Viagem Solitária
Capítulo 10
DE PEITO NU
Não se pode simular coragem,
é uma virtude que escapa à hipocrisia.
Napoleão
O fato de Mercedes m e tratar cada vez m ais com o seu m arido dava-m e segurança para m e expandir sexualm ente. No calor, costum ava tirar a cam isa dentro de casa, sem sentir m inha figura m asculina com prom etida. Porém , o m esm o não acontecia quando se tratava das calças. Tirar as cuecas tranquilam ente, j am ais consegui. Entretanto, um acontecim ento contribuiu para essa m inha abertura.
O nam orado de Leila, que era m édico e acabava de se especializar em cirurgia plástica, havia m e sugerido fazer um a operação de m am a, a fim de em belezar m eus seios. Não eram propriam ente grandes, m as caídos e flácidos. Aceitei a proposta, em bora o que m enos m e interessasse fosse torná-los eretos e rij os, m as lhe exigi um a condição: que os dim inuísse o m áxim o possível. Após alguns dias, quando pude ver os resultados, fiquei alegre por estarem m enores e, de certa form a, m utilados pelas suturas. Porém , por não ter alcançado inteiram ente o que m ais queria – a retirada total –, relaxei quanto às recom endações feitas. Antes de receber alta, voltei a fazer ginástica e a com eter im prudências, com prom etendo o resultado. Vários pontos arrebentaram e inflam aram . O tecido esgarçou, e a largura da cicatriz aum entou. Passados dois anos da prim eira cirurgia, creio que, por vaidade profissional, aconselhou-m e a fazer outra plástica, dessa vez com a finalidade de retoque, para um a m elhor apreciação estética. Achei a ideia ótim a. Resolvi que dessa vez não iria lhe ocultar m eus verdadeiros m otivos.
— Fernando, desej o m esm o é que tire tudo. Não lhe falei da outra vez, porque talvez não entendesse. Mas nestes dois anos nos conhecem os m elhor, e, com o se m ostrou am igo, achei que seria honesto contar m inha verdadeira intenção.
— Mas, Joana, não posso fazer o que está m e pedindo! – exclam ou m eio surpreso, só então entendendo m inha antiga reação pós-cirúrgica. — Existe um a coisa cham ada ética m édica. Mesm o que satisfizesse o seu desej o, quem m e garantiria que não iria se arrepender depois? Além dos problem as sociais e fam iliares que eu poderia provocar!
Esse “arrepender” m e revelou que, realm ente, ainda não m e conhecia. Não tinha percebido m eu desespero. Notei então que, diante dessa confissão, j á estava desistindo da proposta inicial.
— Olha, Fernando, qualquer coisa que tire, até um pedaço de pelanca que possa aj udar a dim inuir, será ótim o. Quero a cirurgia, m esm o que continue com peito. Prom eto m e com portar bem desta vez, para não com prom eter sua reputação profissional.
A operação seria novam ente gratuita, pois o anestesista era tam bém m eu conhecido, e o hospital, do Estado. Fiz todos os exam es necessários e m e internei num a enferm aria de m ulheres. Felizm ente, fui operado logo no dia seguinte. Os com entários a m eu respeito j á tinham chegado ao andar de baixo. O am biente do hospital m e deprim iu. Vi pessoas sofrendo, gem endo, angustiadas por um a visita. A m aioria era de senhoras idosas com doenças ginecológicas, que ficavam discutindo seus casos e m e colocando em pé de igualdade para com preendê-las.
Fernando foi correto e cum priu o prom etido. Por sorte, os seios ficaram praticam ente insensíveis, devido aos traum as cirúrgicos, e m enores, em bora enorm es ainda para o m eu protótipo ideal. Sentia-m e um ginecom asto, porém que saída? Meu pensam ento continuava a ser o de tirar tudo, m as agora estava m elhor do que antes. Em bora isso não m e alegrasse, tinha de ser o suficiente para, pelo m enos, não m e deprim ir.
