Viagem Solitária
Capítulo 3
O FALSO E O VERDADEIRO
... O espírito político acaba sempre sendo obrigado a
falsificar.
Paul Valéry
Eu ainda estava de m olho quando, um dia, a cam painha tocou.
Am anda estava trabalhando, então m e levantei para atender. Era um a senhora, cuj o rosto não m e era totalm ente estranho, m as não conseguia m e lem brar de onde. Vestia um terninho azul com um a blusa branca por baixo. Ao seu lado, no chão, um a m ala.
— O que a senhora desej a? – perguntei curioso.
— Am anda está? – foi sua resposta com um tom que parecia ser a da dona da casa.
Subitam ente, lem brei-m e de onde conhecia aquele rosto. Da rodoviária.
— Não, ela saiu. A senhora...
— Exatam ente. Sou a m ãe dela. Você é o João?
Fui pego de surpresa, que só então atentei para a voz, que devia ter saído m eio fina. Estava totalm ente desligado, lendo histórias em quadrinhos, deitado na cam a. Dei um pigarro e, baixando um pouco a cabeça, respondi grosso:
— Sou. Mas vam os entrando. Ela não vai dem orar.
Quando m e curvei para apanhar a m ala, botando m eio corpo para fora, no corredor, constatei estar de pij am a e que não deveria ainda carregar pesos. Mas não havia outra saída.
— A senhora m e desculpe por recebê-la nestes traj es – e fiz um gesto m ostrando m inha roupa –, m as não sabíam os que iria chegar.
Abanou a m ão no ar, com o dizendo que não tinha im portância.
— Fique à vontade. Resolvi m esm o vir à últim a hora. Queria m uito conhecê-lo...
A m ulher m e estudava de cim a a baixo. “Desta vez, não escapo.” Im aginei rápido um a desculpa para estar em casa àquela hora do dia, em plena sem ana. Era preciso um a boa história. Não sabia por quanto tem po perm aneceria conosco e não poderia sair depois para disfarçar.
— A senhora deu sorte de m e encontrar em casa hoj e. Justam ente ontem com eçaram uns cursos na faculdade, e resolveram dispensar as aulas para que os alunos de Psicologia pudessem assisti-los. Bom foi para nós, professores, pois conseguim os um as feriazinhas extras...
Evidentem ente, desconhecia o fato de eu estar desem pregado e engoliu a explicação sem dizer nada. Percorria com os olhos tudo dentro da casa. Repentinam ente, virou-se e, encarando-m e firm e, perguntou:
— Minha filha não pinta m ais? Faz tem po que não m e m anda um quadro. O últim o dela está lá na parede da sala: um vasinho com flores, de quando tinha 13 anos.
Naquele m om ento, entendi a m ãe que era.
— Am anda agora quase não tem tem po. Está estudando e trabalhando m uito. Fala frequentem ente da senhora, do seu Luiz e do tem po que viveu no Nordeste. Estávam os até pensando em dar um pulinho lá nas próxim as férias.
Minha sogra se anim ou um pouco:
— Recife agora é um a cidade grande. Nem se conhece m ais... Antigam ente com právam os o pão e o leite num a carrocinha que passava em frente de casa. Era um a com odidade. Agora, tem que se enfrentar fila para tudo, além do fato de nada m ais prestar: tudo velho e estragado.
A prosa não era das m ais anim adoras, m as servia para encher o tem po. Pelo m enos, não m e fazia perguntas. Quando o assunto esm orecia, dava-lhe m ais corda.
— A senhora sem pre viveu lá? – perguntei, sem m aior interesse.
— Não. Nasci m esm o foi em São José da Laj e, em Alagoas. Depois que Am anda nasceu é que Luiz conseguiu um a transferência, e nos m udam os para onde m oram os até hoj e.
Gelei. Não haveria duas cidades com o m esm o nom e. Só podia ser a m esm a! Mas que infeliz coincidência. Era precisam ente o lugar em que papai nascera e se criara. Vai ver que até se conheciam ! Dissim ulei, para que não percebesse que o lugar m e era fam iliar, e tem i que perguntasse o m eu sobrenom e.
A cam painha tocou. “Quem será a essa hora?” Am anda não era, pois tinha chave, e os prédios ainda não tinham interfone.
Pensei no porteiro, para entregar algum a correspondência. Destranquei a porta, rodando a m açaneta. Era Suzana, m inha prim a, aquela com quem brincava na infância. Rapidam ente, tapei sua boca antes que falasse algum a coisa com prom etedora. Fiz-lhe sinal de haver m ais gente na sala, para tom ar cuidado. Não tive j eito de im pedi-la de entrar.
