Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 38 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 9

O QUE FAZER COM O MEU PASSADO

 

Queres as respostas, mas tê-las não significa poder com

elas.

Sy ak Valencia Triana

 

— Identidade, por favor – pediu-m e o hom em do guichê da rodoviária quando com prava m inha passagem para Brasília.

Peguei a certidão de nascim ento, eufórico, para usá-la pela prim eira vez.

— Identidade ou carteira profissional, m eu filho. Certidão de nascim ento não serve – disse o bilheteiro irritado e com pressa.

Confirm ei que a certidão de nascim ento em si pouco valia com o identificação. Precisava tirar os outros docum entos. O m ais difícil era o certificado de alistam ento m ilitar, pois tinha de ser num a cidade com excesso de contingente. Assim , nem precisaria fazer o exam e m édico. Mas prim eiro m inha m ãe teria de m e em ancipar. Só depois, poderia tirar sozinho os outros docum entos.

E, de preferência, deveria ser em outro estado, com m enor chance de ser descoberto.

Am anda resolveu m e aj udar com o bilheteiro:

— Moço, ele j á tem 18 anos e está tirando os outros papéis. Qualquer problem a eu m e responsabilizo. Aqui está a m inha identidade. Ele tem de viaj ar hoj e sem falta.

O bigodudo atrás das grades grunhiu um “hum ”. Am anda term inou apelando:

— Por favor. A m ãe dele está m orre, não m orre no hospital. Não faça isso com a gente...

Vendo que o hom em tinha balançado, insistiu:

— Sej a bonzinho...

Ele cedeu.

Era inegável que o j eitinho fem inino ainda tinha um poder de sedução m aior do que qualquer argum ento racional.

Depois de 18 horas de viagem , cheguei a Brasília, que não conhecia. Peguei um táxi e fui para o lago Norte.

Enquanto pagava a corrida, vi que papai varria a calçada da nova casa. Quando saltei, vendo-o diante de m im , não aguentei.

— Ô, paiê...

Foi um abraço forte e longo. Tão intenso e com ovente com o não m e lem bro de j am ais ter dado em papai. Nem m esm o na sua volta do exílio nos sentim os tão próxim os quanto nesse instante.

A Dra. Elizabeth tinha cum prido a prom essa de conversar com papai. Lem brei-m e do que havia m e dito dois dias antes de eu viaj ar:

— Disse a seu pai que, em nom e da nossa am izade de tantos anos, não poderia ficar calada, sem m anifestar de viva voz m inha decepção diante da atitude om issa dele. Ouviu-m e calado. Confessou sua dificuldade de vê-lo com o um filho hom em e de cham á-lo por João. Falei que isso não era o m ais im portante. Que evitasse sim plesm ente cham á-lo. Não podia entender com o ele, que sem pre fora um hom em esclarecido e louco pelos filhos, se deixasse levar por um preconceito m aior que seu am or paternal.

Agora, ali na calçada de casa, a cena beirava o patético. Olhei-o novam ente. Vi que seus olhos estavam verm elhos com o deviam estar os m eus.

— Vam os entrar, pai – consegui dizer, escorregando o dorso da m ão pelo rosto, enquanto dava um a fungada.

Tentando tornar m ais leve a situação, com entou:

— Deixa que pego a m ala. Am anda não veio?

— Não. Ela não pode m ais faltar ao trabalho.

— Ainda não conhece a casa e deve estar m orto de fom e. Vam os até a cozinha que sua m ãe está lá.

Adorei ouvir aquele “m orto de fom e”. Pela prim eira vez, papai m e tratava no m asculino. E, por incrível que pareça, até hoj e não errou nem um a vez o m eu nom e. Mam ãe é que, vez por outra, ainda m e trata no fem inino, e o velho sem pre a cutuca com o pé por debaixo da m esa.

 

Há uns cinco anos eu não visitava os velhos nem conhecia essa casa.

Quando entrei, reconheci o antigo m ata-m oscas do papai, que continuava igualzinho na m esa ao lado da cam a.

Lá estava tam bém o piano de m am ãe. Sem os buracos de cupim , sem o antigo verniz escuro, o m esm o banquinho m ouro, debaixo do qual eu e Van j ogávam os bolinha de gude. Estava afinado! Parecia outro! Lem brei-m e em ocionado do garotinho ressabiado e acuado que era. Nunca conseguira expressar o quanto representava para m im vê-la tocar.

Mam ãe tentou agradar-m e ao m áxim o. Fazia as com idas de que eu gostava. Pela prim eira vez, era tratado com o um filho hom em e casado. Deu-m e até um quarto com um a cam a de casal, caso Am anda resolvesse vir. Mas, apesar da boa vontade, sentia-os reservados, principalm ente papai. Tinham um excessivo cuidado em não errar m eu nom e, em bora, em parte, isso fosse devido à presença da em pregada. Faltava aquele relaxam ento gostoso que agora m e sentia capaz de dem onstrar e de querer. Tentava adotar um a atitude natural, fosse despindo a cam isa para tom ar sol ou pedindo em prestado o aparelho de barba do velho, m as sem pre evitando m e im por. Seria preciso tem po para se acostum arem à m inha nova im agem .

