Viagem Solitária
Parte I: Desencontros
PARTE I
DESENCONTROS
CAPÍTULO 1
TIPINHO ACANHADO
A vida é uma oportunidade de ousar.
Clem enceau
Lem bro-m e do prim eiro dia de trabalho. Saí ao am anhecer, de cam isa e gravata, para evitar m ultas, pois era obrigatório o uso de uniform e para os taxistas.
Um a ansiedade só. De repente, parei o carro. As portas se abriram . Estranhos se acom odaram e deram ordens. Minha privacidade invadida. Mudo, concentrei-m e em dirigir, obedecendo à risca a rota indicada. A inibição m e dom inava. Sensação de estar sendo observado pela nuca, sem defesa, e de não poder corresponder à aparência de um hom em m aduro e responsável.
Olhei o relógio. Dezenove horas. O estôm ago roncou, e a bunda doeu, am assada por dez horas consecutivas. Senti os olhos ressequidos quando dupliquei o esforço para enxergar através do vidro m olhado, de que o lim pador não dava conta. A vontade de voltar para casa m e dom inou. Segurei firm e o volante. Afundei o pé no acelerador, decidido a buscar um rum o. Constatei que m e achava perdido num subúrbio do Rio, sendo j ogado há horas de um canto para outro, com o peteca na m ão dos passageiros.
Durante um ano e m eio fui m otorista de táxi. Apesar do ofício neurotizante pelo barulho, pelos engarrafam entos e, sobretudo, pela intolerância dos m otoristas, era gratificante o fato de estar exercendo, pela prim eira vez, um a profissão basicam ente m asculina.
Depois de alguns m eses, passei a conhecer as diversas posturas que os indivíduos assum em quando desej am tom ar um táxi. Norm alm ente, equilibram -se na beiradinha da calçada, apoiam -se m ais num a perna do que na outra, com o se fossem dar um bote a qualquer m om ento. Outros sinalizam com o prim eiro obj eto à m ão, sej a um guarda-chuva, um em brulho ou até m esm o com a perna. Isso para não falar dos m ais tím idos. Esses sinalizam tão discretam ente que, com frequência, passam despercebidos pelo chofer.
A condição sexual e a econôm ica tam bém servem de parâm etro para um critério de avaliação. Quando pobre, hom em senta na frente, ao lado do m otorista, num a franca atitude de igualdade e cam aradagem . Na época, m ulher, só se fosse puta. A m elhor gorj eta surge, paradoxalm ente, do m ais carente, com o se dem onstrasse, com isso, que realm ente pode pagar m ais que o necessário. Já o rico, talvez por não necessitar dessa autoafirm ação, não faz tanta questão de im pressionar.
A j ovem bem -vestida, m oderninha, em geral nos cum prim enta form alm ente. Quando puxa conversa, é para se divertir com a suposta ignorância do m otorista.
Os diálogos sem pre surgem da m esm a form a: “Puxa, que calor está fazendo hoj e! Este trânsito não tem j eito m esm o! Você trabalha há m uito tem po nisso? Tem um cigarrinho aí para m e arrum ar?”.
Interessante com o o cigarro ocupava espaço nas conversas e na vida das pessoas.
Se vou com a cara do suj eito, increm ento o papo. Se não, fico calado e ligo m eu rádio.
Entretanto, a nossa classe tam bém tem suas peculiaridades. Não há sinal de esquina em que se pare sem que um taxista cum prim ente o outro ou pergunte com o está a féria do dia. Porém , na hora de disputar um passageiro na rua, som os capazes das m aiores corridas e fechadas.
Há tam bém as m utretas da profissão, visando ter m ais lucro. Um a é rodar com o pneu dianteiro esquerdo m ais baixo do que os outros, o que aum enta a m arcação do relógio. É nesse pneu que estão ligados os cabos do taxím etro e do velocím etro. Outra é parar m ais adiante do que o passageiro pediu, quando a quantia m arcada está redonda, alegando não ser viável estacionar ali, para ganhar m ais uns trocados.