Por m ais que tentasse ignorá-los, m eus seios estavam basicam ente presentes em três situações: no acesso social, por não poder vestir roupas j ustas a não ser que usasse faixas; quando deitava de lado, pois na cam a de barriga para cim a, ainda ficavam achatados, m as de lado eram -m e insuportáveis! Faziam um a prega no m eio, um tom bava por cim a do outro, dando a im pressão de serem m aiores e até provocando certo sensualism o fem inino que m e horrorizava. A terceira, quando m e olhava no espelho, analisando as m udanças do m eu físico ao longo dos anos. Não buscava sinais de velhice ou m aturidade, m as os possíveis efeitos da ginástica para com bater os caracteres sexuais secundários, causados pelos horm ônios fem ininos que m eu próprio corpo fabricava. Algum as vezes, cheguei a puxar os seios para debaixo dos braços, num a tentativa de esticar a pele do tórax e visualizar com o ficaria sem eles. Mas ao soltar os cotovelos que os m antinham na pressão... Era com o se, além de não m e terem dado um pênis, ainda m e colassem esses dois pedúnculos, desafiando m eu equilíbrio m ental. Pensei se iria m orrer assim . Lem brei-m e dos m eus 17 anos, quando dissera que precisava ser um leão para não ser devorado. Poderia m e isolar, m e abster tam bém do prazer sexual. Mas não era esse m esm o o obj etivo da sociedade? Recusei-m e à loucura. Não m e deixaria sufocar por com plexos e atrofias a ponto de ter de pedir perdão por existir!
Quando m e interrogava sobre “quem ” teria feito isso com igo, não atribuía culpa a nenhum a entidade sobrenatural. Pensava que o acaso tam bém tem descuidos... Um bode expiatório m e fazia falta. A obrigatoriedade de ter de assum ir m eus atos, sem acreditar em destino ou fatalidade, a falta da bengala sagrada, dava-m e um sentim ento de desam paro. Ao m esm o tem po, evidenciava m inha própria força. A falta de um deus não m e deixava descuidar.
Quando pequeno, diziam que carregava o pecado m ortal por não ter sido batizado, e sem entender vivia um m edo-m istério. Com oito anos, perguntei à m am ãe:
— Por que as pessoas vão à igrej a aos dom ingos?
Surpresa, parou a correção das provas.
— Ora, vão para ouvir do padre que devem ser boas.
Diante dessa explicação, só tive um a conclusão:
— Mas, m ãe, será que são tão m ás assim que necessitam ouvir toda sem ana a m esm a coisa?
No m eu aniversário, Mercedes m e com unicou que havia um presente para m im na garagem do prédio. Desci correndo as escadas.
Era um a m oto de 50 cilindradas, azul m etálico! Não conseguia acreditar! Contou-m e que havia com prado à prestação, de segunda m ão e que não estava m uito rodada.
Exultei! Só fazia abraçar e beij ar ela e a m oto. Foi o m elhor presente que havia ganhado até então! E que m udou m inha vida. Até hoj e, aos 61 anos, tenho m oto.
Minha irm ã m ais velha tinha se m udado com a fam ília para a Europa para fazer um curso de pós-graduação. Deixou, tem porariam ente, seu apartam ento conosco. Assim , nosso orçam ento m elhorou m uito.
Minha expansão sexual não se restringiu apenas ao fato de andar de peito nu dentro de casa. O fortalecim ento da autoim agem m e proporcionou um a reintegração m aior com todo o m eu corpo. Com o tem po, deixei Mercedes tocar nos m eus genitais, m as só se fosse com um trato m asculino. Fui desenvolvendo com portam entos adaptativos para suprir as deficiências com o m acho. Notei que, na hora do coito, a m inha m ão esquerda adquiria um form ato e um a m aleabilidade específicos, com o se fosse um pênis. O interessante é que nunca variei de m ão. Só m ais tarde fui atentar para esse detalhe. Creio que, pelo fato de ser destro, a canhota m e era m ais suave, com a pele m ais fina e m enos exposta a acidentes. Por ter m ais força na direita, esta servia para m e apoiar na cam a, resultando num equilíbrio m aior.
