Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 29 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 10

A HORA DAS DECISÕES

 

Sucede aos homens o que sucede aos vinhos: os melhores

apenas ganham em doçura ao passar dos anos; os outros

azedam.

Lem esle

 

Minha tensão aum entava em proporção geom étrica com a aproxim ação da data da entrevista. As insônias e as diarreias eram agora frequentes. Ingeria constantem ente sedativos, m as nem assim o sono vinha. Os m otivos variavam entre o excesso de preocupação pelas dificuldades que ainda teria de enfrentar e a grande excitação diante da im inente possibilidade de m e operar. Passava m adrugadas im aginando com o seria m inha vida com o novo corpo. Tinha consciência dos perigos e das sequelas que as cirurgias poderiam acarretar. Sem dúvida, o saldo continuava sendo positivo. Não m e tornaria nenhum Apolo, m as poderia fazer coisas a que, até então, só a fantasia m e dava acesso. Principalm ente, ser visto e tratado com o m e via. Talvez até poder um dia legalizar m inha situação e viver definitivam ente em paz com a sociedade. Perderia a profissão de psicólogo, m eu curriculum vitae, m eu histórico de vida e, quem sabe, o afeto de pessoas queridas, m as ainda assim com pensava. Agora seria tudo ou nada!

Assim que voltei de São Paulo, escrevi a m am ãe contando-lhe do psiquiatra e da im portância do seu com parecim ento a esse encontro. Pedia em tom de favor, pois sabia que sua posição era contrária. Deveria dizer ao m édico apenas a verdade. Nada m ais. Não precisaria om itir nada. Aguardava um a resposta urgente, porque, do contrário, teria de pedir a Mariana que a substituísse, o que não teria o m esm o peso.

Enquanto sua resposta não chegava, tom ei algum as providências de ordem prática. Retirei o restante do dinheiro da venda do apartam ento, que estava aplicado. Com prei outro m enor em Botafogo, cuj o aluguel cobriria o nosso atual. Na incerteza, poderíam os viver com o salário m odesto de Am anda.

A outra resolução foi abandonar o trabalho. Conversei com os diretores das faculdades e consegui que m e dem itissem , recebendo as indenizações.

Eu atendia tam bém a alguns clientes em casa e resolvi transferir a m aior parte deles para um a psicóloga am iga. Só fiquei com os casos m ais antigos e que, m esm o sabendo do m eu processo de transform ação, não queriam m e abandonar. Mantive-os ainda por algum tem po até aceitarem a ideia.

Durante o m ês de fevereiro, fui ficando m ais im paciente com o m eu corpo. Cheguei ao auge da intolerância quando caí da m oto e quebrei a m ão esquerda, passando quase 30 dias engessado. A fratura foi parcial, atingindo som ente o dedo m ínim o, m as suficiente para m e obrigar à abstinência sexual. Com a m ão direita não havia a m enor possibilidade de excitação. A irritação aum entava quando m e conscientizava dessa absurda situação. Num a noite, envolvido pela doçura tépida de Am anda, pela ânsia de tê-la desesperadam ente e sentindo-m e castrado, explodi num choro convulsivo.

Am anda m e abraçava forte e dizia que eu não estava sozinho. Em breve, tudo iria acabar, e eu seria o hom em m ais risonho do universo. Sabia, porém , que naquele m om ento nada poria fim à m inha dor.

A esperada resposta chegou. Mam ãe concordava em ir ao psiquiatra. Viaj aria direto de sua cidade, e nos encontraríam os em São Paulo, às dez horas, na porta do consultório.

Fiquei exultante. Apesar de não estarm os de acordo, eu pressentia que m am ãe não iria m e trair.

No dia 1o de m arço, em barquei sozinho rum o ao m eu destino.

Sabia de cor a paisagem e as paradas do cam inho. Conhecia o m elhor lado para m e sentar, conform e a hora do dia, e a m elhor posição para adorm ecer. Gostaria de um dia poder fazer esse m esm o traj eto sem tanta em oção dentro do peito.

Na prim eira vez que fui de ônibus a São Paulo, para a consulta com o Farina, m orria de ansiedade de conhecê-lo e saber das cirurgias.

