Viagem Solitária
Capítulo 6
TENTANDO SER MULHER
... Baste, sim, baste! Sou eu mesmo,
O trocado, o emissário sem carta nem credenciais,
o palhaço sem riso, o bobo com o grande
fato de outro,
... sou eu mesmo, a charada sincopada
que ninguém da roda decifra nos serões
de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ...
Álvaro de Cam pos
Quando entrei na adolescência, ainda não existia sequer o conceito de transexualism o. Eu m e sentia um hom em , com um físico inexpressivo, que não convencia ninguém . Eu não m e via de form a algum a com o hom ossexual, em bora os outros assim o fizessem . Desconhecia outra “categoria” na qual pudesse m e enquadrar e tam pouco sabia de pessoas iguais a m im . Sentindo-m e um fenôm eno único e sem o am paro de explicações, travava um a batalha tenaz contra a m arginalização.
Mais tarde aprendi que a sociedade, em sua em pedernida e bem traçada m oral, não criticava um m arginal se tivesse dinheiro ou nível intelectual. Am bas as situações eram dignas de respeito. Sua condição m udava até de nom e: passava a ser “excêntrico”. Com o a prim eira alternativa era difícil de obter, resolvi firm em ente m e dedicar à segunda. Não im portava se existia ou não vocação. Era um a questão de sobreviver com m enos angústia. Precisava deixar de ser visto som ente pelo prism a do estigm a.
No m eu processo de socialização, vej o-m e com o tendo passado por duas fases nítidas. Na prim eira, aprendi e incorporei o ponto de vista dos indivíduos “norm ais”, introj etando os valores sociais e a ideia geral de que possuía um estigm a, que não sabia bem qual era. Na segunda, que defino com o a “tom ada da cicuta”, aprendi que possuía um estigm a bem particular e, dessa vez, soube, m inuciosam ente, das consequências de tê-lo em m im .
Alcancei um estágio em que não podia m ais m e om itir diante da m inha identidade de gênero. O desaj eitado não era m ais o engraçadinho. Meu com portam ento não era m ais o de um a m enininha esperta que parecia um m oleque. Agora, tom ava outro nom e. E vim a conhecê-lo por acaso, aos 16 anos, na escada do colégio em que estudava. Um a colega veio m e contar que as outras m eninas viviam com entando a m eu respeito, apostando entre elas que eu era “paraíba”. Não entendi direito o significado. Mas, quando m e explicou, espantei-m e! É com o quando se tem a fam a de ser um fam oso crim inoso, que todos sabem o nom e, em bora j am ais tenha m atado alguém . Assistia a todas as aulas, agia norm alm ente com o qualquer outro aluno. Nunca abordara ninguém , nem deixara transparecer algum interesse m aior por garotas, e, no entanto... Todos j á m e pichavam .
As pressões fam iliares e sociais iam pouco a pouco aum entando. A fam ília tentava, de um a form a ou de outra, m ostrar-m e os aspectos m ais positivos e m otivantes da condição de ser m ulher, elogiando-m e tanto pelas feições do rosto com o pela boa altura. Diziam que, se eu quisesse, poderia ser um a m ulher extrem am ente bonita e interessante. Bastava “querer” e m e arrum ar um pouco.
O esporte estava em via de ser abandonado em prol dos estudos. O que m e restava agora era m uito pouco: j ogar xadrez, ler e escrever poem as, ouvir m úsica com um grupo de am igos de Leila, m inha segunda irm ã, e m ais alguns poucos entretenim entos.
Leila era um a pessoa incrível! Tinha a audácia do vento no pano das velas. Sua suavidade fazia com que m e em brulhasse nela com o num capote no frio. Por ser m ais velha, exercia um a autoridade que m isteriosam ente era aceita por m im e por Van. Talvez um a com pensação m aterna não resolvida, talvez a pressa em crescer e desabrochar com o um a m ulher bonita, que ainda não descobrira. Em bora tivesse apenas três anos a m ais do que eu, sua influência foi decisiva para m e persuadir na tentativa de ser m ulher.