Suzana raram ente aparecia e, logo agora, resolvera m e fazer um a surpresa. Tratava-m e, com o o resto da fam ília, no fem inino. Com o é que eu poderia preveni-la para m udar para o m asculino se nem a par da situação estava? Desconhecia m eus planos, assim com o as cirurgias. Maquinei rápido um m eio, que não fosse ostensivo, para afastar as duas.
— Dona Carm em , a senhora não quer tom ar um banho e trocar de roupa, para se sentir m elhor? Enquanto preparo um chazinho para tom arm os.
Aprovou a ideia. Dei-lhe toalha e sabonete, arrem atando com a frase de praxe:
— Sinta-se com o na sua casa. Nada de cerim ônias.
Mal a porta do banheiro fechou, cham ei Suzana à cozinha. Mas com o iria lhe dizer que não era m ais m ulher? Um a notícia um tanto bizarra! O tem po, porém , era escasso para m uitas explicações e diplom acias. A prem ência da necessidade deu-m e coragem . Expus-lhe rapidam ente a m inha nova condição e falei-lhe do m eu receio de a sogra descobrir. Suzana nem piscava. Tive a im pressão, m ais de um a vez, de que sua respiração ia parar.
— Mas, Jo-a-na... – fiz-lhe sinal para que falasse m ais baixo.
— Suzi, por favor, controle-se. Sei que é m uita coisa ao m esm o tem po, m as tam bém há m uito que a gente não se vê. Se não tem condições de m e cham ar de João, então, sinto m uito, m as peço que vá em bora. Infelizm ente, sua chegada foi na pior hora do m undo! Estava querendo vê-la para conversarm os com calm a, m as hoj e é im possível. Escute, ela desligou o chuveiro. Vai sair logo. Vam os fazer um a coisa: fique só um tem pinho, tom e o chá e se arranque. Invente um a desculpa qualquer. Finj a que esqueceu um com prom isso, sei lá, m as não m e abra a boca, por favor.
Suzana percebeu m inha aflição e resolveu concordar.
— Tá certo. Não vou dem orar, m as não fique tão nervosa.
— Nervoso, Suzana, nervoso! Cuidado! Vá se habituando.
— Ih, o chá! Esquecem os de fazer o chá!
Pegou rápido um a panela pequena que estava no arm ário à sua frente. Encheu-a de água, acendeu o fogo e, chegando m ais perto, cochichou:
— Mas ela não desconfia de nada?
— Psiu, depois a gente conversa sobre isso. Vam os falar de outra coisa.
A porta do banheiro se abriu. Dona Carm em surgiu com o pescoço branco de talco, envolta num confortável robe. Sentou-se num a alm ofada, no chão, porém antes fez um preâm bulo:
— Já falei com Am anda na outra vez que estive aqui. Precisam com prar um as cadeiras. Onde j á se viu casa sem m esa nem cadeiras!
Tom am os o chá, e, com o havíam os com binado, Suzana só abriu a boca para se despedir. Levei-a até a porta. Am anda surgiu no corredor.
— Oi, am or. Com o está se sentindo hoj e?
Dei um a piscadela, entortei a cara, para dizer que havia m ais alguém na sala, e falei bem alto:
— Benzinho, tem um a surpresa para você. Adivinhe quem chegou para nos visitar!
Am anda cum prim entou Suzana rapidam ente e entrou em casa.
— Mam ãe! É você? – percebendo estar dem onstrando m ais surpresa do que contentam ento, tentou consertar: — Que coisa boa! A que horas a senhora chegou?
Deixei as duas conversando e voltei para o quarto. Sentei-m e na cam a com um suspiro de alívio. Em cim a da m esa de cabeceira, vi um a carta de m inha m ãe. Peguei rápido o envelope que trazia m eu nom e, rasguei e aproveitei para dar sum iço no que pudesse ser com prom etedor.
A m ãe de Am anda passou um a sem ana conosco, ou m elhor, praticam ente com igo, pois fui quem lhe fiz com panhia a m aior parte do tem po. A convivência foi satisfatória. Tudo indicava que havia gostado de m im . Entretanto, durante esses dias surgiram algum as situações bem estressantes.
