Viagem Solitária
Capítulo 13
O SUFOCO
Há certas coisas
Que a boca não diz
E o peito aperta
Estrangulando lágrimas.
A boca se abre
Para poder respirar,
Porque o nariz encheu
E o coração não esvaziou.
(Do poem a “O Sufoco”, do autor).
Dei a cópia das chaves de casa para Yuri. Queria que ele se sentisse responsável e à vontade para vir m e visitar quando desej asse. Suas notas continuavam m elhorando na escola, porém a orientadora nos cham ou para com entar que ele estava se relacionando com poucos colegas. Lola exigiu a m inha presença, m as m e recusei. Achei que o m enino tinha direito de ter lá suas reservas, desde que não se prej udicasse nem a ninguém . Lola ficou furiosa.
Ela fazia terapia com um a psicóloga am iga. Sem m e consultar, resolveu que nosso filho iria se subm eter ao tratam ento com a m esm a pessoa. Quando eu soube, achei aquilo estranho.
Eu não sabia exatam ente com o estava a relação deles nos m eses que se seguiram à revelação. Sentia apenas que ela estava m ais agressiva com igo, sobretudo nas cobranças financeiras. Eu continuava a pagar a escola dele e o plano de saúde, no que os velhos m e aj udavam .
Algum tem po depois, ela com eçou a soltar um as indiretas a m eu respeito para o m enino. Entre outras, disse que, quando ele nasceu, eu não queria registrá-lo com o m eu nom e. Finalm ente, previu que ele seria alto com o o pai. Yuri pediu que ela se referisse ao pai biológico pelo nom e, Cássio, porque eu era seu pai. O clim a foi ficando cada vez m ais pesado. Yuri chegou a am eaçar fugir de casa se ela o proibisse de m e ver.
Ela não se conteve e, com o últim a cartada, contou o resto da m inha história. Não m e disse nada. Fiquei sabendo pelo próprio Yuri, chocado com a form a infeliz que a m ãe havia escolhido para lhe dizer, curto e grosso:
— Seu pai j á foi um a m ulher.
A reação im ediata dele foi de revolta contra a m ãe. Chorando, com unicou:
— Apesar do que m e falou, continuo am ando o m eu pai. Quero ir para a casa dele e m orar lá.
Ela se descontrolou. Alegou que era sua m ãe, que tinha que lhe obedecer e que estava proibido de m e ver. Desesperado, ele conseguiu fugir e veio até m inha casa. O garoto se aj oelhou, agarrou m inhas pernas e im plorou que eu o sequestrasse, que nunca m ais queria ver a m ãe.
Fiquei desnorteado. Sabia que Lola o am ava tanto que seria capaz de tudo para não o perder. Já tinha m e dito que era m uito m ais m ãe dele do que eu, pai. Ela abusava da condição de que j am ais eu poderia lutar pela guarda do m enino. Mas não pretendia enfrentá-la. Naquele m om ento, tudo o que eu desej ava era acalm á-lo. O pior para um filho era odiar a própria m ãe. Abracei Yuri bem forte.
Pensei em um m odo de sair do im passe. Sugeri a ele que fosse para a casa da avó m aterna por alguns dias. Ele concordou, gostava dela. Resolvi procurar a tal psicóloga para servir de m ediadora. Marcam os um a entrevista com a presença de Lola. Foi terrível. A terapeuta nem sequer disfarçou a parcialidade, enfatizando que Yuri não tinha discurso próprio, com o a m ãe j á havia m e dito. Que prim eiro ele teria de resolver o problem a com a m ãe, para depois ir para a casa do pai.
Ela sabia da m inha história. Lola, desarvorada, afirm ou que eu era nocivo para o filho por ser louco e que não tinha condições de criar um a criança. Por isso, não queria que ele viesse m orar com igo. Não quis estender aquele bate-boca. Apresentei logo a m inha proposta, j á com binada com ele, de que fosse para a casa da avó m aterna. Lola concordou.
Depois de uns dias, ela m e revelou que, cerca de um ano antes, um am igo a tinha alertado de que eu era um pai transexual e tentaria assum ir tam bém a “m ãe” que eu teria dentro de m im e que, portanto, desej aria “m atar a m ãe”, que era ela. Para cúm ulo, disse que eu tinha ofendido a Deus, por contrariar a natureza. Logo ela, que não só vivera com igo todos aqueles anos com o tam bém questionava a existência divina.
O pior é que m e proibiu de visitá-lo. Falávam os apenas por telefone. Por sorte, o tio César o estava aj udando nos deveres, m as m esm o assim continuavam atrasados. Acabei fazendo três resum os dos quatro de História que tinha de entregar, querendo poupá-lo. Deixei o envelope com a em pregada da avó. A m ãe protestou e depois contou ao professor.
Chegou o Dia dos Pais, e finalm ente pude vê-lo. O abraço foi longo e em ocionado. Ganhei dele um lindo cartão.
