Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 39 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 10

O CIDADÃO JOÃO

 

De que vale uma sensação, se há uma razão exterior para

ela?

Fernando Pessoa

 

Abro o j ornal, e lá estava a m anchete:

“Cirurgião condenado por lesão corporal”. Sem acreditar no que estava lendo, devorei as prim eiras linhas da notícia:

“O renom ado cirurgião plástico Roberto Farina foi condenado a dois anos de prisão por lesão corporal no processo que responde há sete anos por ter operado Waldir Nogueira para se tornar m ulher. O transexual, que quer se cham ar Waldirene, entrou com um pedido de retificação de nom e e de sexo no Registro Civil. Diante do que o j uiz considerou um a prova de ‘m utilação do hum ano’, não concedeu a m udança de registro e condenou o cirurgião com direito a sursis, por ser prim ário. Num caso sem precedentes na Justiça brasileira, o Dr. Roberto Farina poderá, pois, responder em liberdade. Médicos do m undo inteiro se m anifestaram contra a sentença...”

Nem li o resto da m atéria. Foi com o se tivesse levado um soco no estôm ago. O coração parecia sair pela boca. O corpo todo trem ia pedindo m ais ar.

Foi Fernando, o ex-m arido de Leila, quem m e socorreu. Agora era um hom em rico, respeitado e que conhecia m uita gente. Não se esquivou quando pedi aj uda:

— Fernando, estou com dois problem as sérios: o m eu m édico foi condenado, não pode m ais operar, e eu preciso tirar um atestado de reservista para poder trabalhar. É óbvio que eu não posso fazer exam e m édico! Já m e disseram que eu devo tentar em algum a cidade do interior, por excesso de contingente. Você conhece alguém ?

Pensou por um m om ento.

— Vam os por partes. Quanto à continuação das suas cirurgias, vam os conversar no m eu consultório. Pode vir agora que um paciente faltou.

Fernando assum iu a postura profissional para m e explicar:

— A faloplastia ou feitura do pênis não é um a cirurgia, são várias. A ciência ainda engatinha nessa técnica. Se tudo der certo, você ficará com um pênis sofrível e, m uito possivelm ente, não poderá ter orgasm o.

Fernando tinha tocado num dos pontos m ais difíceis para m im . Perguntei sua opinião.

— Infelizm ente, é um a escolha que cabe a você fazer. Nas condições atuais, acho o resultado m uito precário. O novo pênis não terá sensibilidade, talvez só na base.

Com o especialista em cirurgia plástica reparadora, Fernando tinha docum entados alguns casos de reconstrução de pênis, quando o paciente tinha sofrido algum acidente. Ele continuou:

— Assim m esm o, a sensibilidade não será com o a da excitação sexual, apenas a sensação de tato. Durante pelo m enos um ano, em m édia, a região fica insensível, exigindo um cuidado perm anente para não se ferir pelo atrito com as roupas. Não vou iludi-lo. Será difícil ou quase im possível obter o orgasm o. Com o psicólogo, deve saber m elhor do que eu que isso depende da predisposição psíquica do indivíduo. Mas a perspectiva é bem pouco prom issora.

Lem brei-m e da inform ação que Van m e havia dado sobre a interrupção que a m aioria dos trans fazia nessa etapa das cirurgias em que m e encontrava.

Fernando pegou alguns rolos de film e e, colocando um no proj etor, que costum ava usar para discutir os casos com seus assistentes, disse que ficasse à vontade enquanto se arrum ava na sala ao lado.

As cirurgias consistiam basicam ente na elaboração de um tubo costurado na barriga, no m eu caso, do lado esquerdo, porque no direito estava a cicatriz da histerectom ia. Depois de alguns m eses, quando j á estivesse irrigado, um a das extrem idades seria cortada e costurada para baixo, em cim a da nova uretra, que j á havia sido feita anteriorm ente. Mais uns m eses e se cortaria a outra ponta presa no abdôm en para ficar no lugar. Com eçariam então os procedim entos para a feitura do saco escrotal.

Fui avaliando com m ais detalhes todos os estágios por que teria de passar. Caso houvesse algum problem a, e a irrigação sanguínea não fosse suficiente até a cabeça do pênis, poderia necrosar e precisar ser feita um a nova cirurgia de correção. No fim , teria um pedúnculo, sem glande, sem cabeça e com quase nenhum a sensibilidade. Com o tem po, poderia inclusive dim inuir de tam anho.