Um a delas foi no dia em que veio m e cobrar sobre as m inhas intenções em relação à sua filha. Fingi não entender, o que a obrigou a ser m ais clara:
— João, você pretende se casar com Am anda?
A pergunta penetrou com o um punhal, em bora a esperasse. Não tinha um a resposta pronta. Se confirm asse, certam ente a acalm aria, m as, por outro lado, isso seria im possível de concretizar. Se desse um a negativa, o clim a de cobrança e porquês não m e deixaria m ais em paz.
Além disso, provocaria desconfiança e decepção. Pensei rápido. Achei que a ter com o inim iga seria pior. Melhor era ir levando com j eitinho até o dia em que se conform asse ou pudesse m e casar legalm ente.
— Pretendo. Porém , acham os m elhor ver prim eiro se com binam os realm ente. Quero que saiba que gosto m uito da sua filha. De qualquer m aneira, quando vierem os filhos nós regularizarem os a situação. Afinal de contas, acredito que a senhora concorde com igo: que o principal não é o papel.
A ideia dos filhos foi ótim a. Assim poderíam os adiar indefinidam ente a decisão. Inegavelm ente, porém , sua argum entação m e abalou.
— Meu filho – disse-m e docem ente –, só não quero que m inha filha passe pelo que passei. Quando penso em casam ento, é porque senti na carne o que é viver com um hom em sem ser sua esposa legítim a. A vida toda fui rechaçada e até difam ada. A fam ília só m e aceitou quando Am anda nasceu, e todos sabiam que não podíam os nos casar, porque ele era desquitado. É por isso que apelo para o seu bom -senso. Minha filha é m inha vida. O que acontecer a ela estará acontecendo com igo! – term inou com a voz estrangulada e os olhos lacrim ej ando.
Prosseguiu relatando-m e sua experiência conj ugal com o tendo sido um evento feliz, apesar de sofrido. Enquanto relem brava o saudoso com panheiro, assoava o nariz com um lenço bordado, que apertava entre as m ãos.
Não costum o m e apiedar facilm ente da desgraça alheia. Porém , fiquei tocado ao sentir aquela m ulher tão sozinha e sem ter aprendido a viver para si. Era tarde dem ais para tentar fazê-la entender quão distorcida m e parecia sua visão de m undo. Consum ia-se num passado que só lhe trazia dor e lam entações. Queria continuar vivendo só por causa da filha e adm itia não ter m ais prazer na vida. Ela era tudo o que lhe restava.
Outra situação difícil aconteceu num sábado à noite. Dona Carm em m anifestou a vontade de ir a um cinem a e j antar fora, proposta bastante razoável. Sua sugestão m e lisonj eou e apavorou. Conhecia m uita gente, grande parte alunos e ex-alunos, e não seria difícil trom bar com algum deles.
Eu j á tinha conseguido escapar dias antes de sair com ela para fazer algum as com pras. Mas, dessa vez, quando ensaiei um a desculpa, protestou:
— Não, senhor. Não aceito desculpas. Estou convidando e ficarei m uito sentida se recusar!
O doloroso é que gostaria de satisfazê-la. Sem poder lhe contar a verdade, tudo se tornava am eaçador dem ais.
O film e que ela escolheu era um a com édia m usicada, bem açucarada, daquelas que só se aguenta ver um a vez na vida. Sua teoria era de que se vai ao cinem a para ver cenas bonitas e leves – de desgraças, a vida j á está cheia.
Ao term inar a sessão, fom os cam inhando para um bom restaurante ali perto. Procurei um a m esa afastada. Sentei-m e de frente para a parede, evitando dar de cara com algum conhecido.
O am biente era requintado, e a com ida, m ais enfeitada do que gostosa. Estava im aginando a conta que teria de pagar sem ter condições, m as m inha sogra fez questão de assum ir a despesa, j á que eu era o convidado.
Quando saím os, ao contornar um a das m esas, dei de cara com um professor da faculdade. Desviei o rosto im ediatam ente, m as ainda o ouvi cham ar alto o m eu nom e. Fingi que não era com igo e saí apressado. A grosseria j á estava feita.
Mas o m om ento m ais delicado ainda estava por acontecer.
Naquela sem ana de intenso convívio, é evidente que dona Carm em teve oportunidade de m e analisar o quanto quis. Com o m e visse vestido nos m ais diversos traj es, tive de tom ar certos cuidados, com o não trocar de cam isa na sua frente. As cicatrizes provocariam perguntas em baraçosas. Entretanto, com ecei a m e preocupar excessivam ente com a m inha m aneira de sentar. Por m ais largas que fossem as calças, ficava evidente a ausência do volum e escrotal. Não m e relaxava um só m inuto, fosse atentando para a voz, as m arcas no peito, as m entiras inventadas, os passeios perigosos...