Conseguim os desenvolver um a técnica que nos perm itia ter satisfação conj unta. Mas o que desej ava era poder fazer am or, abraçando Mercedes com as duas m ãos! Senti-la em m il posições diferentes, se tivesse os m em bros superiores livres! O peculiar é que, norm alm ente, os indivíduos têm um a tendência a proteger seus genitais em qualquer eventualidade em que possam correr risco de dano ou perda. Essa m esm a preocupação se apresentava em relação à m inha m ão esquerda. Danificá-la significaria entrar em abstinência sexual. Um a vez tentei usar a m ão direita, m as foi um fracasso! Era dura, desaj eitada, deslocada, sem m e proporcionar qualquer prazer. Antes de penetrá-la, um edecia m eus “dedos peniais” no m eu pseudoesperm a, com o um a form a de colocar algo m eu dentro dela. Dava-m e um a m aior sensação de aproxim ação.
Sem o lúdico, não podia haver sexo. Não duvidava m ais de com o ela m e via. Restava saber se m e queria m esm o assim , com o um hom em m utilado. O rum o da m inha insegurança aum entou quando Mercedes com eçou a se m ostrar esquiva.
A fantasia para iludir a dor do real no coito m e preocupava. Prim eiro, fazia-m e correr o risco de, repentinam ente, ver a m ágica acabar por qualquer m otivo ou se tornar insuficiente, deixando-m e exposto. Essa ideia m e apavorava. Depois, queria que tudo fosse natural com o com qualquer pessoa. Ter de fantasiar no ato do am or m e deprim ia. E, por fim , havia o perigo de levar Mercedes a um a grande confusão: na cam a, eu era visto com o um hom em ; na rua, um m eio-term o e, no trabalho ou em lugares frequentados por conhecidos, com o m ulher.
O retraim ento sexual de Mercedes foi abordado por m im , num a conversa trabalhosa. Mostrava-se na defensiva e com dificuldade de expressão. A certa altura, notei um a lacuna na nossa com unicação. Senti que era ali que deveria estar localizada a ferida. Em vez de atacar em cheio o ponto capital, procurei ser com preensivo:
— Não se sinta obrigada a m e contar. Tente m e dizer o que acha que aconteceria se m e revelasse.
Minha intenção era de que percebesse que a catástrofe não passava de m era fantasia. O fato real ainda não tinha sequer acontecido, e j á estava reagindo aprioristicam ente, não m e dando opção de escolha.
— Se falar, vai ficar chocado. Talvez até term ine tudo com igo. É um a descoberta recente, que vim a fazer conversando outro dia com Pilar, que tem o m esm o problem a.
— Quer dizer que tem m edo de m e perder por isso? Será que é algo assim tão terrível? – com ecei a dizer as piores coisas, para m inim izar seu problem a. — Ah, você está apaixonada por outro?
Riu, balançando a cabeça negativam ente.
— Então m e acha um chato, m as casou com igo só pelo dinheiro?
— Não é nada disso. Não brinque. É m uito sério.
— Então pode falar, porque só por esses dois m otivos é que a deixaria. Não pode haver nada m ais escabroso.
Mas havia. E quando m e disse, em bora ficasse im passível, m orri por dentro.
— Jô... – esse era o apelido que m e dera, evitando deixar claro, em público, se m eu nom e era Joana ou João, e que acabou virando um tratam ento carinhoso. — Acho que nunca cheguei ao orgasm o. Excito-m e m uito, m as não sinto a m esm a sensação de quando m e m asturbava. Achava que deveria ser assim m esm o até que, falando com Pilar, vi que, realm ente, não chegava ao ponto m áxim o. É com o se, de súbito, o processo de excitam ento se esvaziasse sem ter chegado ao auge.
Deve ser pela m inha deficiência, pensei im ediatam ente.
Quando com eçou a se j ustificar, detive-a:
— Não precisa se explicar. Um a relação é sem pre a dois. Quando um a das partes não funciona bem , a outra tem igual responsabilidade. Portanto, deixe tudo com igo. Garanto que não estou acertando para lhe dar o prazer total. É im portante que fique relaxada.