Na segunda, foi o desespero o m eu m aior com panheiro, quando fui atrás do cirurgião para conseguir um psiquiatra que m e desse o laudo.

E agora, parecia que era a som a de todas essas situações, acrescida da expectativa de estar cara a cara com m am ãe num a situação forçada e por ela condenada.

Eram dez horas quando viram os j untos a esquina, cada um vindo de um lado. Com o o consultório ficava no m eio da com prida quadra, encontram o-nos j ustam ente na porta da clínica.

Estava séria e visivelm ente tensa.

— Obrigado, m am ãe, por ter vindo – disse, beij ando seu rosto.

— Vam os entrar? Estam os em cim a da hora – falou rápido, consultando o relógio.

Foi a prim eira na entrevista. Enquanto a esperava, bati todos os recordes de expectativa e ansiedade. Pegava um a revista e soltava. Cam inhava em círculos e tornava a sentar. Fum ava ininterruptam ente. Fui quatro vezes ao banheiro. Daria tudo para saber o que eles conversavam lá dentro.

Já se passavam quase duas horas quando a porta se abriu.

Ela saiu dizendo que m e aguardaria ali fora.

O psiquiatra não m encionou um a só palavra da conversa que tiveram .

Fez-m e m uitas perguntas sobre a m inha infância e os m eus planos futuros. Quando term inou, perguntei quanto lhe devia. Explicou-m e que, pelo tem po gasto nas entrevistas, m e cobraria em dobro. Quando m e falou do preço, quase caí para trás.

— Mas essa quantia não trago aqui com igo! Tenho som ente um quinto desse valor.

Deu-m e a entender que falasse então com m am ãe.

Retruquei im ediatam ente:

— Isso não. Veio aqui forçada, e não acho certo fazê-la pagar por algo que não aprova. Se aceitar, posso lhe enviar o dinheiro depois. Não se preocupe, não vou decepcioná-lo.

Sorriu.

— Pode deixar. Não vam os discutir preço. Fiz a m inha parte, e você não pode pagar. Então não cobro nada.

Saí com m am ãe da clínica, e entram os num táxi. Ela havia resolvido passar uns dias no Rio com Mariana. Ofereceu-se para pagar a m inha passagem de avião. Recusei, optando pelo ônibus. Já a forçara a ter m uitas despesas e não queria sobrecarregá-la.

Não trocam os palavra sobre as entrevistas no percurso até a estação. Perguntei-lhe com o estavam papai e Leila. Com um “vão indo”, encerrou definitivam ente o diálogo.

Antes de em barcar, telefonei para o Farina. Avisei-lhe que Lourenço prom etera enviar-lhe o laudo datilografado em um a sem ana. Aproveitei para saber:

— Caso sej a o esperado, você m e opera logo?

— Tenho prim eiro de ver onde poderem os fazer essa cirurgia, pois no lugar onde costum ava operar não será possível. Terei de arranj ar outro. Assim que consiga, avisarei.

Desliguei eufórico. Substancialm ente, nada tinha m udado, m as na viagem de volta dorm i com o um anj o.

Um dia antes de m am ãe voltar para a fazenda, fui visitá-la na casa de Mariana. Estava m ais alegre e vestia os netos, quando surgi na porta do quarto.

— Olá, m ãe!

— Oi, m inha filha. Com o foi de viagem ?

Senti-a acessível para um a conversa. Pedi que, assim que pudesse, viesse até o quarto de Mariana. Sentam o-nos na beira da cam a. Esforcei-m e para que a voz não trem esse.

— Mãe, agora que passou tudo, e estam os a sós, gostaria que m e contasse o que falou a m eu respeito para o Dr. Lourenço.

Levantou as sobrancelhas, com o relem brando um m om ento penoso, que queria esquecer. De m á vontade, respondeu:

— Ele quis saber com o você era quando pequena, e lhe contei tudo. Foi só. Disse-lhe que realm ente parecia um m enino, m as era um a criança doce e nada rebelde. E que não achava que era um transexual. Mencionei, inclusive, que tinha tido nam orado e m ostrei-lhe algum as fotos suas.

Desconfiado, disse-lhe que gostaria que m e m ostrasse.

— Estão aqui na bolsa – relutou.

