Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 48 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 9

DIFÍCIL SER MACHO

 

Mude,

mas comece devagar,

porque a direção é mais importante

que a velocidade.

Clarice Lispector

 

Yuri aprendeu a andar de bicicleta, a nadar em linha reta e a assobiar. Conheceu o m etrô e estranhou que as paredes não fossem de terra. Aos cinco anos, sentiu a angústia da m orte: perguntou-m e se iria ficar velho porque não queria ir para o cem itério.

Naquele tem po não havia tantas norm as de segurança para andar de m oto. Foi um trem endo susto quando atravessei com ele a ponte Rio-Niterói. Sentado sobre o tanque, o vento forte em purrava o capacete dele para trás e quase o estrangulava com a correia no pescoço. Parei a m oto e o coloquei na garupa, im provisando um cinto de segurança e dizendo para ele m e abraçar bem forte. Na altura do vão central, senti seus bracinhos se afrouxarem . Tinha adorm ecido. Tentei acordá-lo, envolvendo-o com m eu braço esquerdo, m as não houve j eito. Dorm ia profundam ente. Vim bem devagarzinho, pelo canto, até o fim da ponte. Nesse dia, fiz Yuri decorar os núm eros de telefone da m inha casa e os da m ãe.

No Natal, com prei para ele um a luneta para ver o céu, um pôster com as constelações e uns óculos de natação. Ele achou estranho ganhar os presentes de Papai Noel sem nem ter escrito um a carta. Com o o velhinho sabia o endereço de todo m undo? Não resisti à dúvida naquele rostinho e fiz com o papai, que nunca nos confirm ou a existência de Papai Noel.

Aos seis anos, aprendeu a ler e escrever.

— Pai, o que é terrem oto, m arem oto e vulcão?

— Quando eu m orrer os verm es vão m e com er?

Tinha visto as pirâm ides do Egito na televisão e m e disse que lá enterravam os reis. Acabei fazendo um a assinatura da revista Ciência Hoje para Crianças, e líam os j untos vários artigos.

O difícil foi quando m e confessou que ficava vendo revistinha na biblioteca, durante o recreio, porque não gostava de futebol:

— Pai, m enino que não gosta de futebol é veado?

Falei que hom em não tem de gostar de futebol, nem m ulher gostar de boneca. Que ser coraj oso é poder dem onstrar afeto e dizer o que pensa. Falei do preconceito das pessoas em relação a quem tem opção sexual diferente. Mostrei a foto de um a am iga que tinha sido hom em . Ele olhou o retrato e a achou bonita. Pensei que era cedo para que ele com preendesse a m inha história. Queria que estivesse pronto e, quem sabe, pudesse se orgulhar dela.

Com o num passe de m ágica, Yuri veio m orar com igo por uns tem pos! Lola arranj ou um nam orado que a levou para viaj ar no Caribe. Meu filho continuava a m e surpreender todos os dias. Com eçou a aprender com putação e a saltar de cabeça da borda da piscina. Mais tarde, ensinei-lhe o salto m ortal. Pediu à m ãe, antes de viaj ar, para furar a orelha. Ela achou que ele era m uito pequeno e poderia se arrepender m ais tarde. Ainda eram poucos os m eninos que usavam brinco.

Fui buscar Marina, sua nam orada. Era filha de um a am iga nossa e estava há três anos m orando com o pai, em Cam pinas, que tinha se separado da m ãe. Durante os dois dias que passou em nossa casa, Yuri era só alegria. Riam , brincavam , e, a qualquer pretexto, ela am eaçava rom per a am izade. Rapidinho, ele cedia.

Confessou-m e que se beij aram na boca duas vezes durante a noite. No últim o dia, pediu-m e para tom arem banho j untos, j á que ela tinha concordado. Do lado de fora da porta, ouvi quando ele disse para ela que achava o seu peru pequeno. Ela respondeu:

— Peru de hom em de oito anos é desse tam anho m esm o!