Viagem Solitária
Capítulo 4
LUTANDO SOZINHO
Não são as coisas que atormentam os homens,
mas a opinião que se tem delas.
Epicteto
Eu não conhecia ninguém igual a m im . Não era hetero, não era hom o, era trans. Mas o que é ser trans? Eu não sabia. Eu só era diferente. Precisava m e reinventar.
Dois m eses tinham se passado desde o rom pim ento do prim eiro elo. Estava totalm ente recuperado da cirurgia. Com eçava a engatinhar tanto nas delícias com o nas agruras desta nova vida. A luta era árdua, m as fôlego não m e faltava.
A fam ília, diante do consum ado, não teve outra saída senão adm itir m inha nova im agem . Mam ãe continuava m e escrevendo, preocupada com o que aconteceria daqui para a frente, e torcia para eu ser feliz. Nas cartas que lhe m andava, passei a m e tratar no m asculino e a assinar “João”. Com esforço, fazia o m esm o, em bora vez por outra aparecesse um “m inha filha”.
De Leila, só recebi um a carta, na qual ainda m e cham ava de Joana, confessando que lhe soava falsa a m inha m udança. Não dem onstrava a m ínim a boa vontade em se esforçar para m e tratar no m asculino.
Tia Estela, irm ã de m am ãe, teve um a aceitação im ediata. Tratava-m e carinhosam ente por “Joãozinho”. Sua viuvez fê-la m ergulhar m ais profundam ente na arte de viver. Lem bro-m e de que, num a de nossas conversas, citou um provérbio tibetano: “Não há pecados. Há apenas estágios de desenvolvim ento”.
Às novas pessoas que ia conhecendo, dava m eu novo nom e. Não havia j ustificativas nem erros da parte delas.
A operação e o horm ônio ainda não tinham provocado transform ações tão significativas a ponto de m e tornar fisicam ente outra pessoa. No entanto, foi a chave para que eu tivesse agora condições de exigir que m e vissem e m e tratassem com o sem pre m e senti. Antes, ninguém aceitaria. Quando era pequeno e ouvia todos se referindo a m im com o “ela”, consertava m entalm ente para “ele”. Não havia possibilidade de m anifestar a m inha reprovação. Caso o fizesse, iriam m e achar louco.
O fato de os conhecidos se enganarem no tratam ento em relação a m im era desagradável, m as com preensível. Quando era apenas um lapso, devido ao hábito, sem qualquer intenção de agressão, não m e im portava. Corrigia apenas um a vez, para a conversa não se tornar cansativa.
Não perdoava quando parecia haver no outro a necessidade de negar a m inha m udança, tratando-m e no fem inino, com o se quisesse m anter viva a antiga im agem de m ulher. Consertava o gênero quantas vezes aparecesse no diálogo. Parecia ser um grande desaforo o fato de agora se verem obrigados a aceitar a m inha nova figura.
Havia a curiosidade geral a respeito dos detalhes da cirurgia. Esboçava rapidam ente o acontecido, sem entrar em porm enores. Era visto com o um “caso anôm alo”. Poucos foram os que m anifestaram interesse pelos outros aspectos que a cirurgia m e proporcionou.
O que m ais m e preocupava era saber quando iria cum prir a segunda etapa, qual seria e com o a pagaria.
Farina havia m e dito que um a das operações, a pan-histerectom ia (retirada total dos órgãos genitais internos), não seria feita por ele. Aconselhou-m e a procurar um especialista, em bora m e instruísse de com o ele deveria fazer a via de acesso do bisturi no abdôm en, para que a cicatriz não atrapalhasse os futuros enxertos. Explicou-m e que essa cirurgia poderia ser feita em qualquer fase do processo e que ficaria a m eu critério essa escolha. Ele não a executaria porque não era um a cirurgia plástica.
O m otivo decisivo para querer fazê-la logo eram o alívio que sentiria em parar de “m onstruar” e a desobrigação de tom ar horm ônios inibidores im portados e caros, para neutralizar a ação daqueles ainda produzidos pelos ovários. Decidi que seria a próxim a etapa. Todos os outros procedim entos seriam basicam ente enxertos, o que perturbaria sobretudo a m inha m obilidade social. Durante vários m eses, teria um tubo costurado na barriga que só depois seria transposto para o lugar definitivo.
Escrevi ao Farina para lhe pedir que m e indicasse algum especialista. Fiz tam bém um pequeno relatório da m inha situação física, especificando as fístulas.
Sua resposta chegou em um a sem ana. Era um a carta cheia de desculpas e j ustificativas, em que não m encionava ninguém que pudesse m e fazer tal operação. O problem a das fístulas era de difícil correção, dizia, pois era grande o risco de provocar novas, ao fazer m ais um a cirurgia no tecido j á debilitado.
Voltou a sensação de abandono. E dessa vez a batalha exigia arm as que eu não possuía. Onde iria conseguir um m édico que m e fizesse a cirurgia tam bém considerada ilegal, considerando que extraía órgãos sadios e que não representavam am eaça à m inha saúde física?
Fui atrás de Porto, com o últim o recurso. Tudo em vão. A opção dele era ir para os Estados Unidos.
— Vai ser difícil. Não conheço ninguém . Tem de ser um m édico que com preenda o problem a ou um charlatão bem hábil, capaz de fazer um corte com o Farina exige.
Apesar das prom essas de Porto de tentar conseguir alguém , o m elhor era não ficar m e iludindo.
Os dias transcorriam num a agonia crescente. Mais dem orada se tornava a hora de poder reconhecer m eu corpo com o m eu – de renascer.