Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 42 de 58

Páginas do PDF

Viagem Solitária

Capítulo 3

O GRANDE HERÓI

 

Tenho ciúme de quem não te conhece ainda

E, cedo ou tarde, te verá, pálida e linda,

Pela primeira vez!

Guilherm e de Alm eida

 

Ela acabava de chegar do trabalho. Eu estava na sala, que era o lugar m ais fresco da casa, tom ando um a cervej a. Morávam os j untos há três anos. De repente, Lola diz que não estava se sentindo bem , m eio enj oada, com ânsias de vôm ito. Num com entário inconsequente, com o um hom em m oderno, m aduro e liberal, disse:

— Parece até que você está grávida.

E ela, com a cara m ais natural do m undo, soltou:

— E talvez estej a.

Eu, que sem pre ri das traições alheias, levei um a rasteira daquelas. Antes de bater no chão, j á sabia que tinha m e estatelado todo. Apertei forte o copo na m ão. Com cara de pateta, certam ente, articulei a pergunta óbvia, para ganhar tem po:

— Você... está... grávida?

Só que nunca esse tem po é suficiente. Todo quebrado, não ousei sequer descruzar as pernas. Percebi, então, um a taquicardia galopante. Virei o resto do copo, para ver se aj udava a engolir o coração, que j á estava saindo pela boca.

Em bandeiradíssim o de fleum a, por choque, é claro, fiz então a segunda fatídica pergunta:

— E foi bom ?

A essas alturas, o arrependim ento era total.

E veio a facada:

— Foi ótim o! Mas não gozei, se é isso que quer saber.

Controladam ente pensei: “Cadela! Cínica! Filha da puta! Babaca! Babaca sou eu!”. E passei as m ãos pelo cabelo, com o querendo raspar os chifres latej antes.

Quanto m ais ela falava, m ais ia m e turbinando o ódio, eu querendo m atar o suj eito. Mas... Qual suj eito? Algum cara da rua? Do trabalho dela? Seu conhecido? Am igo? Não! Ela não teria coragem ... Agora, m ais do que nunca, era preciso saber com quem foi, com o se isso adiantasse algum a coisa.

Am orosam ente, disse que não ia contar, porque o cara não significou nada para ela. Insisti. Maternalm ente, disse que não queria m e dizer, porque só iria m e fragilizar. Em seguida, insinuou falar, com o para se livrar da culpa. Tem eroso entre a som bra e a luz, lem brei-a então do seu direito ao silêncio. Ela acatou. Apavorado de ficar para sem pre na escuridão, não resisti e acabei am eaçando-a de que não teria paz enquanto eu não soubesse.

Achando-se encurralada ou para term inar logo com aquilo, acabou contando.

— Sabe aquele workshop que fiz com a Rose, sua ex-aluna? Acabei transando com um cara sim pático de 20 anos, que conheci lá. Foi ótim o, porque estava precisando m e sentir um a m ulher com um .

E depois de um pequeno intervalo, continuou:

— Minha m enstruação está atrasada há dois m eses. Então tom ei um a inj eção de progesterona para tentar tirá-lo. Se fosse seu, talvez ficasse...

Levei a terceira bofetada. Pior, pedida m ais um a vez por m im . Despenquei para o fundo do poço. Não para pegar im pulso, m as para m orrer m esm o. Mas, enquanto não m orria, usei a m orbidez com o calm a aparente, para saber m ais detalhes do “quando”, do “onde” e até receber as punhaladas do “com o”.

Diante da m inha m udez, desconfiou que tivesse falado dem ais.

Foi nesse m om ento, quando nenhum ruído externo era m ais audível, a não ser o ressoar da m inha própria dor, que ela quis m e consolar. Tentou m e provar que fui, enfim , “o grande herói”, o hom em que adm irava e o que m ais lucrou com tudo isso. O outro foi só tesão de m om ento.

Eu, o fragilzinho m arido inseguro, m achista e traído. Eu, o cam peão da m erda, que nem sabia estar concorrendo. Catei os restos que m e sobraram , peguei a prim eira cam isa que vi e saí procurando ar, esm urrando o m undo, babando fracasso, esm olando com preensão. Tentando perdoar o que, no fundo, sabia que não era nem m esm o para ser condenado.