Viagem Solitária
Capítulo 14
NOVOS TEMPOS
Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Para
um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor.
Conhecer o frio para desfrutar do calor. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto [...] para quebrar
essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e
não simplesmente como é ou pode ser.
Am y r Klink
Yuri voltou das férias m ais alegre, bronzeado, com um colar de contas no pescoço e sandálias nos pés em vez de tênis. A m ãe finalm ente tinha concordado em que ele viaj asse para a casa da fam ília de um a colega, no Rio Grande do Sul. Pescou, andou de bicicleta, conviveu com a vizinhança. Teve um as brigas com uns garotos gaúchos, o que achei bom , para descarregar um pouco a raiva. Encontram o-nos apenas três dias depois que ele chegou.
Lola tinha m arcado um a sessão para ele com a terapeuta j ustam ente no dia em que estava lá em casa. Ele se encheu de coragem e disse para a m ãe que queria sair da terapia. Ela am eaçou não o deixar m e ver no fim de sem ana caso desistisse.
Fiquei com ovido ao saber que m eu filho se suj eitava, há m uito tem po, às chantagens da m ãe com m edo de que ela m e denunciasse à polícia. Contei para ele que não precisava m ais se preocupar, eu j á tinha passado m eus bens para o nom e de Sandra. Claro que um a possível denúncia poderia ter outras consequências, m as preferi tranquilizá-lo.
No dia do m eu aniversário, veio alm oçar com igo. Contou que conversou com a terapeuta sobre sua vontade de não m ais voltar lá. Estava aliviado. Achava-a esquisita porque cham ava Lola de “sua m ãe” e a m im nunca cham ava de “seu pai”, só m e tratava de “João”. A terapeuta disse que não havia percebido...
Logo depois ela m e ligou, pois “devia estar havendo algum engano”. Nenhum cliente seu tinha saído da terapia sem ter sua alta. Insinuou, novam ente, que eu fazia a cabeça dele. Retruquei que o garoto sabia m uito bem pensar por conta própria e que a decisão era dele e da defensoria. Fingindo ignorar, tentou m arcar um novo encontro, com a presença dos três. Perguntei se daria recibo com o CRP, seu registro profissional. Ela desconversou. Não fui à consulta, nem ela ligou m ais.
Parabenizei-o pela coragem da decisão tom ada.
Lola insistiu em que o filho continuasse em terapia, m as dessa vez fui eu quem escolheu o psicólogo. Felizm ente Yuri gostou dele.
A com em oração de seus 14 anos foi na m inha casa: ele convidou cinco colegas da escola, que devoraram o estrogonofe feito pela vó Lila. Sandra encom endou um a torta e um a m ontanha de sorvete. Jogaram pingue-pongue, futebol, dardo e xadrez eletrônico. Dei m eu com putador de presente para ele, e a m ãe, um a bike de alum ínio. Dos tios, ganhou o últim o livro do Harry Potter, de quem adm irava a coragem .
Lola estava de nam orado novo, um piloto de helicóptero, o que aj udou a m elhorar o convívio. Surpreendentem ente, ganhei de m eu filho no Dia dos Pais um pij am a com prado por ela. No cartão, ele desenhou um a zebra cheia de caranguej os no sovaco. E m e fez um bolo de laranj a desses de caixinha, que solou, m as que todos acharam um a delícia.
Os novos tem pos de paz foram com em orados na virada do m ilênio, que passam os todos j untos num clube em Niterói, com Sandra, m inha sogra, Lola e alguns am igos. À m eia-noite, em ocionado, levantei m eu filho nos braços sem pensar na coluna, pela prim eira vez em todos esses anos.
Nas férias, Yuri viaj ou para o interior do estado com a m ãe e o nam orado dela. Andando de bicicleta, levou um tom bo e cortou o lábio, precisando de pontos. Dias depois chegou à m inha casa com um curativo. Percebi que era sua prim eira cicatriz no rosto. Não estava querendo ir à escola.
Sua vaidade lem brou-m e da vez em que rasguei o queixo num tom bo de patins. Mam ãe m e levou ao posto de saúde, onde o m édico m e disse que não valia a pena dar anestesia, a dor da picada seria praticam ente a da agulha. Mandou que não m e m exesse. Fiquei tão sério que ele contou um a piada, para eu relaxar. Com a risada, arrebentei os pontos, e ele teve de refazer tudo. Desfilei na escola com m eu cavanhaque branco de esparadrapo e gaze e fiquei m uito orgulhoso com m eu apelido de Papai Noel. No m asculino.