Pensei, então, pela prim eira vez, na necessidade social de portar um pênis postiço. Mas com o? De quê? Principiei dando um a olhada geral ao m eu redor. O que poderia usar para suprir a falta? Teria de ser algo m acio e não m uito grande, com um form ato apropriado. Mas o quê? Olhava, olhava, pegava um obj eto parecido, experim entava-o, não servia. Não m e decidia por nada. Achava sem pre um defeito qualquer. Verifiquei que o m eu grau de exigência estava altíssim o e que, com isso, não iria resolver o im passe a tem po.
Um dia, quando saía do banho, ao puxar a toalha, as m eias penduradas no ferro da cortina vieram j untas.
Eureca! Enrolei-as, am assando um pouco para não ficarem tão arredondadas, obtendo um form ato m elhor, sem elhante ao que precisava. Coloquei-as dentro da cueca.
Tem porariam ente, estava resolvido o problem a. Entretanto, o resultado dessa operação não foi tão sim ples. Um sério m ecanism o de inversão com eçou a se esboçar.
Não só m e preocupava agora com que tudo estivesse perfeito e natural, no lugar certo, com o um novo com portam ento surgia em consequência desse uso: passei a m e sentar de pernas abertas, provocando posições em que pudesse evidenciar a existência dos m eus genitais, num a típica atitude de autoafirm ação, e por que não, de puro exibicionism o.
Lem brei-m e das vezes em que punha o absorvente, quando vivia com Mercedes, apesar de serem agora diferentes as circunstâncias.
Descobri que essa brincadeira não era tão inconsequente. Um prazer crescente foi m e tom ando por estar com aquele volum e entre as pernas. Não conseguia m ais tirá-lo nem para dorm ir, quando seu uso se tornava desnecessário.
Am anda deve ter percebido, m as não disse palavra. Era possível que encarasse isso m eram ente com o um a satisfação pela presença da m ãe.
Não m e sentia ridículo. Havia um a j ustificativa, um álibi nobre, social.
Entretanto, m esm o depois que dona Carm em partiu, continuei a usá-lo. Inicialm ente, só em público. Percebi, porém , que era absurdo portá-lo só na rua e, ao chegar em casa, com o num passe de m ágica, ele desaparecia de m im . Era urgente encontrar um a lógica. A resolução definitiva de não m ais tirá-lo, só a tom ei num fim de sem ana quando fom os a um a praia distante.
Coloquei um calção de pano grosso, pois os tecidos finos, quando m olhados, m arcavam m uito o form ato do pênis. Botei por debaixo um a cueca para sustentar m elhor a m inha “prótese”.
Tratava-o assim porque o via com o se fosse um m em bro que m e faltasse, com o um a perna ou um braço.
Quantas pessoas não deveriam sofrer da m esm a dificuldade? Indivíduos que perderam o pênis em acidente, doença, guerra ou necrose, com o fariam para enfrentar situações sem elhantes? Estavam desam parados, sem instituições sérias e especializadas que vendessem próteses para esses casos de invalidez.
Os deficientes físicos, de m aneira geral, podem conseguir cadeiras de rodas, m em bros m ecânicos, m am as de silicone, visando facilitar sua vida social e em ocional. E por que não fazer um a prótese penial flácida, im perm eável e lavável, sem ser necessariam ente para fins eróticos? Não é a própria sociedade que nos cobra coerência entre o aspecto físico e o gênero?
Nunca m e conform ei inteiram ente com m eu acessório. Com o uso, acabei tornando-o parte im prescindível de m im , porém j am ais integrado totalm ente. Incom odava-m e a dependência do seu uso e, sobretudo, a precariedade para sustentá-lo em m eu corpo.
Em bora o usasse continuam ente, até em casa, tirando só para tom ar banho, ainda assim perm anecia a incoerência: na hora de fazer am or com m inha m ulher, ele desaparecia m isteriosam ente.
Esse lapso m e causava um crescente m al-estar, com o se estivesse representando um a farsa.
Não tinha coragem de tocar no assunto e m uito m enos de usar um pênis ereto nas relações sexuais. A crise chegou a tal ponto que passei a evitar fazer am or com Am anda, apesar de desej á-la loucam ente.