Foi um a vivência m uito enriquecedora. Estudante da faculdade de Psicologia, não poderia ter conseguido m elhor estágio. Além de rem unerado, ele m e proporcionava o convívio com todo tipo de gente. Estava precisando de dinheiro, pois tinha saído de casa para m orar com a m inha nam orada. Com o um sim ples chofer de táxi, o grau de expectativa dos passageiros em relação a m im não ia além do papel que cabia à m inha função, o que m e deixava num a posição m uito côm oda.
Papai foi m uito legal quando m e pagou a entrada do carro. Assum i as prestações com a féria do táxi.
Adepto do bom hum or e da delicadeza, conseguia enfrentar inúm eras situações estressantes. Com a cara de um garotão im berbe de 18 anos, em bora tivesse 22, era m uitas vezes intim ado a dizer m inha idade. Não adiantava m uito engrossar a voz e m anter um ar de hom em sério. Acabava m e traindo.
Esses pequenos desaj ustes se tornavam insignificantes diante de possíveis situações que m e deixariam em pânico, com o im aginar um passageiro desconfiando da m inha real condição. Não saberia com o reagir se isso acontecesse. O que precisava evitar a qualquer custo é que a confusão term inasse na delegacia. Minha docum entação era legal, e, por isso m esm o, não tinha coragem de apresentá-la. Não acreditava que pudesse ser preso, pois não estava com etendo crim e algum , m as o vexam e por que passaria não tinha preço...
Um a das vezes em que m ais m e assustei foi em Copacabana, quando estava parado num sinal. Um a bicha passou voando na m inha frente, fazendo m il trej eitos para pegar o táxi. Abriu a porta dianteira e sentou-se, cruzando as pernas. Im ediatam ente coloquei o cinto de segurança, que, na época, não era obrigatório. Mas, nessas ocasiões, servia com o escudo, j á que é com um elas m eterem a m ão no pau do m otorista.
Esbaforida, foi logo avisando:
— Estou com pouco dinheiro, m eu bem , m as não resisti, vendo essa graça sentada ao volante. Então disse para m im m esm a: “Ai, que boneco divino!”. Seria um desperdício dispensar um a peça com o você. Vi que seria o m elhor em prego que eu poderia dar aos m eus últim os tostões.
Mostrava-se ofegante da corrida, e eu, da situação que estava prestes a enfrentar, m as, sobretudo, representar. Ela m orava perto da zona de prostituição da cidade, e, a seu pedido, para lá nos dirigim os. Durante o percurso, foi m e cantando, segredando-m e que em sua casa havia m ais dinheiro para m e pagar. Evidentem ente, caso topasse com ê-la.
Zonzo com aquela inusitada personagem , fiquei sem saber o que dizer. Repentinam ente, senti sua m ão na m inha coxa. Alternava entre alisar e dar pequenos apertões. Esta aproxim ação deixou-m e am edrontado e nauseado. Rapidam ente, as palavras m e vieram à boca:
— Espera aí! Vam os com calm a! Pegou o cara errado. E, além do m ais, sou casado!
— E daí? Casado, m as não tá m orto! – respondeu, sem titubear, m andando-m e deixar de ser m oralista, insistindo em que experim entasse ao m enos um a vez. Confessou que só gostava de ser com ida por hom ens de verdade, com “H” m aiúsculo e, de preferência, bem casadinhos.
A situação era extrem am ente incoerente e absurda, a ironia da total inversão!
Com o a m elhor defesa é o ataque, resolvi passar de inquirido a inquiridor. Fiz algum as perguntas sobre a sua vida pessoal, a fim de conhecer m elhor aquele tipo de gente. A figura m isturada de hom em e m ulher m e fascinava. Não conseguia entender bem . Disparei então a pergunta que m ais m e interessava:
— Se você pudesse, gostaria de ser m ulher?
— Nunca! Adoro ser veado! Não gosto de ser hom em nem m ulher, m as ve-a-do. Deu para entender?
Aquilo m e intrigou ainda m ais. Era, realm ente, outro gênero!
No m om ento de saltar, ainda deu um a insistida. Mas, vendo que era inútil, despediu-se, gritando: “Lindo!”, e soltou um beij o no ar.
A redondeza não era das m ais fam iliares, m as, ainda assim , procurei um bar onde pudesse m olhar a garganta.
