecer, descobriu que teria que m ergulhar de cabeça em algum a coisa. E foi o que fez, literalm ente, tornando-se cam peão nacional de salto ornam ental aos 13 anos. Os treinos constantes deixavam João com um a com pleição m ais m asculina, e as 29 m edalhas conquistadas trouxeram autoconfiança. Outro suporte veio dos papos que tinha com um am igo de seu pai, na época exilado político no Uruguai. Era o antropólogo Darcy Ribeiro, que, sem filhos, adotou o j ovem em crise que frequentava sua casa para desabafar e fum ar escondido. João considera Darcy seu m entor intelectual, quem lhe m ostrou um j eito de habitar um m undo que não o com preendia. “Ou você fica rico para calar a boca das pessoas, ou vira um intelectual”, postulava ao j ovem .
Com o quase tudo na vida de João, nam orar não era fácil. Prim eiro, precisava certificar-se de que a m enina enxergava-o com o hom em , apesar do visual unissex não aj udar. Depois vinha a parte m ais com plicada: o sexo. A lua de m el com a prim eira esposa foi um desastre. João ainda não havia descoberto as m aravilhas que sua m ão esquerda poderia fazer, principalm ente se acom panhada de bastante im aginação da parte de am bos. Além disso, era preciso sem pre explicar o modus operandi de seu corpo para a parceira. João não gostava que tocassem em seus seios ou seu sexo, pois isso lhe lem brava de sua condição non grata. “É preciso ser m uito hom em para chegar ao orgasm o só com a força da m ente”, orgulha-se.
Zero pau
Assim que soube que um grupo de m édicos em São Paulo estava operando transexuais, ainda em caráter experim ental, João transform ou isso em seu obj etivo de vida: “Não tinha m edo de porra nenhum a, só de m orrer com o m ulher. Era enlouquecedor”. Antes, porém , teria que ser avaliado por um psicólogo e um psiquiatra por um ano e suj eitar-se a um a batelada de exam es. Tudo na surdina. A esposa da época, a segunda de João, deu força, enquanto a m aioria da fam ília insistia na tecla do “onde foi que eu errei?”.
João foi operado pelas m ãos do Dr. Roberto Farina, renom ado cirurgião plástico, que seis anos antes havia transform ado o prim eiro hom em em m ulher do Brasil, sendo inclusive preso por lesões corporais por isso. O “pacote hom em ” incluía a retirada das m am as, do útero e dos ovários (adeus, “m onstruação”), um forte tratam ento horm onal à base de testosterona e… é isso. Não, João não ganhou um pênis para cham ar de seu. A verdade é que pouquíssim os transexuais m asculinos ganham um . “É m uito sofrim ento para pouco resultado.” Leia-se: um a prótese feia, que não ej acula, sem sensibilidade e que fica sem iereta o tem po todo. Fora o pior dos castigos, que é deixar de alcançar o orgasm o.
Mas para João é com zero pau que se constrói um hom em : “O que é ser m acho? É ter peru, m ij ar em pé? Eu j á era hom em anos antes da cirurgia. Há um a série de gente que perde o pênis em acidentes, problem as circulatórios, m as ninguém fala. É difícil encontrar um a prótese norm al, de pênis flácido, por exem plo. Com o ir à praia? De barraca arm ada? Você só acha prótese rosa, am arela, com vibrador. Tudo que você não desej a num pau”.
Puberdade tardia
“A m inha adolescência com eçou aos 30. Foi quando nasceu barba, pelos no corpo, espinhas na cara. Um a m aravilha. Adorava ficar sem cam isa, apesar das m arcas.” João deixou de ser oficialm ente um psicólogo, m as clinicou clandestinam ente por um tem po. Depois, trabalhou num a construtora. Está há 15 anos no quarto e m ais longo casam ento. Tem um filho. Orgulha-se de tê-lo feito “um hom em fem inino, no m elhor sentido. Um cara sensível, carinhoso e gentil”. Só lam enta não poder m ais dançar – talvez o uso a longo do prazo da testosterona tenha lhe rendido um a artrose no fêm ur e pinçam entos na coluna. Ele continua um a cobaia da Medicina.
Aos 61 anos, João j á existe há m ais tem po que Joana. Dos que o conhecem há m enos tem po, são poucos os que sabem do seu passado, incluindo a sogra. Sobre a m ania que tem os de reduzir as coisas, ele desabafa: “Você nasce e m orre dentro de caixas. Caixa da fam ília, da escola, do casam ento e depois vai para o caixão. Ponha o pé para fora disso e você j á é estigm atizado. Tem que ter m uita estrutura para segurar a peteca da m arginalidade”.
Arrependim ento? “Nem por um segundo”, João responde antes m esm o de a pergunta term inar. Para ele, a escolha era tão óbvia quanto respirar. O problem a foi convencer o resto do m undo disso.
2 Este texto foi originalm ente publicado na revista Trip em dezem bro de 2009
(http://revistatrip.uol.com .br/revista/184/corpo-estranho.htm l). Pelo respeito e carinho com que fez a entrevista, pedi autorização ao repórter para usá-la com o introdução a esta edição.