Leila era em pática por excelência. Absorvia com tam anha intensidade qualquer problem a dentro da fam ília que se tornava incapaz de ter um a visão crítica. Apesar de gostar de questionar o estabelecido e o convencional, sentia-se m uito am eaçada quando isso envolvia seus parentes. Acredito que tam bém nunca tenha querido ver realm ente o m eu problem a. Porém , na enxurrada de carinho com que m e banhava, ia m e subm etendo às suas vontades. Induziu-m e a despertar para este novo m undo, o de ser m ulher... Pela pouca visão do que isso significava inteiram ente, ávido por elogios e carente de am or, iniciei a experiência do travestism o.
O reconhecim ento sociofam iliar foi im ediato. A sensação de alívio e felicidade no rosto dos parentes chegava a m e incom odar. Enalteciam -m e exageradam ente. Eram gentis, em prestando-m e ou dando-m e seus adereços, fossem m aquiagem , roupas ou j oias. Não gastava um tostão. Tudo era fácil. Bastava m anifestar vontade de ter e ganhava: estoj o de som bras, batom , sapatos altos, vestidos, o diabo.
Em bora não sentisse m ais m edo de que m e descobrissem , porque a vestim enta atual estava toda a favor e coerente com m eu corpo, continuava m e sentindo esquisito naqueles traj es. Não havia m ais olhares perscrutadores, m as, em com pensação, com eçou a surgir um a nova classe: a dos paqueradores!
O m elhor, ou o pior, é que agradava. Era um a m ulher que diziam ter um a personalidade m arcante. Sabia m e expressar com desenvoltura e não apresentava as inibições com uns às m ulheres. O term o “m asculinizada” foi substituído pelo de “exótica”.
Com ecei a frequentar com Suzana e um a am iga sua os “discos dançantes” do Clube Flum inense, próxim o à m inha casa, sem nunca ter trocado dois passos de dança.
Descobri que, para m e divertir e vivenciar as em oções que todos experim entavam , teria, realm ente, de ceder à representação. Seria a condição básica para o lazer social aplaudido.
O alvoroço era grande na entrada do clube. Penetrávam os no salão e sentávam os num a m esa sob os olhares convidativos dos rapazes. As m oças, em exposição, com o num harém , aguardavam passivam ente a solicitação do sultão, esperando a oportunidade de dizer sim ou não ao cavalheiro que se aproxim asse. Era um ritual que, sem dúvida algum a, se conservava fiel à tradição dos grandes bailes dos séculos passados.
Meus olhos sorviam o m aior núm ero de detalhes que podiam aguentar. Era tudo tão novo, tão colorido! As luzes acendendo e apagando. Aquela pista redonda e enorm e no m eio do salão, cheia de cadeiras em volta, lem brava um a arena de circo, porém m ais sofisticada e luxuosa. No lustre central que descia portentoso do teto, com m ais de quatro m etros de fio, contei 58 lâm padas. Todos estavam bem -vestidos, com gestos com edidos e sorrisos fabricados. Eles sabiam que interpretavam a representação de um grande baile. A consciência de que nada era natural não com prom etia a graça do j ogo. Essa parecia estar, j ustam ente, naquela atm osfera lúdica. Resolvi entrar na brincadeira.
— A senhorita quer dançar?
Tive vontade de rir, m as a com édia não perm itia. Equilibrando-m e, fui até o m eio da pista. Acabei despencando do salto em prestado, que botava pela prim eira vez. Aj eitei-m e novam ente. O rapaz passou o braço pela m inha cintura. Que sensação estranha! Sem pre sonhara estar fazendo aquilo com um a m oça, e, no entanto...
Mal a m úsica com eçou, pisei no pé do parceiro. Avisei-o logo que não era m uito bom naquilo. Observava o seu j eito de m e conduzir. Conversei m uito, o que colocou o ritm o em segundo plano, obtendo, então, algum sucesso.
