Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 21 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 2

 

AMANDA

 

Sua presença é de tal ordem

que não existe sem uma ausência possível.

Merleau-Ponty

 

Am anda era daquelas m ulheres que um hom em nunca acha que vai encontrar, m as que existem . Descobri nela um ser à parte que podia se recusar a qualquer tipo de dom inação e com total capacidade de entrega. Para m im foi algo novo. Com a convivência, m inhas relações acabavam tom adas por um estúpido sentim ento de posse, com o se a pessoa vivesse no m eu bolso, o que era trem endam ente insatisfatório. Desej ava am ar um a pessoa, e não um obj eto. Além do m ais, j á tinha aprendido que esse sentim ento era o alicerce do ciúm e, além de ser m uito delicado e perigoso para se brincar com ele. Um a am iga costum ava dizer que “a posse era o túm ulo do desej o”.

Am anda com eçou dizendo “não” a tudo o que cerceava a ela ou a m im . Respeitava m inhas dificuldades até o ponto em que essas não m e desrespeitavam e vice-versa. Foi a única pessoa que acreditou no m eu desespero de querer nascer, não de novo, m as pela prim eira vez.

Era um a m ulher mignon, de um a docilidade espontânea, m as que se agigantava quando desafiava o inadm issível. Falava pouco e via m enos ainda, quando convinha. Sua lourice não ia ao ponto de cansar. Os olhos caram elizados tinham o m esm o tom do cabelo, sem grandes contrastes, com o seu m odo de ser. O corpo form ava um todo harm onioso, cuj as partes se integravam ritm icam ente. Movia-se com o um cata-vento, sem que se pudesse perceber esforço algum ao se deslocar sobre a ponta dos pés. Aparecia e desaparecia com o m iragem e foi na força de sua ausência que descobri a sua presença.

Fascinava-m e que esse corpo fosse anim ado por um a consciência extrem am ente viva. Achava engraçado quando m e dizia:

— Hoj e não vam os nos ver, tenho de cuidar das m inhas coisas.

Não se tratava de nada m isterioso ou proibido. Só depois com preendi que queria apenas m e ensinar a intim idade só dela. Mostrava-m e, assim , que possuía um m undo à parte, além do que partilhava com igo. Com ecei a observar que as m inhas coisas geralm ente eram relegadas a um segundo plano por m im m esm o, em função da m ulher am ada, o que no fim gerava um a grande insatisfação.

Surpreendia-m e constantem ente, com o quando colocou um bilhete no bolso do m eu pij am a: “Estou acontecendo m ais um a vez!”. Que sopro de vida sabê-la tão apaixonada por m im !

Em bora houvesse essa noção forte de individualidade, havia inevitavelm ente um “nós” que curtíam os, cuidando, porém , que não nos engolisse. Abdicarm os em nom e do am or em questões vitais nos levaria à anulação com o pessoas. Cedíam os, m as o suficiente para não nos violentarm os.

Quando a conheci, m orava num apartam entinho branco com plantas por todos os lados, transpirando cuidados. Estudava na faculdade de Com unicação em que eu dava aula, m ais precisam ente na m inha sala de aula. Era m inha aluna.

Sentava-se à frente, do m eu lado direito, e só notei sua presença no dia em que m e aborreci e dei um a bronca na turm a. Todos ficaram calados e um tanto am edrontados. Foi então que vi em seus olhos a tranquilidade de m era espectadora. Deu-m e um sorriso, e m e senti ridículo sendo pego a esbravej ar com as m ãos para cim a.

Noutra vez, durante um a apresentação de trabalhos de alunos, foi proj etado na parede o slide de um quadro pintado em verm elho, m uito original. Ao term inar, inquirindo a turm a sobre o autor da obra, para m inha surpresa um aluno a apontou. Olhei-a novam ente e tornou a sorrir. Na aula seguinte, apareceu com um em brulho nas m ãos e ao m e entregar recom endou:

— Cuidado! É um presente. A tinta ainda está fresca.

Fiquei m eio sem j eito e agradeci. A partir daí, sem pre nos cum prim entávam os ou trocávam os algum as palavras no bar da faculdade.

Alguém tinha m e alertado para não m e envolver com alunas. Um dia, dei-m e conta de que, ao descer as escadas para o pátio, m eus olhos a procuravam dissim uladam ente. Sua presença crescente com eçava a m e im pregnar.

Apesar do frio, suas roupas pareciam leves, e trazia sem pre no om bro um a enorm e bolsa canoa de couro. Era inconfundível.

Os m eses transcorriam . Seu interesse por m im só foi confirm ado no Natal, quando recebi um cartão desenhado com um poem a apaixonado.

O que m e confundia era o fato de Am anda ser um a m ulher extrem am ente bonita e suave, não m e parecendo hom ossexual nem dem onstrando receio, algum tipo de surpresa ou conflitos por estar gostando de m im . Em bora m e sentisse um hom em , sabia perfeitam ente que era “sua professora”. Novam ente inculquei com a velha dúvida de com o estaria m e vendo.

Term inaram as aulas, m as a lem brança de Am anda ficou. A saudade aum entou. Resolvi aj udar o acaso. Montei na m oto. Consultei o envelope natalino e rum ei para o endereço m encionado no verso.

— Você! – exclam ou efusivam ente. — O que lhe deu para aparecer aqui? – abraçou-m e e soltou um beij o tím ido no m eio das m inhas bochechas. Ainda m eio zonzo, fiquei aliviado quando m e convidou para sentar, oferecendo-m e um copo de vinho.

— Muito acolhedora a sua casa. Dá vontade de não sair m ais.

— E por que sair? Para ela ficar com pleta, só falta você aqui dentro...

Levantou-se rapidam ente e foi apanhar m ais vinho, enquanto eu virava o copo de um a só vez.

— Veio com a roupa sua de que m ais gosto – disparou, esperando m inha reação. Cada vez eu ficava m ais em baraçado.

Am anda era assim . Meio im previsível e m uito rom ântica. Divertia-se vendo um hom em sem graça à sua frente.

Ela vestia um a túnica longa, solta sobre o corpo. Eu trem ia. Ela olhava. Derram ei vinho no tapete, ela arranhou o disco na agulha da vitrola. E quanto m ais tentávam os consertar, m ais nos denunciávam os.

Fui ao banheiro. Na volta, esbarrando na estante, deparei-m e com um álbum de fotografias. Enquanto o folheava, veio sentar-se a m eu lado, identificando as pessoas. Seu braço roçava o m eu. Seu perfum e silvestre im pedia-m e de escutar as explicações.

Aconteceu. Com o num cam po im antado, colam o-nos boca com boca, num desenlace de ternura.

Nossos encontros se tornaram frequentes. Era um caso inédito em sua vida, m as isso não parecia perturbá-la. Transm itia-m e confiança e um a grande vontade em ser m inha m ulher.

Acabei, finalm ente, aceitando seu convite e fui m orar com ela.