Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 55 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 16

BAILE À FANTASIA

 

Aceitei a vida, sem acertá-la:

as horas fora dos hábitos,

os ponteiros fora dos fatos.

(Do poem a “O Outro”, do autor).

 

Oi, Davito,

 

Minha reum ato m e deu um a dica de um novo horm ônio que se tom a com intervalos de três a quatro m eses e diz que m antém o nível horm onal no sangue até o fim . Cham a-se... e é m uito caro. Consulte sua endócrino e m e m ande seu parecer.

 

Oi, Juanito,

 

Realmente a dica é boa. Minha endócrino já tinha ouvido falar dele num congresso, mas só agora pesquisou melhor na internet. Já até tomei. Fiz um exame de sangue agora e farei outro no final de três ou quatro meses... Não aguentava mais ter que me picar todo mês... Tenho tido muito tesão, pena que não tenho com quem transar... Tenho feito sexo virtual, só isso, mas já é bem satisfatório. Dizem que o maior órgão sexual do homem é o cérebro... hehehe...

 

Quando com ecei a ter problem a de artrose, os m édicos que consultei se dividiram . Uns achavam que a testosterona poderia estar interferindo na precocidade do desgaste natural da idade, outros achavam o contrário. A unanim idade era só quanto ao aum ento da taxa de colesterol. Resolvi consultar Davi, m eu am igo m édico e transexual com o eu, sobre a possibilidade de parar de tom ar o horm ônio.

Davi foi de opinião que não só deveria continuar com o até aum entar a frequência, pois a falta do horm ônio causaria um caos m etabólico, com distúrbios na calcificação dos ossos, problem as na pele, e explicou que, quando vai baixando a taxa de testosterona no organism o, ele se sente m al, inclusive com ondas de calor. Resolvi seguir o seu conselho, parando de tom ar os dem ais rem édios, para não sobrecarregar o fígado.

Sem pre trocávam os m ensagens pela internet. Davi, inclusive, m antinha contato com vários outros trans-hom ens com o nós. Operou-se em j ulho de 1983, ou sej a, seis anos depois de m im . Foi ele quem m e introduziu no m undo virtual, o que se tornou fascinante quando precisei m e operar da coluna e tive de interrom per todas as m inhas atividades.

Explicou-m e o que era um avatar. Em diferentes j ogos, era possível com prar e vender, plantar, criar anim ais, além de interagir com pessoas em todo o m undo. Ele adorava viaj ar e fez am igos em toda parte pela internet.

Criei um avatar j ovem , forte e bonito. Meus parceiros no grande “baile à fantasia” eram na m aioria crianças e adolescentes. Fui aprendendo a linguagem especial usada entre eles. Quase nunca revelava m inha idade real. Quando o fazia, a criançada ficava adm irada por eu gostar de j ogar. Alguns m e cham avam de vovô, e outros, ainda, desej avam que seus pais fossem com o eu. Invej avam -m e por dispor do m eu tem po para j ogar o dia inteiro, se quisesse. Quando perguntavam se m eu filho tam bém j ogava, dizia que não, que o viciado era eu. Caíam na gargalhada.

Resolvi criar um avatar fem inino, com um nom e sedutor. Descobri que poderia conseguir m uito m ais aj uda no j ogo. Os m eninos m e davam “presentes” – arm as, roupas – e tinham m ais paciência em m e explicar as regras. Há j ogos em que as crianças podem se casar. Alguns são violentos, com m uito tiro, estressantes dem ais. Meus preferidos eram os de m atar m onstros, bichos que não existem . Quanto m ais pontos feitos, m ais o “nível” sobe, o que nos torna m ais fortes e poderosos. Preferia j ogar com o mouse do com putador em lugar do joystik com m uitos botões.

— Pai, você não tom a j eito, hein? Vai fazer outra coisa, sai dessa cadeira... – brigava m eu filho, ao chegar e m e encontrar conversando com a garotada no com putador.

Gostei de não ser m ais um “super-hom em ” para o m eu filho. Ele é que passou a ser o m eu exem plo. Dedicava-se aos estudos, estava apaixonado pela faculdade, pela nam orada e cheio de planos. Sem pre tinha novidade das aulas para m e contar. Sentia-m e com a m issão cum prida.

Decididam ente, não podia m ais dançar. As crepitações do corpo j á eram m uitas. Seria um luxo m e m artirizar com as da alm a. Quando precisei colocar titânio na coluna, felizm ente não passei m al com a anestesia. Mas tive o m aior trabalho para bancar o babaca pudico que não quer que a enferm eira lhe dê banho.