Enfrentava as cantadas com facilidade e bom hum or. A princípio, ficava com pena do j ovem e até da sua dificuldade em pedir m eu telefone. Sem a m ínim a cerim ônia ou acanham ento, descartava-m e daquele aperto. No fundo, achava tudo um a gozação! Um a vez, aconselhei um rapaz a que fosse cantar um a m ulher bem interessante, que estava encostada na porta do saguão. Só não disse que desej ava que ele fizesse aquilo por m im .
Aos poucos fui m e cansando daquele teatro. Sentia-m e insatisfeito. Cada vez m ais ficava evidente que esse reconhecim ento não era o que necessitava. Só m e afastava m ais dos m eus autênticos anseios existenciais.
Um dos m otivos que atribuo ao fato de m e ter subm etido a um a vida de m ulher foi a necessidade dos sím bolos de prestígio, antagônicos aos de estigm a. Decorreu daí a m inha conduta desidentificadora, que tendia, real ou ilusoriam ente, a quebrar a m inha im agem . A finalidade era levantar dúvidas sobre a validade da m inha identidade virtual.
Esse problem a do encobrim ento suscitava um alto nível de ansiedade. Am eaçava constantem ente a m inha vida de um colapso. Precisava estar atento a aspectos da situação social que, geralm ente, os indivíduos tratam com o não com putados ou inesperados ou nem m esm o chegam a ser problem a para eles. Aquilo que para um “norm al” seria um ato rotineiro para m im poderia ser um caso de vida ou m orte. Um sério problem a de m anipulação, que nem sem pre dá para ser tratado pela experiência anterior, pois surgem contingências novas, que tornam inoperantes os artifícios de ocultam ento passado.
No m eu caso, desidentificava-m e com o hom em na m edida em que m e vestia de m ulher. Ao m esm o tem po, um pequeno detalhe que escapasse poderia ser suficiente para não convencer as pessoas do que era e botar tudo a perder.
Vivenciei m ais de perto a am eaça de colapso quando o m ecanism o se inverteu, ao abandonar esse curioso m undo fem inino e viver um a dupla identidade social. Mantinha ao m esm o tem po duas vidas: a de hom em e a de m ulher. O táxi foi o veículo que m e perm itiu viver esse processo enlouquecedor.
Aos 16 anos, arranj aram -m e um nam orado. Foi um a com binação, sem que eu soubesse, entre Leila e um am igo do rapaz. Conhecia-o dos concertos de m úsica clássica do Theatro Municipal e da sala Cecília Meireles. Era gordo, m eio careca e m uito sim pático. Um baiano de 25 anos, cultura relativa e sensibilidade apurada. Saím os algum as vezes. O m eu papel de nam orada era sui generis. Felizm ente não ostentava nenhum a espécie de m achism o, o que m e seria im possível suportar. Gostava de m im , do m eu j eito despachado, sem m e exigir m uitos papéis, possibilitando que perm anecêssem os j untos por um m ês, até que resolveu m e beij ar.
Dizem que as pessoas tendem a esquecer os traum as, por defesa do ego. Creio que os preservei ao m áxim o na m em ória, a fim de evitar que outros se repetissem .
Estávam os conversando num banco de bonde, abandonado na areia da lagoa Rodrigo de Freitas. Inesperadam ente, parou de falar. Ficou sério e engoliu m inha boca. Que sensação horrível! Senti repugnância e um sufoco intenso. Afastei-o bruscam ente. O insuportável não era som ente o fato de ser um hom em , o que tornava tudo m ais difícil, m as o de não haver nenhum a atração física ou afetiva m ais profunda entre nós. O j ovem fez tudo para continuarm os, m as a im praticabilidade de nosso nam oro era patente.
Durante a transação, a fam ília exultou. Davam -m e todas as regalias. Não m e cobravam hora para chegar, nem satisfação de para onde tinha ido. Ficaram desiludidos ao saber que tudo term inara.