Confesso que m inha presença de espírito no m om ento m e surpreendeu. Fiquei, porém , tão arrasado que não m e concentrei em m ais nada no resto da sem ana. Insistentem ente, a frase voltava a m artelar na m inha cabeça: “Nunca cheguei ao orgasm o”.
Passei algum as noites sem dorm ir, atribuindo a causa do problem a à falta de um pênis de verdade. Ela m e disse que m ulher não a atraía, o que m e dava grande alívio. Mas, ao m esm o tem po, m e sentia angustiado por ter m e esm erado ao m áxim o para suprir a falta e, agora, constatar que ainda não era o bastante. Cheguei a tal grau de preocupação que Mercedes passou a ser m ais im portante, no ato sexual, do que eu. Contribuía tam bém o fato de eu ter um a excitação fácil, obtendo o orgasm o rapidam ente, contrastando com certa dem ora de sua parte. Eu via o fato com o sendo peculiar da nossa cultura. A m ulher sem pre tem m ais dificuldade e suscetibilidade aos m aneirism os sexuais, e o hom em , m enos com plicado, é m ais direto nessas questões. As j ustificativas relacionadas com as diferenças de constituição entre a m ulher e o hom em m e pareciam pouco convincentes, na m edida em que eu era a prova cabal desse m ito social.
Não tentei fazer sexo com ela por algum tem po, até irm os a um a festa na casa de am igos. Bebeu a quantidade certa para ficar naquele estado em que o superego deixa de ser o chefe suprem o. As circunstâncias nos favoreciam . Tudo correu às m il m aravilhas. Ao fim , felicíssim a, beij ou-m e e afirm ou que conseguira.
Fiquei sem saber direito o que pensar. Estava confuso, pois Mercedes se com portou com o sem pre. Talvez um pouco m ais efusiva. No entanto, nas vezes anteriores, quando estava certo do seu orgasm o, este havia sido um a farsa. Não fiquei convencido, j á que acreditava que o problem a era a m inha deficiência.
Por defesa ou com odidade, resolvi dar-lhe um crédito e esquecer as encucações m artirizadoras. A partir daí, passam os a ter um j ogo sexual gostoso até o m om ento em que percebi que não se um edecia tanto quanto antes, dificultando a penetração. Aceitava bem os m eus convites, em bora j am ais tom asse a iniciativa.
Encuquei: “Não pode estar fantasiando novam ente. Está na cara que necessita de algo que não posso lhe dar”.
Arranj ei um a desculpa qualquer, peguei m inha m oto e saí. Precisava urgentem ente respirar um pouco de ar noturno. Rodei até um a praça próxim a. Desliguei o m otor e sentei-m e num banco, rum inando um a confusão que m e despertou ânsias de m onologar. Necessitava aclarar as ideias, desabafar e ouvir a m inha própria voz. Talvez, nesse discurso, pudesse entender-m e m elhor, j á que não conhecia ninguém que tivesse o m esm o problem a.
— Jô, o que você está sentindo?
— Estou triste, nervoso, confuso – respondi para m im m esm o, sentindo cada palavra. Sabia que o fundam ental que m e dom inava não havia saído e precisava sair, alto e bem forte.
— Im potente, porra! Diga: “Estou m e sentindo im potente!”.
Meu corpo se transform ou. Contorci-m e num arrepio só ao ouvir a crua verdade. Com ecei a trem er, com o se fizesse subitam ente um frio cortante e estivesse fraco e desagasalhado. A palavra continuava ressoando nos m eus ouvidos. Tornei-a novam ente audível.
— Im potente! Im potente! Im potente!