— O senhor não se preocupe, estou acostum ada com todo tipo de paciente... – insistia ela.

Ainda bem que Sandra m e socorreu. Inclusive para m e levantar e ir ao banheiro, única alternativa à fam igerada “com adre”, onde eu não conseguiria nem a pau. Foram m uitas dores e um a recuperação lenta, m ais um aprendizado de com o lidar com as m azelas do corpo, agora por causa da idade. Outras se seguiriam , com o a dentadura, um a ocasional bengala de alpinista, taxas crescentes de glicose e colesterol.

Com o disse no m eu poem a “Velhice”, “Dá-m e, enfim , a ousadia necessária de m e ver gargalhar, com a dentadura a gargalhar dentro do copo”.

Os am igos tam bém envelheciam . Mateus, m eu am igo cego que pregava botão na roupa dos filhos pequenos, j á tinha m orrido de um câncer no esôfago.

Outra grande perda foi m eu am igo dentista, Murilo, um hom em que conseguiu tirar com pletam ente m eu m edo da tão tem erosa cadeira. Às vezes chegava ao seu consultório, no centro do Rio, e ele, j á cansado, propunha irm os tom ar chá na Colom bo, a tradicional confeitaria na Rua Gonçalves Dias. Era um rom ântico e cinéfilo. Sabia de cor cenas de film es que, m esm o trabalhando com o ferrinho na m ão, representava para m im .

Inesquecível a m orte de Greta Garbo no film e A Dama das Camélias, a que assistiu nove vezes. Murilo era um a daquelas pessoas de quem você quer beber a seiva e degustar com o o m elhor vinho hum ano. Quando fez 50 anos de am izade com Rui, seu m elhor am igo, tam bém casado, convidou o casal para um j antar. Só com unicou o m otivo na hora do brinde.

Foi um dos prim eiros hom ens em que descobri um a alm a fem inina. Quando soube da m inha história – fui seu cliente durante cinco anos com o m ulher – ficou com os olhos m arej ados e m e abraçou com ternura. Logo após m inha transição, j am ais m e cobrou qualquer consulta. Contou-m e que seu filho, tam bém dentista, continuava com o hábito de deitar a seu lado para ouvirem m úsica j untos pelo prazer da com panhia. Morreu do coração aos 81 anos. Foi o prim eiro enterro a que assisti lotado de gente chorando por um velho, com discursos à beira da cova e aplausos na hora em que fecharam o caixão. Até hoj e m e em ociono quando penso nele.

Há pouco tem po outro grande am igo se foi. Severiano, espanhol, ex-lavrador nos arredores de Segóvia, ex-padre, ex-sociólogo, ex-criador de brinquedos pedagógicos, ex-professor universitário. Um hom em cultíssim o. Durante a ditadura abrigou em sua sacristia m ilitantes da resistência, e do púlpito defendia o uso da cam isinha. Por essas e outras, acabou sendo expulso da Igrej a.

Casou-se com um a ex-freira professora de Literatura e hoj e um a pintora de renom e. Tiveram um a filha com a m esm a delicadeza de alm a com que se tornou professora de flam enco. Severiano foi um pai único. Levava a filha todos os fins de sem ana para visitar o Jardim Zoológico, onde se encantavam com os bichos. Hum ilde por form ação e vocação, dizia-m e frases inusitadas. Não carregava o retrato da filha na carteira porque não queria se prom over por interm édio dela.

Apesar de bem -casado, achava a vida de solteiro m ais enriquecedora. O vocabulário não se restringia ao habitual usado em casa, e tam bém havia m ais tem po para frequentar os program as culturais. Divertia-se lendo o dicionário etim ológico. Leitor inveterado, trazia sem pre um a novidade para m e ensinar. Na últim a conversa que tivem os, falou-m e sobre a tragédia. Não a grega, m as a de Nietzsche. Resum ia-m e, dizendo que só há tragédia quando não se acredita na vida pós-m orte. Morreu aos poucos, tendo prim eiro um AVC, que lhe fez perder grande parte da m aravilhosa m em ória. Depois, duas trom boses, seguidas de um a rara doença autoim une no intestino, e por fim o coração não aguentou. Foi crem ado com o a biblioteca de Alexandria.

O que ainda m e trariam os anos? Com o vivenciar a velhice, nesse corpo de cobaia transform ado? Resolvi reunir os conhecidos trans. Davi poderia aj udar.