Trinta anos depois m e encontrei com ele num a festa. Eu, agora careca e barbado, e ele, apenas m ais gordo e envelhecido. Estava desacom panhado. Tinha certeza de que não m e reconheceria e, portanto, estava num a situação única: de poder saber do m eu passado enquanto Joana, sem ser ela que falava. Não resisti e sentei-m e ao seu lado. Dei a entender que nós j á nos conhecíam os e que era m uito am igo da Joana. Perguntei sobre a relação dos dois. Falou-m e que eu era um a garota sim pática, extrovertida e m uito legal. Chegou m esm o a dizer que se apaixonara por m im ! Ficou curioso por tantas perguntas e por conhecer detalhes íntim os da sua relação com Joana. Levantei-m e e fui beber m ais um as doses, guardando o desfecho para o fim da festa. Pouco antes de m e retirar, fui procurá-lo. Dessa vez, determ inado a contar-lhe a verdade. Trocam os m ais algum as ideias, até que lhe pedi:
— Olhe bem para os m eus olhos. Tem certeza de que não se lem bra de m im ?
Titubeou.
— Tem algo de fam iliar, m as não consigo m e lem brar.
Diante dessa resposta, disparei:
— Faz 30 anos que não nos vem os. Depois disso, sofri várias cirurgias. Dei um a guinada de 180º e agora sou um hom em . Eu era a Joana.
Engasgou-se com a bebida. Com eçou a tossir, ficando rubro. Bati nas suas costas para voltar a respirar direito. Ficou calado m e olhando e com um a respiração ofegante. Finalm ente, falou:
— Joana? – aproxim ou-se m ais dos m eus olhos. — É, agora estou te reconhecendo... Você m udou m uito...
Levantei-m e e m e despedi, deixando-o pensativo.
O recado j á estava dado.
Continuei nas m inhas crises de solidão. Agora m ais frequentes. Principalm ente, quando se abria um a brecha na ilusão, e o real m e abarcava por inteiro, derrubando-m e num a prostração. Com o um catatônico, crispava os dedos, enrij ecia o corpo, fechava os olhos, num a recusa ao existente. E, ao abri-los novam ente, constatava o que tem ia: nada havia m udado.
Um dos últim os recursos que tentei foi o de desenvolver a m ente. Praticava alguns exercícios de m editação, para aum entar a capacidade de concentração e de autocontrole. O ponto m ais avançado a que cheguei foi o de conseguir fazer com que o m eu dedão do pé form igasse. Mudar m eu corpo, que era o m aior obj etivo, nunca foi possível.
Minha segunda tentativa de nam orar rapazes deu-se por acaso. Estava sozinho num bar, tom ando um a cervej a, quando um j ovem perguntou se podia se sentar à m inha m esa. Movido pela curiosidade do encontro, deixei que se acom odasse. Era um estudante de Medicina que fazia política estudantil. Preocupado m ais em falar do que em ouvir, ele foi m e contando a sua história. Tinha um riso bonito e sabia tirar dos fatos o que neles havia de interessante e côm ico. Ri m uito do seu j eito, e acabam os nos tornando am igos. Morava perto da m inha casa, e passam os a nos ver com frequência. Dividia seu apartam ento com m ais dois colegas. Ficávam os cantando e tocando violão, outra habilidade que desenvolvi para ser m ais aceito pela galera. Com ecei a sentir necessidade de estar cada vez m ais ao seu lado. Apesar de nunca lhe ter falado do m eu sofrim ento, parecia se conduzir de acordo. Não havia de sua parte qualquer aproveitam ento da situação no sentido sexual. Falava-m e de suas antigas nam oradas, e eu achava graça das suas aventuras am orosas. Ele estranhava com o conseguia contar a um a m ulher – nas suas palavras – essas histórias com tanta naturalidade. Nosso relacionam ento foi se tornando m ais intenso e íntim o.
O insucesso da últim a experiência am orosa não m e im pediu de tentar novam ente. Pelo grande entendim ento e pela falta de exigências entre nós, foi m e deixando inteiram ente à vontade. Tínham os estritam ente um trato de igual para igual. Era carinhoso e com eçou a ficar excitante.