No prim eiro fim de sem ana, fui com papai fazer algum as com pras na loj a de um conhecido dele. O dono, ao m e ver a seu lado, perguntou quem eu era. Papai, m eio indeciso, acabou m e apresentando com o João, um am igo. Senti um a pontada. Vi o quanto faltava para que m e aceitasse com o filho.

Entretanto, algo m udou quando tiveram de ir a um alm oço na casa de um a prim a de papai, que j á estava m arcado antes da m inha chegada. Notando o em baraço deles e antes que fossem obrigados a tom ar qualquer atitude, com uniquei que não iria. Seria difícil explicar a m inha presença. Quando voltaram , o velho estava radiante e aliviado:

— Pronto! Você j á pode ir à casa de Rildes. Contei sobre você.

— Foi m uito difícil, pai, contar a história?

— Que nada! Por quê? Havia algum problem a?

O velho riu, brincando para disfarçar, o que sem pre fazia quando queria m inim izar um a situação difícil.

 

Meu encontro com Leila deu-se logo no dia seguinte à m inha chegada. Foi no alm oço na casa dos velhos. Saiu logo em seguida, pois tinha de dar aulas. Tratou-m e m uito bem , em bora errando m eu nom e duas vezes e dem onstrando certa cerim ônia, num a atitude tipicam ente defensiva. Conversam os o trivial. Falou basicam ente dos filhos. Na despedida, convidou-m e para conversarm os a sós. Marcam os um encontro para dali a três dias.

Leila m e pegou de carro. Fazia um a noite clara e quente. Era a prim eira vez que nos víam os cara a cara depois das m inhas cirurgias.

De início, a conversa se m anteve superficial, com o se não houvesse nada de sério para ser dito. Depois que m e cham ou de “Joana” pela terceira vez, protestei:

— Tem todo o direito de se colocar contra tudo o que fiz e sou, m as considero um a agressão não ter o m ínim o cuidado e continuar a m e tratar no fem inino. Esse seu desligam ento m e incom oda.

— Desculpe. Não m e habituei ainda. Afinal, faz tanto tem po que não nos vem os! Não vai querer que, de um dia para o outro, passe a vê-la com o um hom em . Aliás, acho m uito difícil isso acontecer. Para m im , você será sem pre a Joana, m inha irm ã.

Senti que aquela conversa seria decisiva. Não podia perder a calm a, sem antes lhe dar um a oportunidade.

— Leila, assim não vam os nos entender. Estou pronto a ser franco e aberto. É preciso que m e vej a com o um a pessoa com quem teve m uita afinidade em outros tem pos e que hoj e cresceu, am adureceu e m udou. Acredito que sej a m ais fácil e até de certa form a côm odo não querer ver ou não aceitar as m inhas cirurgias. Você é um a antropóloga que estuda e lê bastante. Não é possível que não se interesse em procurar entender m elhor a transexualidade.

Leila ouviu calada. Percebendo m inha exaltação, ofereceu-m e um cigarro num gesto conciliatório.

— Não posso negar que o seu problem a m e atingiu. Não é fácil perder um a irm ã a cuj o enterro não com pareci. Talvez sej a essa m orte o que m e revolte. A m inha infância e adolescência foram partilhadas com Joana. Você a m atou! É difícil saber ter am ado alguém que nunca existiu realm ente da form a que se pensava! Você não surgiu de repente. Não é apenas um a sim ples pessoa a quem fui apresentada e que m e lim ito a gostar, a aceitar ou não. Hoj e, se gosto de você, é pelo que j á gostei. E onde encontrar agora aquela a quem am ei? Não sei se está m e entendendo, m as é isso o que sinto. Não é um a cirurgia, um a m udança de nom e ou de papéis que faz com que alguém sej a outro ser! E hoj e m e sinto im pedida de m anter viva a im agem da irm ã por quem sem pre tive o m aior carinho! Agora, responda-m e, o que faço com você no m eu passado?

Visivelm ente em ocionada, ela continuou:

— Outro dia fui relem brar para m am ãe um a m olecagem nossa, quando a gente era criança. Ao falar em você, engasguei. Não foi com João que fiz aquilo, m as com Joana. Soou falso... Não foi a m esm a coisa.

Com o Leila j ogaria com seu passado, só dizia respeito a ela. Não tinha m ais nada para explicar. Tudo o que m e restava era lam entar profundam ente a sua dificuldade.

Deixei passar uns dias e falei com m am ãe da m inha nova certidão de nascim ento. Pedi que fôssem os j untos ao Cartório para m e em ancipar.

Ficou relutante por um m om ento, lendo a certidão. Quando viu que o nom e de papai não constava, porque não foi ele quem fez o registro, acabou concordando. Mas observou:

— Meu filho, depois de tantos anos, agora virei puta?