Passou-se um m ês. Os ânim os tinham serenado um pouco. A em pregada da avó foi em bora, e Yuri voltou para a casa da m ãe. Passam os a nos ver em fins de sem ana alternados, em bora ela o tivesse proibido de trazer os livros da escola para estudar com igo. Tam bém não lhe dava os recados que eu deixava na secretária eletrônica. Yuri continuava revoltado. Não aceitava o carinho m aterno. Resolvi acatar a decisão da terapeuta e respeitar a distância im posta.
Transcorreram m ais alguns m eses quando recebi um com unicado para com parecer à Defensoria Pública. A defensora expôs as reclam ações da m ãe e lem brou que eu não era o pai verdadeiro.
Algum tem po antes, eu tinha descoberto, por interm édio de um a ex-colega, que a terapeuta não era cadastrada no Conselho Regional de Psicologia. Exercia ilegalm ente a profissão. Quando relatei o fato, Lola ficou surpresa, desconfiada, e nervosam ente atropelava as frases, exigindo que, tam bém nas férias, o filho m e visse som ente a cada 15 dias. A essa altura, a defensora j á arregalava os olhos e com eçou a m e olhar com um a expressão diferente. Declarei que concordaria com tudo o que fosse para o bem do garoto.
Consegui duas pequenas vitórias: a m udança de terapeuta até o fim das férias e o direito de Yuri levar os livros de estudo para m inha casa, m as não os cadernos de exercício.
Na calçada, Lola am eaçou ligar para a m ãe de Sandra e contar tudo.
Um m ês depois, outra: abriria um processo contra m im , por falsa identidade, m as desistiu quando Yuri am eaçou nunca m ais falar com ela.
No fim de sem ana seguinte, Yuri veio com os livros e conseguiu tam bém trazer os cadernos. Tentam os botar em dia as pendências, m as ainda faltavam 28 exercícios de inglês e estudar m ais quatro m atérias, um a delas com prova m arcada.
Lola ligou para apanhá-lo no dom ingo. Argum entei que precisávam os concluir os estudos, m as respondeu que eu deveria entregá-lo im ediatam ente. Perdi a paciência, que cham asse a polícia para arrancá-lo da m inha casa. Avisei que ele iria direto para a escola no dia seguinte e, de lá, para a casa dela. Não adiantou.
Por volta das dez da noite, ela se dependurou na cam painha do m eu portão. Com o ninguém atendesse, tentou ligar várias vezes. Deixam os na secretária. Minha sogra com eçou a passar m al. De m anhã, tornou a ligar. Estava desesperada. Queria assum ir total responsabilidade sobre o filho, inclusive a “paternidade”(!), arcando tam bém com as despesas de escola e saúde.
Na sem ana seguinte, a m ãe dela deu entrada no hospital com arritm ia cardíaca. Im agino que Lola tenha lhe contado a m inha história.
Concordou em que eu visse Yuri depois da terapia, na condição de que fosse na sua presença e de que eu aj udasse na reconciliação dela com o filho.
Marcam os em um bar perto do consultório.
Antes de sair de casa, escrevi um texto para ele, que entreguei depois de um longo e apertado abraço:
Meu filho,
Finalm ente acabaram -se os grandes segredos m eus e os de sua m ãe. Quem sabe, agora, nós três não vam os poder novam ente nos dar as m ãos? Pai e m ãe tam bém erram , m esm o quando am am seus filhos, m as acertam os quando contribuím os para tornar você um ser tão especial, com um coração do tam anho de um dinossauro e capaz até de nos com preender e perdoar. Sua m ãe foi coraj osa quando escolheu enfrentar a vida e criar um filho com igo, e você tem dem onstrado ser tão coraj oso quanto ela. Que tal apagar qualquer culpa que apareça e cobri-la com o seu am or? Este m om ento é delicado para nós três. Portanto, vam os tentar ser am áveis entre nós três.
Um beij ão do pai no seu caranguej o.
Desconfiada, Lola tom ou o papel da m ão do filho assim que ele term inou de ler.
Tentei desarm ar os espíritos, dando com o exem plo para ele um a festa, cuj o sucesso dependia da escolha de boas m úsicas, para que todos dançassem . E essa nossa festa não estava boa para nós três. Portanto, devíam os m udar de m úsica e experim entar as que sua m ãe escolhesse.
Surpreendi Lola ao dizer que ele poderia m e telefonar na sua frente, sem precisar fazê-lo escondido, da escola. Aconselhei-o a aceitar a aj uda dela nos estudos, pois ele se recusava; a poder com entar com igo, sem receio, as coisas boas e ruins do convívio entre eles. Enfim , que term inasse o m edo.
Lola foi descontraindo a expressão carrancuda, à m edida que fortalecia a proposta de nos desarm arm os, sobretudo ele em relação a ela.
Concordou que Yuri precisava procurar m ais os am igos.
Expliquei da m inha identidade ilegal, pedindo discrição, m as autorizando-o a contar m inha história a quem achasse que podia ouvir.
Finalm ente, falei do m eu livro, o que o deixou m uito adm irado, por não saber da existência. Mais tarde, coloquei um exem plar na estante do seu quarto.
Tive esperança de que esse fosse o prim eiro encontro de m uitos outros.
Indaguei se ele queria m e fazer algum a pergunta, ao que ele respondeu:
— Depois, sozinho com você.