— Deixa ver, m ãe. Qual é o problem a? – tentei tranquilizá-la.

Abriu o fecho. Tirou um saco plástico envolto por um elástico.

— Estão aqui – esticou o braço, entregando-m e.

Com o presum ia, eram fotos m inhas antigas, que selecionou para levar ao consultório. Em algum as, aparecia de biquíni; outras eram do casam ento de Mariana, quando botei um vestido longo. Indignado, m as sem raiva, exclam ei:

— Mas, m ãe, por que fez isso! Entendo que quisesse m ostrar esse lado, m as por que não levou tam bém as outras?

Indecisa, desabafou:

— Olha, m inha filha, pensei m uito antes de ir a esse encontro. Não sabia o que iria dizer e não queria atrapalhar seus planos, em bora estivesse – e ainda estej a – desolada. Desorientada, conversei com Leila, que m e aconselhou a ir e contar tudo o que estivesse sentindo. Não escondi nada do m édico. E quero que saiba: disse m esm o a ele que não concordava com essa ideia m aluca de se operar. Nunca ouvi falar de ninguém que tenha feito isto. Tenho m edo, sinceram ente, de que se arrependa depois e... – deu um a pausa significativa e continuou – possa acontecer o pior...

Ela estava a ponto de ceder às lágrim as.

Naquele instante, senti o sofrim ento daquela m ulher que lutava com seu am or, num a am bivalência de sentim entos. Levantei-m e, dei a volta na quina da cam a e abracei-a com ternura.

— Mãezinha, estou entendendo... – engoli em seco. — Tam bém sofro em obrigá-la a passar por tudo isso... Mas é preciso, pelo m enos hoj e, que tente m e ouvir, m e com preender, para depois m e j ulgar. Minha vida é um inferno! Sofro com o um a desgraçada desde os quatro anos de idade quando com ecei a m e entender com o gente e descobri querer e não poder ser um m enino. Naquela época, não questionava nem via claro com o hoj e. Mas fui percebendo que, quanto m ais crescia, m ais as coisas pioravam . Nunca m e senti m ulher nem m e adaptei a este corpo... – interrom peu-m e, tentando ainda se enganar.

— Mas, m inha filha, e o seu nam oro? E quando se pintava para ir ao baile no clube? Chegava até a ficar um a m ulher m uito bonita...

Agoniado por ver sua dor e sem conseguir que m e entendesse, pela prim eira vez, em quase 30 anos, deitei no seu colo. Chorei com o um filho desam parado. Alisava m inha cabeça, enquanto m inha garganta e m inhas narinas se enchiam de angústia. Com esforço, grunhi em espasm os:

— Mãe, eu tentei... Tentei! Não aguentava m ais viver assim . Todos m e vendo com o se fosse um bicho, um m onstro. Precisava de carinho, de ser am ado. Reconhecer-m e... Mas não consegui...

Senti as lágrim as de m am ãe pingarem no m eu rosto. Levantei-m e, então, e saí do seu colo.

Segurei suas m ãos e, olhando para o seu rosto todo m olhado, supliquei:

— Mãe, essa cirurgia é a m inha salvação! Por favor, você é a pessoa que m ais m e conhece no m undo, m e aj ude! Confie em m im . Tenho certeza de que será um a coisa boa para todos nós. Com o tem po, irão se acostum ar à m inha nova im agem , e, quem sabe, até papai tam bém possa m e com preender um dia.

Nisso bateram à porta. Eram m eus sobrinhos, encium ados, querendo entrar. Mam ãe fungou e, recom pondo-se im ediatam ente, gritou:

— Vovó j á vai! – pegou o lenço, assoou o nariz, passou a m ão nos cabelos e abriu a porta.

Ainda fiquei naquela cam a por uns m inutos, sentindo calafrios por todo o corpo.

Depois, dei um j eito na cara abestada, peguei m inhas coisas e fui para casa.

Dois dias depois, telefonei para Mariana, que m e contou que havia posto no correio um a carta de m am ãe endereçada ao psiquiatra. Dizia-lhe ter m udado de opinião, estando agora favorável à cirurgia.

Era a segunda vez que m am ãe m e fazia desabar.