Yuri engrossava a voz. A adolescência chegava com a m aturidade para perdoar e com preender as dificuldades dos pais. Foi se tornando um hom em m ais ouvinte que falante. Ao m esm o tem po, tolerante com as diversidades, adquirindo a necessária coragem para enfrentar a própria diferença, sem perder o sentido da beleza, da gentileza e da solidariedade. Sobretudo, aprendeu que assim valia a pena viver.
O novo ano prom etia m ais m udanças: fui convidado para dar aula num a faculdade. Um a grande am iga, coordenadora do curso, m e propôs ser professor substituto, na cadeira de Literatura Brasileira:
— Quero só que ensine os alunos a escrever e, se possível, a gostar de ler. O resto é por sua conta.
Depois de 25 anos, foi um grande desafio estar novam ente diante de um a turm a de j ovens e ser cham ado de m estre. Com o era substituto, não precisei apresentar docum entos à adm inistração da universidade.
Foram dois anos até a volta do professor titular. Mas adorei a experiência. Com eçava a aula sem pre lendo um a poesia diferente. Escolhia um deles para ler um trecho ou um a crônica. “Ler alto ensina a virgular, são as respirações da fala.” Para desinibi-los na escrita, pedia relatos de contos de fadas que ouviram na infância, facilitando, assim , a criatividade.
Há tem pos que o peso dos anos m e fazia sentir novas barreiras físicas, com o se um estranho se apossasse de m im lentam ente. Agora a crise de identidade era diferente, não m ais a de gênero, m as aquela que todos tem em com a idade, ao constatar a dificuldade do possível fascínio sobre o outro. A face enrugou, os pneus surgiram , os pelos caíram , o pênis não veio.
Com o hom em transexual, estarei livre da terrível im potência m asculina na velhice, tecnicam ente enfrentada com os Viagras, m as que não se confunde com o desej o. Desde a infância o pênis é um a espécie de alterego do hom em , um a segunda pessoa com quem ele dialoga e de quem depende para se reconhecer ou se sentir am eaçado. Nesse sentido a velhice m asculina é m ais tem ível que a fem inina. A desvalorização do físico para a m ulher pode ser até um alívio, pois, afinal, ela poderá se dedicar a outros interesses, a casa e aos netos.
Considerei-m e por m uito tem po um inválido sexual, que precisava de artifícios para poder ter prazer, quando talvez o problem a estivesse m ais na m inha cultura com todos os seus significados, “que fazem de um sim ples gesto um critério clínico para definir se alguém é ‘verdadeiram ente’ um hom em ou um a m ulher”, com o citou Miguel Missé no ótim o livro El Género Desordenado.
Aos poucos, vou m e tornando novam ente um inválido, agora com próteses e órteses na coluna, nos ouvidos, nas pernas ou precisando m e apoiar num a bengala.
E foi na hidroterapia, recom endada para as artroses, que descobri um a nova atividade profissional. Algum tem po antes, eu tinha feito um curso de m ontagem e reparo de com putador, m as rapidam ente descobri que precisaria carregar pesadas CPUs de um lado para o outro. Além de ser útil para consertar m eu próprio com putador, com os novos conhecim entos, com ecei a dar aulas sem anais a m eus pais. Mam ãe se interessou pelo correio eletrônico, e papai, pela incrível m áquina de escrever que não precisava de corretor e im prim ia im ediatam ente. Tornei-m e um professor de com putação para terceira idade.
Aprendi a lidar com a lentidão de aprendizagem , com a necessidade de paciência e repetição. Na visão deles, a internet era um a coisa m eio m ágica. Todos, sem exceção, precisavam de algum apoio em ocional. Um a aluna tinha doença de Parkinson. Nas prim eiras aulas treinou acertar as teclas, segurar o m ouse ou m esm o só olhar enquanto eu digitava os seus e-m ails, pois as m ãos não paravam de trem er. Um a aluna de 80 anos, de cabelos azuis, m e pagava as aulas, m as queria m esm o era a com panhia para conversar e m ostrar as esculturas que fazia no ateliê, no fundo do quintal. Um engenheiro aposentado, de 76 anos, m e recebia sem pre com um a vitam ina diferente que ele m esm o fazia e se divertia m e fazendo adivinhar os ingredientes. Ao abrir a caixa postal, cham ava a esposa para verem j untos as fotos do Rio antigo ou viaj ar por lugares desconhecidos, para onde não m ais poderiam ir.
De todas as m inhas experiências com o professor, talvez m eus alunos da terceira idade tenham sido os que m ais m e gratificaram . Já tão castigados pela dor, pude m udar o sentido do resto de suas vidas.