Nenhum a predisposição negativa havia em relação ao sexo m asculino a ponto de repudiá-lo. Virgem de contatos, qualquer corpo que m e tocasse com carinho seria bem -aceito. Certa vez fom os ao cinem a, e eu consegui a proeza de, só apertando nossas m ãos, atingir o orgasm o. Entretanto, nossa intim idade sexual não ultrapassava certo lim ite. Chegam os a ficar abraçados nus, num dia em que havia bebido dem ais. Foi gostoso e excitante. Geralm ente, a iniciativa do contato era m inha. Mas, quando o via nu, havia um m isto de curiosidade para conhecer em detalhes um corpo m asculino e, ao m esm o tem po, invej ava-o por ter tudo o que eu não tinha. Sentia-m e m al. Algum as vezes, tentei repetir essa experiência, m as, apesar da sua docilidade, a sensação de m al-estar persistia.
Nunca consum ei o ato com nenhum hom em .
À m edida que a novidade foi acabando, a vontade do contato corporal foi dim inuindo. E quando tentou enaltecer m inhas partes fem ininas, um grande abism o se abriu entre nós.
Conversávam os m uito, m as j am ais cheguei a lhe contar o que sentia. Seria difícil para qualquer um entender, e não queria m agoá-lo. Nosso caso durou dez m eses, quando ele j á falava em casam ento e filhos.
Aos 17 anos, deu-se a “segunda tom ada da cicuta”. Denom inei-a assim , porque foi quando m e conscientizei de que havia gastado todos os m eus recursos infrutiferam ente. As crises existenciais iam gradativam ente aum entando em frequência e intensidade. Até então, fora conduzido, levado pelas circunstâncias, sem questionar m uito. Em bora sentisse algo errado, não m e aprofundava em grandes raciocínios.
Quase todas as noites, sonhava com cenas sexualizadas, onde tinha um enorm e pênis e podia fazer tudo o que, acordado, não m e era possível. Os sonhos eram tão nítidos que, geralm ente, ao despertar, ainda m e deliciava com a inebriante sensação de estar ej aculando. Chegava a levar a m ão à genitália, ainda ao sabor da sonolência. Mas, ao verificar a cruel e inerte realidade, levantava-m e arrasado. Faltava m uita coisa!
Quando não conseguia criar m otivações durante o dia e algo m e entristecia, logo esse m otivo se tornava secundário, e a m inha situação ganhava o prim eiro plano na depressão. Com o um a m áquina que não para, necessitava estar sem pre ativo, entretido com algo, para não viver o dram a tão intensam ente. Parado, facilitava que fantasias catastróficas brotassem facilm ente, vestindo-m e então com o m anto da autocom iseração. Movido por um conturbado e am bíguo sentim ento de autodestruição, com a necessidade de reagir ao reflexo do m eu corpo desnudava-m e diante do espelho. Algo m e dizia que precisava ir ao fundo do poço, sem esquivas. Não tem er nem a m inha própria voz. Lúcido da m inha insatisfação, com o um alter ego, abria um diálogo entre m im e aquela im agem no espelho, num a provocação im piedosa.
— Seu castrado! – gritava, contorcendo-m e todo. Ninguém m elhor do que eu para poder dizer do doído que sentia, sem escam oteações. Precisava m e enfrentar. Ver-m e nu, com os defeitos ali expostos, sem escudos para conseguir com bater a pusilanim idade que m e tom ava por com pleto. — Vai, continue fantasiando, tapeando a si próprio por m igalhas de aplausos. Jam ais será um a m ulher com o as outras! Casar seria um a solução fácil. Todos seriam cordatos, com preensivos, tentariam aj udá-lo. Fariam tudo para conseguir realizar e m anter esse m atrim ônio. E suportaria ser um a fêm ea ardente? Teria orgulho de dizer que tinha um hom em que a com eria todas as noites? O que é que há? Tá trem endo? Mas é isso m esm o que você tem de ouvir! Sua farsante... Onde m eteria a sua invej a, o desej o de ser o próprio hom em que viveria a seu lado? Cada vez que ele quisesse um filho, o odiaria por querer torná-la m ãe!