Virou raiva, puro ódio. Meus olhos se nublaram . Estavam endurecidos e cegos. Depois, os braços, as pernas e, finalm ente, o corpo todo. Por uns segundos, fiquei enrij ecido, até que num ím peto rom pi a inércia e dei um salto do banco. A visão voltou. Abaixei a cabeça e vi m eu corpo. Abri as m ãos e toquei-o. Am assei m eus peitos, com prim i m eu sexo vazio, levantei a cabeça e novam ente, escarrei no m undo – por estar vivo daquele j eito. Cam inhava com o num cais sem partidas. Meus braços se j ogavam , m e esbarrando. As pernas chutavam o torpor do nada-ser. Flashes soltos varavam m eu peito fundido. “Não, não é hom em , é m ulher sim , vem sem pre aqui no bazar com a m ãe e com pra bolas de gude. Coitada, até seria um a m ocinha bonita, se quisesse...” Crianças apontavam para m im , rindo, gritando alto: “Maria-hom em , Maria-hom em , m ais parece um lobisom em !” “Mam ãe, você gosta de m im ?” “Claro que gosto de você.” “Mas com o eu sou?” Sua boca era grande e m e beij ava. “Você é inteligente, sensível, m as m uito levada.”
Os pensam entos agora se tornavam m ais densos. Lem brei-m e das repugnantes m onstruações. Fazia de tudo para que Mercedes não as percebesse – a prova irrefutável da m inha condição. Aquele absorvente entre as pernas e a im agem de m arido, onde ficava? Isso tornava tudo ainda m ais com plicado. Parecia um castigo propositado! Já não tinha peito atlético e cabeludo, era obrigado a sentar hum ilhantem ente para m ij ar, tinha a cara lisa, sem barba, a bunda caída e alargada pelos horm ônios. Já não bastava?
Novam ente o pesadelo de que as m ulheres não poderiam se sentir atraídas por m im com eçou a m e estrangular. Não era possível... Ou era?
Pensei nas pessoas que achava que gostavam de m im . Um a autopiedade m e agasalhou. Senti-m e profundam ente grato pelo carinho que j á tinha ganhado na vida.
— Foi de m igalhas que sem pre vivi – reconheci.
Pensei no m alabarism o fantasioso que desenvolvera para obter prazer nas m ínim as coisas, com o o volum e do absorvente, que antes tanto m e deprim ia e se transform ara em algo prazeroso.
Certa ocasião, num descuido m eu, Mercedes percebeu aquele volum e que a cueca deixava transparecer. Contrariando m inha expectativa, gostou do que viu. Fiquei confuso ao perceber que estava m e olhando com o olharia para qualquer hom em . A princípio, fiquei m eio envergonhado, m e sentindo ridículo. Abraçou-m e e, inesperadam ente, com eçou a tirar um sarro delicioso, da form a com o eu sem pre tinha im aginado e j am ais pude experim entar. A excitação foi m e tom ando, até o ponto em que ela tentou segurar o volum e dentro da cueca. Sutilm ente, puxei seu braço e passei-o ao redor do m eu pescoço. Ainda não m e sentia em condições de aguentar aquela carícia tão sensual, m as prem atura.
De repente, via-m e esperando ansiosam ente pelo dia da m onstruação. A situação agora se invertia, pois, só durante aqueles poucos dias, teria um a desculpa para exibir um “pênis” em tam anho norm al. Entretanto, se continuasse a usá-lo após o térm ino do ciclo “m onstrual”, certam ente m e acharia um tolo, e, covardem ente, não tornaria a usá-lo. Paradoxalm ente, era nesses dias que m ais m e expandia sexualm ente, vestido, é claro. Mas o fato de ter um pau só por três ou quatro dias e depois o volum e sum ir deixava-m e igualm ente desm oralizado. Num dia, estava pronto para excitá-la de um a m aneira, e no outro, se ela quisesse repetir o gesto, teria prim eiro de m e observar para ver se era ou não possível. Assim não dava.
Qual seria então a solução m enos terrificante?
