Viagem Solitária
Capítulo 7
UM BRINQUEDO SOCIAL
A lei é como uma bandeirola de um velho campanário,
que varia e se move segundo o vento sopra.
Tolstoi
Quando acordei de m anhã, m eus hóspedes j á tinham voltado do pediatra. O garoto apresentava apenas um a alergia.
Selm a, m ais aliviada depois da consulta, m anifestou interesse em saber da m inha situação legal.
Enquanto tom ava café, fui contando o que tinha passado. Falei da preocupação por estar cada vez m ais com aparência m asculina, m as continuando com m eus docum entos originais de m ulher.
Balançou a cabeça lentam ente, com o quem com preende exatam ente com o m e sentia.
— Mais do que ninguém , posso entendê-lo. Já passei por isso. É horrível a gente estar sem pre num a corda bam ba – olhou-m e firm e e perguntou: — Mas por que não tira logo a sua certidão de nascim ento?
A ideia j á tinha m e ocorrido um a infinidade de vezes, m as não tinha noção do que seria necessário. Além do m ais, sentia certo receio de tirar docum ento falso.
Selm a m e deu força:
— O que está esperando? Que m udem as leis? Bastam duas testem unhas, e nós podem os ir lá ao cartório...
Olhei-a anim ado, porém ainda indeciso.
Insistiu:
— De que tem m edo? Não tem erro. Basta inventar um a boa história e pronto. Deixa que m e entendo com o escrevente. Você pode ficar nervoso e falar besteira.
Num ím peto, aceitei.
Antes de sair, acertam os os detalhes de com o fazer e do que seria dito.
Vesti um a velha calça quadriculada e um a cam isa desbotada, que de tão larga dava dois de m im . Queria um a aparência de m atuto. Am anda ficou com a criança em casa, e nós três fom os para um cartório distante, num subúrbio do Rio.
Dentro do táxi, a dor de barriga voltou a m e desafiar. Estava agitadíssim o e suava nas m ãos, enquanto ia m e intoxicando de cigarros. Bem na frente do cartório, lia-se: “Registros no 2o andar”. Subim os as escadas. Olhava para todos os lados, com m edo de encontrar algum conhecido.
Após 15 m inutos de espera, um funcionário fez sinal para que sentássem os diante de sua m esa. Botou um papel na m áquina, m as, antes de bater, quis saber:
— É m aior de 18?
— Sou – respondi, fazendo um esforço para a voz não falhar.
— Nunca foi registrado?
Selm a resolveu m e socorrer. Antes que m e traísse, tom ou a palavra:
— Não. Nunca foi registrado. Mas agora está precisando tirar os docum entos para fazer o serviço m ilitar.
— É preciso pagar um a m ulta pelo atraso.
O escrevente pegou um bloco e, rabiscando a cifra correspondente, avisou:
— O pagam ento é lá em baixo. Só depois é que preenche a ficha.
Com ecei a contar m eus trocados. O contratem po m e pegou desprevenido. O casal am igo, vendo m inha dificuldade, com pletou o restante da quantia.
Subim os novam ente.
Selm a ia dando os dados necessários, enquanto o rapaz rapidam ente datilografava.
— Nom e?
— João Walter Nery.
— Idade?
— Dezoito – afirm ou categoricam ente Selm a.
Por essa eu não esperava! Não havia pensado nesse detalhe. Mas por que não disse 27, a m inha verdadeira?
Term inado o registro, o hom em pediu os docum entos das testem unhas, que assinaram vários papéis.
Senti calafrios quando vi Selm a puxar a identidade, m as estava tudo certo. A cena era tragicôm ica. As m inhas testem unhas eram um a transexual e seu m arido! E era neles que a Justiça iria se fiar.
O rapaz foi carim bando, enquanto com unicava que o registro seria enviado ao j uiz para ser despachado. Só dali a 15 dias é que estaria liberado.
A palavra “j uiz” m e causou novo estrem ecim ento. Foi só no ônibus de volta que relaxei.
Virei-m e para Selm a e interroguei-a sobre os 18 anos.
— Achei m elhor, para não despertar suspeitas com essa sua cara lisa de m enino. E depois é com 18 que o cara se apresenta para o alistam ento m ilitar, ora.
Era sensato. Além do m ais, a idade com a qual ficaria era o que m enos im portava no m om ento. O essencial era que tinha dado o prim eiro passo para a m inha legalização. Ou ilegalização?
Nessa noite abrim os um a garrafa de vinho em hom enagem à saúde do neném , aos nossos convidados e ao m eu novo nascim ento.