Fiquei nauseado ao assistir a toda aquela sangueira. O resultado deixava o suj eito cheio de cicatrizes e com um visual nada agradável. Com certeza eu teria um pênis, m as obrigatoriam ente teria de continuar a contar m inha história para qualquer m ulher que fosse dorm ir com igo.

Além do m ais, ficaria m ais de um ano m e operando, sem poder trabalhar.

Só 20 anos m ais tarde, essas cirurgias cham adas de “resignação sexual” seriam perm itidas e gratuitas, feitas pelo Sistem a Único de Saúde, em bora as do m eu caso continuem experim entais. Absurdam ente, o Brasil e a m aioria dos países da Am érica do Sul e Central continuaram a negar a m udança autom ática de identidade após a m udança de sexo, ou m esm o sem ela, e nem reconhecem a própria necessidade da cirurgia. Outras técnicas m ais m odernas seriam criadas, com o a da construção de um novo pênis a partir do próprio clitóris, a m etaioidioplastia, sem deixar as enorm es cicatrizes no abdôm en ou no antebraço.

Fernando vinha chegando de volta:

— E aí? Esclareceu suas dúvidas?

— É barra-pesada... E eu ainda teria de ir para o exterior se quisesse continuar...

— Você j á sabe, enquanto forem ilegais, eu não posso operar... Mais tarde, quem sabe, quando as técnicas evoluírem , e a legislação tam bém ...

Estava praticam ente decidido. Eu não tinha m uitas opções. Mas ainda faltava resolver os docum entos. Mais um a vez, Fernando veio em m eu socorro:

— Lem brei-m e de um grande am igo de infância que planta arroz no interior de Goiás. Já se candidatou a vereador e conhece Deus e o m undo. O que eu pedir ele faz sem pestanej ar. Tem dois filhos pequenos, e a m ulher se cham a Marisa. Você pode pegar a cam inhonete do seu pai para ir até lá. O nom e dele é Lélio Lim a, o apelido é Lelê. Vou falar com ele.

O dia estava am anhecendo quando passei sozinho por Cristalina, em direção ao sul do estado, dirigindo um carro que não era m eu, em um lugar por onde nunca tinha passado, para m e encontrar com um a pessoa que não conhecia. Fui apreciando a paisagem diferente do cerrado. A terra j á não estava tão esturricada, pois setem bro trazia as chuvas. Enorm es cupinzeiros e m uito pé de pequi, um a fruta com espinhos no caroço que eu nunca tinha experim entado.

Quando cheguei à cidadezinha, bastou falar no nom e do Lelê que todos o conheciam .

Fui bem recebido e convidado a alm oçar j ustam ente um arroz de pequi com galinha. Estranhei um pouco o gosto forte, m as depois fui m e habituando, j á que quase tudo levava essa fruta.

Lelê quis entender o m otivo da m inha visita. Contei-lhe toda a verdade. Em bora surpreso por eu ter sido um a m ulher, não questionou nada. Pediu-m e um tem po, pois estava na época da colheita do arroz, e, assim que term inasse, partiríam os para um a cidadezinha próxim a.

Fiquei um a sem ana com essa fam ília. À noite todos se reuniam com os boiadeiros, tocando viola seresteira e cantando em baixo daquele céu tom ado de estrelas. Passava os dias conversando com Marisa, que era professora da escola local, ou brincando com as crianças. Às vezes ia até os cam pos de arroz para acom panhar a colheita. Nunca tinha visto um a colhedeira funcionando. Colhia e ensacava ao m esm o tem po. Era enorm e e se locom ovia num terreno m eio pantanoso, até que um dia atolou. Foram nove horas de luta, usando um m acaco hidráulico, para conseguir fazê-la andar novam ente. Ninguém arredou pé dali, inclusive eu, que acabei tam bém com endo arroz cru para m atar a fom e. Arranj aram -m e depois um chapéu de palha, e ficava horas dirigindo um pequeno trator que arava o terreno para o próxim o plantio. Im aginava-m e novam ente com seis anos, pilotando o m eu j ipe de Papai Noel.

Chegou o dia da nossa partida. Lelê j á tinha sondado com os correligionários onde seria m elhor para tirarm os o atestado.