Encostei-m e a um a árvore e vi um hom em sentar num banco. Pobre, feio, m as hom em . Será que ele sabe o que isso significa? Talvez o discrim inem pela ignorância, pela falta de status, sei lá, m as quem ousaria questionar sua identidade sexual? Um a vidinha possivelm ente sim ples, em que o sexo é tão óbvio e natural que ele nem precisa pensar nisso. É com o nascer sem dentes. Fechei os olhos e achei m elhor parar com aquilo. Não seria escarnecendo da hum anidade que iria m e fortalecer. Há cegos, paralíticos, debiloides, atrofiados, anões m onstruosos. Novam ente desolado, escorregava para com parações com o consolo inútil.
O desespero foi passando, m as, com o sem pre, nada tinha m udado. Que desgaste! Veio-m e então a lem brança de que ela nunca tivera um a experiência sexual com um hom em com pleto. Com o poderia saber se eu lhe bastava se, antes de tudo, reconhecia que nunca tinha transado com um hom em norm al?
Rej eitei essa diabólica conclusão. Tentava em purrá-la para longe, m as voltava ao prim eiro plano. Não, não vou aguentar se ela experim entar e, pior, com a m inha perm issão! A ideia explodiu com o um a bom ba. Avançada, altruísta, m as de pavio m aquiavélico!
Passados alguns m eses, a situação não m elhorava. Tentava arrancar essa ideia m aluca da cabeça. Continuava persistindo. No entanto, se não resolvia o m eu problem a, por que pelo m enos não salvar um de nós desta canoa furada? Não era tão sam aritano a esse ponto. Mas no fundo tinha a convicção de que Mercedes não acharia grandes diferenças e que, por gostar de m im , não conseguiria se entregar a m ais ninguém . Seria um a prova de fogo, e da crista dessa cham a dependeria todo o m eu am anhã. Será que, eternam ente, as m ulheres transariam com igo e m e achariam ótim o som ente se nunca tivessem dorm ido com outro?
Tentei falar de form a im pessoal ao lhe propor a grande cartada. Seus olhos se esbugalharam :
— Você está ficando doido?
Aliviado por sua reação, procurei não pensar m ais no assunto. Os anos passaram . Fui levando um a vidinha de altos e baixos. Não podia reclam ar. Era a m elhor fase da m inha vida. Am ado por um a m ulher que eu am ava, trabalhando com o hom em num táxi, estudando o que m e interessava e contando ainda com a m inha fam ília, que nunca m e abandonara. Em bora com restrições, os velhos tam bém m e visitavam e chegaram até a nos presentear com um ventilador para a casa. Tudo transcorria razoavelm ente, ainda que persistisse a angústia de poder ser exposto em público. Até que, num a das raras discussões violentas que tive com Mercedes, ela deixou escapar que tinha posto em prática a m inha antiga proposta. Há seis m eses experim entara fazer sexo com um am igo, que eu conhecia e sabia estar apaixonado por ela.
Tive um a taquicardia repentina. Joguei o copo azul que apertava na m ão contra a parede, espatifando-o. Brotou um a série de perguntas: quando, onde, com o tinha acontecido?
Apesar de ter sido o autor da terrível sugestão, não pude deixar de m e sentir traído e inferiorizado. Agora ela conhecia a sensação de ter um pênis verdadeiro dentro dela. Meu desem penho estava, há m uito, sendo avaliado com parativam ente.
Negava ter obtido prazer total, m as confessou-m e que a sensação era totalm ente diferente e m uito boa. Aquele “diferente” m e aniquilou. Tentou ainda m e consolar dizendo que m e am ava e não queria m ais ninguém .
Depois dessa notícia, fiquei sem tesão para nada.
As estações se sucederam .
Meu desgaste em ocional cobra um alto preço físico. Quando m e aborreço, sinto logo a cabeça pesada. A acidez do estôm ago aum enta, coroando o processo. Sabendo disso, em prego o que batizei de “m étodo da poupança pessoal”. Consiste em fazer tudo para evitar chateações ou, pelo m enos, fazer com que dure o m enos possível. Meus esforços não m edem orgulho nem dignidade. Posso ter absoluta razão num a discussão, ou nem ser o responsável, m as sem pre sou o prim eiro a tentar um a reconciliação. Meu raciocínio é sim ples: tenho um a vida que m e consom e num trem endo desgaste. Por que perm itir que coisas bem m enores, com o desavenças passageiras, descarreguem a m inha bateria? Com a idade, descobri que sofrim ento em ocional deveria ser luxo só para j ovens.