Quando dei por m im , as m ãos tapavam os ouvidos. Ainda não suportava sequer o peso das m inhas próprias palavras.
O que m ais tarde Darcy Ribeiro m e ensinaria.
— Vam os, destape-os! Abra-os m ais! Ouça tudo, tudo! Olhe bem para o seu corpo. Culote nas pernas, dois peitos, peitos m esm o, que poderiam ter sido aproveitados para ser um saco... Cadê o pau? Macho de m erda! Não está vendo que não adianta nada continuar lutando contra o im possível? Você será sem pre o derrotado! Para quê? Só vai bancar o trouxa a vida inteira! O palhaço de quem todos rirão. Essa m ulher diz que é hom em ... Nem palhaço, é palhaça! Será sem pre um a palhaça! Pensou em suicídio? Um j eito de se livrar deste sofrim ento? Vam os, diga em voz alta, sua babaca, o visgo que tem pela vida: “Meus pais chorarão”, não é isso que está pensando? Fica m ais estúpido ainda ter rem orso antecipado! De que adianta saber-se am ado depois de m orto? O que te segura é que, no fundo, ainda tem esperança de que as coisas m udem .
Parei de falar. Chorava tanto que os olhos, em baçados, não viam nem m ais a im agem no espelho. Percebi, subitam ente, que o fundo do poço não estava na m orte, m as na vida. Na m inha vida. Sentei-m e no chão. Os om bros caíram . O tronco tom bou para a frente. Senti os peitos roçarem na barriga. Mergulhei a cara nas m ãos, lam buzando-m e num choro convulsivo.
Não sei quanto tem po fiquei nessa posição. Quando m e estiquei, estava todo dolorido. Com o um autôm ato, levantei-m e e botei a roupa. Senti que ainda faltava algum a coisa. Tornei ao espelho. Precisava ver. Ver não m ais o que tinham m e dado sem eu querer, m as o que esses anos todos tinham feito com igo. Olhei m eu rosto. Cheguei m ais perto. Fixei os olhos: verm elhos, baixos e fracos. Não poderia term inar ali. Segurei firm e a porta do arm ário. De tão perto, fiz bafo no espelho quando falei:
— É isso o que eles querem ! Você derrotado, um trapo! Quem sabe daqui a uns tem pos, louco. Não há Deus, não há m ais consolo na ilusão. Não há m ais nada. Na verdade, nem solução. Daqui a pouco baterão à porta. Você abrirá. Mas não só esta m aldita porta do seu quarto – terá de m ostrar sua força. Irá com er, dorm ir, estudar e falará com todos, com o sem pre fez. Nada vai m udar. Mas, a partir de hoj e, terá de se transform ar num leão, para que ninguém possa derrubá-lo. Sua luta é contra o im possível ou a im potência: portanto, tenha claro que será sem pre um perdedor. Virar hom em , com o você quer, não dá. Mas não se deixará m orrer assim . Tem de ficar vivo, sadio, para poder usufruir os benefícios que a evolução da ciência lhe poderá proporcionar. Enquanto esse dia não chegar, poupe-se! Brinque com o seu defeito, com a sua inversão. Fale dele em voz alta. Desfaça o m onstro! Quando o dram a estiver insuportável, torne-se subitam ente a plateia, para se ver atuando no palco. Verá a com édia que todo dram a contém , com o agora, e se fortalecerá. Não adianta m ais ter ódio nem pena de si m esm o. Sobretudo, é preciso ter hum or. Procure a essência do absurdo. Mas não se torne um alienado, antes, um inconform ado. Se, num dado m om ento, a dor for insuportável, não racionalize a fim de obter a pseudotranquilidade. Consum a-se sem defesa até o fim . Esprem a a dor e respire fundo.
Sem saber com o, eu m esm o tinha m e dito o que tanto precisava ouvir.
Bateram à porta.