Viagem Solitária
Capítulo 9
O SALVA-VIDAS
Sobrevivi.
Ondas revoltas me lançaram de costas às lascas finas dos
corais.
Mas felizmente e como sempre, um cardume de versos me
esperava no cais.
Cam ões
Apesar da viagem , não m e sentia cansado quando toquei a cam painha. O m ordom o atendeu e m e inform ou que o Dr. Farina acabara de sair para atender a um caso urgente, m as que deveria retornar para o alm oço.
Eram ainda nove da m anhã. Decidi voltar m ais tarde. Entrei no prim eiro bar que encontrei. Sentei-m e num a m esa de canto e tom ei m eu café da m anhã. O pão estava duro, e o café, frio, porém consegui saber que a seis quarteirões dali havia um a pensão. Meu bom -senso aconselhava que não enfrentasse a viagem de volta no m esm o dia, com o fizera da prim eira vez.
Com a m aleta na m ão, cam inhei até avistar um a tabuleta, onde se lia: “Pensão Libertador”. Tive a im pressão de que aquele nom e m e daria sorte. Não era careira e dava refeições. Tom ei um banho e m e estiquei na cam a para continuar a ler O Estrangeiro, de Albert Cam us.
Alm ocei e à um a hora estava na porta do Farina. Um de seus filhos desceu para m e fazer com panhia. Ficam os conversando sobre cantores de m úsica pop. Árduo defensor da canção am ericana, achava a nacional “um a droga”. Reclam ou que o pai não queria pagar seus estudos no exterior, e ele se recusava a estudar em qualquer universidade brasileira, pois considerava execrável o ensino no país. Estava m e explicando que teria de serrar alguns dentes devido a um desvio na articulação do m axilar, quando seu pai chegou.
— Ah, é você! O em pregado m e avisou de um rapaz, m as não im aginei que viesse tão rápido! Já alm oçou?
Respondi que sim .
— Fique à vontade, enquanto com o algum a coisa.
O filho se retirou. Levantei-m e e folheei livros da sua biblioteca. Havia alguns sobre transexualidade que não conhecia, porém a m aioria escrita em inglês. Peguei um em espanhol, cuj o autor era o próprio Farina. Versava sobre plástica restauradora. Alguns instantes depois, ele apareceu de volta.
— Agora podem os conversar com calm a. Estive pensando no seu caso e m e lem brei de um psiquiatra que talvez possa resolver seu problem a. Acho que entrou de férias. Falou-m e que pretendia tirar um m ês para ir ao México, visitar a irm ã, que está m uito m al.
Para confirm ar m inhas suspeitas, perguntei-lhe:
— Por acaso é aquele seu am igo de quem nos falou? O tal que pediu para receber um cliente dele?
Farina sorriu da m inha associação.
— Exatam ente. Lourenço é um suj eito form idável! Tenho certeza de que fará o possível para colaborar. Vou dar um a ligada para o consultório dele.
Cruzei os dedos. Essa era a m inha últim a chance. Fui até a porta, conseguindo escutar o finalzinho da conversa. Perguntava a que horas o Dr. Lourenço teria a prim eira sessão. Retornei ao sofá com o se nada soubesse.
— Tudo certo! Só vai entrar de férias na sem ana que vem . Se fosse você, iria agorinha m esm o. Sua prim eira consulta é às três horas. Anote o endereço. Não fica m uito longe. Em m eia hora está lá. Leve este cartão.
Apertei sua m ão fortem ente.
— Farina, você é um pai!
Peguei o prim eiro táxi que passou. Só então li no verso do cartão: “Caro Lourenço! Aí vai um am igo m eu. Faça tudo por ele. Um abraço, Farina”.
Faltavam 15 m inutos para as três horas quando confirm ei a entrevista com a secretária do Dr. Lourenço. Pediu-m e que aguardasse. Ele tinha ligado avisando que estava a cam inho.
Sentei-m e num a poltrona e fiquei observando o am biente. Era um a casa antiga que havia sido reform ada, criando vários consultórios.
Senti um a terrível dor de barriga. Sintom a característico nessas horas. Saí rindo do banheiro. Atrás da porta havia um decalque: “Aqui só entram pessoas sérias”.
Meu sorriso aum entou quando a secretária m e apontou o Dr. Lourenço. Aproxim ei-m e. Sem dizer palavra, dei-lhe o cartão.
Bateu rápido os olhos no texto.
— Com o é m esm o seu nom e?
— Joana.
Encarando-m e sério, fez um a pausa e disse:
— Aguarde um m inutinho enquanto atendo um a cliente. Depois será sua vez.
O m inutinho foi de 50 m inutos. Finalm ente, a porta se abriu. Eu estava um a pilha de nervos e não ouvi o que acabava de dizer.
— O que foi?
— Nada, nada. Estava só pensando em voz alta que é a prim eira vez que Farina m e m anda alguém .
Não sabia se aquilo era lisonj eiro ou não para ele. Decidi não m e preocupar com o com entário.
— Não quero tom ar m uito o seu tem po. Vou direto ao assunto. Procurei um a equipe especializada em transexualidade, fiz todos os exam es exigidos e m e indicaram um psiquiatra. Depois de vários m eses de terapia, ele se recusou a m e fornecer o laudo a favor da cirurgia. Alegou ter dúvidas sobre o tem a e receio de se com prom eter. Desesperado, pedi aj uda ao Farina, que m e recom endou você, com o sendo um dos poucos capazes de fazer um a avaliação dessas. Tenho 26 anos, m oro no Rio de Janeiro e tenho pouco dinheiro. Mas farei o que pedir para conseguir esse laudo. É claro que caberá a você decidir, livrem ente, o m eu psicodiagnóstico – dei um suspiro de desabafo e acendi um cigarro.
O Dr. Lourenço transm itia tranquilidade com seus cabelos grisalhos, gestos ponderados e um a voz m acia.
— Esse laudo não é problem a. Já dei um e poderia dar outro. Evidentem ente, com o você m esm o disse, desde que eu m e convença. Com o sua situação é difícil, e tam bém para atender a um pedido do Farina, vou exigir apenas duas coisas: um a entrevista longa com você e outra com sua m ãe.
Fiquei receoso. Se por um lado estava contente de tudo ser resolvido em apenas duas vezes, por outro, a exigência da presença de m am ãe com plicava.
— Se, por algum m otivo, m am ãe não puder vir, serviria a m inha irm ã m ais velha?
— O ideal seria sua m ãe. Mas, se for de todo im possível, receberei sua irm ã.
— Farei tudo para trazê-la, em bora m am ãe m ore longe. A propósito, quando serão as entrevistas?
Consultou sua agenda.
— Lam entavelm ente, esta sem ana estou todo tom ado e na próxim a vou viaj ar. Podem os m arcar para o dia 3 de m arço, que cai no prim eiro sábado depois da m inha volta. Dez horas da m anhã está bem para você?
— Está ótim o!
Levantam os, e, ao nos despedirm os, esclareceu que atenderia a nós dois no m esm o dia, m as um de cada vez.