Não visualizava qualquer possibilidade plausível de sair da m inha condição de invertido. Tinha de m e poupar ao m áxim o para poder aguentar o que ainda viesse pela frente. Se relaxasse, estaria irrem ediavelm ente perdido. Não evitava brigas por covardia, m as por econom ia.
A Psicologia tam bém contribuiu para que não m e sentisse agredido por qualquer coisa. Antes de tudo, preocupava-m e em saber o que fazia a pessoa dizer aquilo, em que condições ela se encontrava no m om ento. Enfim , esm erava-m e em com preender os m otivos do outro considerando a sua agressão com o um pedido de socorro.
Certa vez, Mercedes esbravej ou contra essa m inha atitude:
— Fico danada quando brigam os, e logo depois você vem todo m eloso para o m eu lado, com o se o que aconteceu não tivesse a m ínim a im portância!
Mansam ente, explicava:
— Mas, querida, se é possível ter prazer logo, para que esperar? Cedo ou tarde, vam os m esm o fazer as pazes. Então por que se desgastar cada um para um lado?
Não adiantava. Não entendia. Achava o m áxim o da avacalhação. Um a falta de respeito por seus sentim entos.
A últim a vez que, no m eio de um a discussão, tentei que ela visse com o seria até engraçado se olhássem os a questão por outro prism a, estourou:
— Você não leva a sério nada do que eu digo? Parece até inum ano! Fico furiosa, e você nem se abala!
E passava dias m al-hum orada. Confesso que adm irava sua paciência e sua saúde para aguentar por tanto tem po um a sensação pesada e m assacrante.
Mercedes dizia que eu parecia um gato, porque subia nos m óveis e m e j ogava repentinam ente em cim a dela, quando não m e estirava no tapete e m e fingia de m orto. Num desafio se sentava sobre m im , fazendo-m e cócegas ou m e beij ava, decepcionada quando não reagia. Nem m esm o respirava, para não m e m exer. Dava uns tapinhas no m eu rosto, com o para m e acordar do desm aio, e só assim tornava a abrir os olhos:
— Quem é você? Onde estou? – e fingia desm aiar novam ente.
Ver film es j untos, debaixo do cobertor, era de um aconchego soberbo. Fatalm ente, acabávam os dorm indo, e era eu que m e levantava para desligar a televisão, depois de m isturar o film e com os sonhos e acordar novam ente sobressaltado.
Gostava de ler poem as para ela. Em certas ocasiões, m udava algum a parte e a encaixava no texto. Protestava rindo:
— Isso não está aí...
Mercedes tinha suas próprias am izades, m as, sem pre que podíam os, saíam os j untos.
Foi bom o tem po que com partilham os. Era carinhosa, e eu gostava de m im á-la. Com habilidade, conquistou a sim patia da m inha fam ília. Tratavam -na bem , em bora fizessem questão de ignorar o fato de ser m inha m ulher, o que era penoso para m im , m as não estava disposto a m e subm eter a essa esfera de conveniência “dificultosa”. Mantinha certo recato, pois m eu obj etivo não era agredi-los. Entretanto, não cedia nesse j ogo de ignorar.
Ao term inar nosso casam ento, Alaíde, a m ãe de Mercedes, veio tom ar satisfação com igo. Queria saber por que estava deixando sua filha sozinha novam ente. Relem brou que, a princípio, preferia a filha m orta a estar com um a m ulher, m as, agora, reconhecia que nunca tinha visto a filha tão feliz. Olhei aquela pobre m ulher tão sofrida, que tinha m e provado que o am or verdadeiro por um filho pode sobrepor qualquer preconceito, e nos abraçam os num choro convulsivo.
Dos seis anos j untos, dois deles foram com partilhados com Pedro Matheus, um a pessoa singular.