Era um a experiência nova. Quando, antes, poderia estar ali, transitando livrem ente por aqueles lugares pouco recom endáveis, cheios de m arginais, sem sequer ser notado? Tinha vontade de conhecer um prostíbulo por dentro, o que aquelas m ulheres diziam , ver com o tratavam um freguês. Mas nunca ousei sequer passar perto – e não por questão de escrúpulo.
Poucas vezes elas tom am um táxi. Tive oportunidade, porém , de conduzir um a:
— Meu filho, vam os para o cabaré Os Boêm ios – só então reparou em m im . — Ei! Você é m uito j ovem ! Já tem 18 ou é m enor?
Vestia-se espalhafatosam ente. Tratava-m e com desenvoltura, com o se m e conhecesse há 20 anos. Diante de seus m odos provocadores, senti-m e um m enininho inexperiente e acuado.
Aproveitou:
— O que é, perdeu a língua? Não m ordo não, viu? Olha, vam os fazer um a coisa para se sentir m elhor. Para o carro – ordenou, decidida.
Fiquei estático. “E agora, o que é que esta m ulher vai fazer com igo? Não, não vai poder m e tocar. Tenho de dar um j eito. Será que conhece algum lugar por aqui e quer m e carregar à força para dorm ir com ela?” Enquanto os pensam entos se atropelavam , autom aticam ente, freei o carro. “Mas que idiotice! Não devia ter parado.”
Saltou, abriu a porta da frente e tornou a entrar, sentando-se, agora, ao m eu lado.
— Toca para frente. Desse j eito estam os m ais pertinho um do outro. Vam os nos entender m elhor. Sabe que você é bem bonitão? Tá com um a carinha tão assustada que parece que nunca viu m ulher! Não m e diga que ainda tem cabacinho... – gozou-m e, fazendo biquinho.
Cada vez m ais desconcertado, pensei em parar o carro e pedir que saltasse. Mas podia dar um rolo danado. Ela podia se revoltar, sem atender ao m eu pedido, e provocar um verdadeiro escândalo. Não! Era preferível subm eter-m e àquela hum ilhação e levar a conversa com naturalidade. Quanto m ais retraído, m ais iria m e acossar. Resolvi, então, dizer qualquer coisa, no m esm o tom brincalhão, com o se estivesse à vontade:
— Você não brinca em serviço, hein? Até que é sim pática! – dei um sorriso m eio forçado, sem saber m ais o que dizer. Senti que as duas frases tinham ficado soltas no ar. Deu um branco, e não consegui pensar em m ais nada. A única saída era acelerar e chegar o m ais rápido que pudesse, antes que ela m e com esse vivo. Apenas conseguia sentir um a profunda sensação de ridículo, por estar com tanto m edo de um a m ulher igual a qualquer outra. Afinal, era bastante inteligente para m e safar, e ela não poderia, na realidade, m e forçar a nada. Tentei m e controlar.
Continuava com pletam ente à vontade, com um braço apoiado na j anela e o outro abraçando o encosto do m eu banco. Olhava-m e m eio de banda, estudando-m e de cim a a baixo. Meu constrangim ento era total.
Fui pego tão desprevenido que, dessa vez, não tive tem po nem de colocar m eu protetor sexual. Agora não dava m ais tem po. Ficaria m uito ostensivo. Estava à m ercê de um a investida repentina, sem ter com o m e defender. Se continuasse a m e analisar tão m inuciosam ente, acabaria por descobrir. Era im prescindível fazer algo.
— Escuta, m ora aqui por perto? – perguntei.
— Por quê? Tá querendo m e procurar?
“Mas que pergunta m ais idiota a m inha!” – pensei. Agora não tinha j eito, o negócio era seguir em frente.
— Quem sabe... Hoj e não vou poder, porque não ganhei quase nada. Se não chego em casa com o leite das crianças, a patroa m e m ata. Sabe com o é...
Deu um risinho:
— Hum m m ... Agora tô gostando... Escondendo o j ogo, hein? Fazendo tipinho acanhado... Conheço bem . São os m elhores de cam a...
Minha técnica tinha dado certo. Parecia estar m ais satisfeita, e outros assuntos vieram à tona. Xingam os j untos o trânsito, os policiais e o custo de vida.