Rodam os o dia inteiro, só parando para com er. Fui conhecendo as várias cidades goianas, até chegarm os a um vilarej o onde consegui m e alistar. Com o previsto, não precisei nem fazer exam e m édico. Apresentei m inha identidade, que j á providenciara, e teria de voltar daí a uns dez dias, para prestar j uram ento à bandeira e pegar m eu certificado. Na volta, Lelê quis passar em outra cidade, para resolver a venda de gado e visitar um com padre.

Dez dias depois, estava eu, perfilado, diante da bandeira do Brasil e, enquanto prestava j uram ento de servir ao m eu país em caso de am eaça externa, pensava que, enquanto Joana, eu era psicóloga, fazia m estrado, dava aulas em três universidades e m antinha um consultório repleto de clientes. Agora, com o João, tinha perdido todo o m eu currículo escolar e de vida. Era um analfabeto, sem direito nem aos anos de trabalho em carteira. Não entraria na Justiça porque havia a exigência do térm ino cirúrgico e não correria o risco de ficar à m ercê dos j uízes, cuj a m aioria continuava preconceituosa e ignorante sobre a questão da transexualidade.

Lelê virou quase um irm ão, pois, sem sua generosidade e sua disposição, eu não teria conseguido o docum ento m ais im portante. O restante da docum entação, com o CPF e título de eleitor, foi bem m ais sim ples.

Voltei a Brasília feliz da vida. Papai resolveu fazer um churrasco para com em orarm os j untos o “nascim ento” do m ais novo cidadão brasileiro. Quase caí para trás. Todos estavam aliviados porque agora eu poderia arranj ar um em prego.

Seis m eses depois, recebo um telefonem a de papai:

— Meu filho, arranj ei um em prego para você. Falei com um am igo, e na próxim a sem ana você j á pode com eçar a trabalhar na usina de concreto dele.

Por uns m om entos fiquei m udo, estarrecido e feliz. Com a voz em bargada, só consegui agradecer e dizer que não iria decepcioná-lo.

O am igo de m eu pai, em bora soubesse do m eu currículo, avisou-m e de que não poderia m e dar privilégios, até porque eu não tinha nenhum diplom a. Teria de subir na em presa pelo m eu próprio esforço.

O prim eiro grande desafio foi no exam e m édico, no qual fui solicitado a arriar as cuecas.

— Doutor, tem um problem inha... Eu nasci com um a m á-form ação genital e tenho vergonha de m ostrar... Será que é tão im portante assim para trabalhar num a usina que eu fique nu?

Felizm ente o m édico não insistiu, e eu passei no teste.

Com ecei batendo notas fiscais na expedição às seis horas da m anhã. As betoneiras enfileiradas j á com eçavam a carregar os vários tipos de concreto para as obras. Com o tem po, tornei-m e o assistente do gerente, o que m e deu o m aior alívio, pois passei a frequentar o banheiro dele, o único que tinha porta.

Na usina só havia hom ens, que urinavam em qualquer lugar, e quase todos m antinham duas fam ílias.

Fui m e habituando àquele am biente m achista, im undo, cheio de pó de cim ento, com pessoas em brutecidas pela pobreza, pela ignorância e pelo sofrim ento. Não tinham cerim ônia para tirar m eleca ou coçar o saco uns na frente dos outros. Tentava ser um pouco com o eles para não cham ar tanta atenção, m as m e traía pelo m eu vocabulário, pelo m eu j eito observador, pelo m eu silêncio.

Um dia, Leonardo, que ficava na balança, chegou m eio acabrunhado, e a turm a logo insistiu para ele falar.

— Não canto m ais m ulher nenhum a! Tava na Praça da Bandeira quando passou por m im a m aior gata, e aí eu soltei: “Que tesão!”. Sabe o que ela respondeu? “Dá o rabo que passa” Fiquei com pletam ente sem graça, sem saber o que falar.

Jorge m e contou que gostava de com er o rabo de um a m ulher enquanto ela peidava, porque dava um a pressãozinha deliciosa no pau.

Mas, de todas as histórias, a m elhor frase ainda foi a do Dj alm a, chefe dos m otoristas, que, diante das exibições de quem com ia m ais e m elhor, disse bem alto para todos ouvirem :

— Macho bom não é o que goza várias vezes, m as é o que faz a m ulher gozar várias vezes.