Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 51 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 12

REVELAÇÕES

 

Não é a carne e o sangue, mas, sim, o coração, que nos faz

pais e filhos.

Schiller

 

Sandra tinha perdido o pai pouco antes de m e conhecer. A fam ília se resum ia à m ãe, Lila, à irm ã Susy e ao cunhado Manuel, bem m ais velho que a m ulher e que j á tinha dois filhos adultos. Ela era enferm eira, e ele, professor, e rapidam ente nos tornam os grandes am igos.

Resolvi em prestar à Susy m eu livro, que contava m inha história. No dia seguinte, ligou perguntando se podia passá-lo para Manuel e m e cham ou de coraj oso. Am bos ficaram surpresos e tocados pela prova de confiança que eu lhes dera. Decidim os poupar m inha sogra. Ela j á tinha adotado Yuri com o neto e passava horas j ogando com ele Banco Im obiliário, dam as, batalha naval.

Mais tarde, eu lhe contaria que não era pai biológico do Yuri, o que a com oveu por ser espírita kardecista. Mas fiquei por aí.

Aos 11 anos, Yuri festej ou o aniversário na casa da m ãe, fantasiado de m orto – com um punhal enfiado na cabeça e os olhos borrados de preto, para terror e fascínio dos am iguinhos –, j á tendo esquecido a Marina. Estava apaixonado por outra m enina da turm a, a quem deu um cartão no Dia dos Nam orados: “Você é o ar que eu respiro”. E desenhou na cueca dois corações com hidrográfica e a frase: “Eu te am o, Teresa”.

Yuri ficava regularm ente conosco. Brincávam os j untos e fazíam os passeios ao Jardim Botânico e ao Planetário. Sandra o conquistara de vez, fazendo waffle com m el para o lanche.

Um a tarde, a cam inho da casa de m eus pais, onde às segundas-feiras se reuniam os netos e, agora, os bisnetos, além dos filhos que podiam ir, Yuri m e confessou que tinha um a coisa para m e contar. Apesar da m inha boa vontade, ele continuava m udo. Perguntei, para relaxar, se j á tinha com ido algum a garota. Riu e confessou que tinha ej aculado, não sabendo direito o que era a palavra orgasm o. Conversam os sobre o prazer e com o era im portante poder dá-lo à parceira. Prim eiro era fundam ental conquistá-la com m uito rom antism o, o que ele pareceu entender perfeitam ente.

No m eu aniversário de 50 anos, ele estava com 12 e m e presenteou com um cartão desenhado, com o seguinte texto:

 

“Papai, eu desejo que neste aniversário você fique cada vez mais jovem mentalmente e espiritualmente. Eu lhe admiro muito pelo seu jeito sábio de transformar tudo em alegria e de conseguir compreender e perdoar os erros de todos. Você é uma pessoa muito especial, ver a vida de uma forma tão alegre e divertida não é tão fácil. Por isso você sempre será um grande pai, amigo, marido, psicólogo, professor... é por essas e outras razões que eu lhe desejo um FELIZ ANIVERSÁRIO!”

 

Um a colega de turm a perguntou se ele agora era CDF, porque tirou a m aior nota nos trabalhos de História e de Português. Tam bém ganhou no bingo de Matem ática. Foi quando apareceram as prim eiras espinhas no rosto e nas costas, que o atorm entariam durante anos. Confessou-m e que raspara o buço com o aparelho de gilete da m ãe, para ver se engrossavam os fios...

Aos 13 anos, foi novam ente saltar de paraquedas com o prim o. Estava m orto de m edo, m as, com o o desobriguei, dizendo que não tinha problem a nenhum se ele desistisse na hora, resolveu ir. Telefonou-m e, triunfante, contando que tinha sido “m uito m aneiro”.

Eu tinha consultado um a am iga psicóloga sobre o m om ento apropriado para revelar a Yuri que não era o pai biológico dele. A segunda etapa, m ais com plexa, quando eu contaria da m inha transexualidade, deixaria para m ais tarde. Para m im , seria a m ais difícil. Minha am iga m e alertou: “Será que para ele não é m ais com plicado saber que você não é o pai biológico?”. De qualquer m aneira, estava claro para m im que eram revelações a serem feitas em duas etapas diferentes.

Claro que Yuri j á desconfiava de algum a coisa. Perguntava-m e sem pre por que sua m ãe tinha tanto ressentim ento de m im , se eu era o pai, e ele, o filho, portanto um presente que eu lhe dera.

“Melhor Lola não estar presente na conversa”, pensei. Apesar de term os esse antigo acordo, ultim am ente tinha m e feito tantas chantagens, com m edo de que o filho preferisse m orar com igo, que não havia m ais clim a para um a conversa am igável. A oportunidade apareceu quando Lola concordou que ele passasse um a sem ana com igo, para estudarm os j untos, j á que ele voltara a ter problem as em algum as m atérias. No sábado, quando term inam os os deveres, pensei: “É agora”.

Mesm o ateu, pedi forças ao universo naquele m om ento. Sentei j untinho dele no sofá e respirei fundo:

— Meu filho, você é um garoto especial e m aduro para a sua idade – com ecei, afagando sua autoestim a. — Por isso, sei que vai entender o que vou lhe dizer.

— Pai, se for difícil para você, não precisa falar – interrom peu-m e, para m inha surpresa. Sorri desconcertado:

— Eu é que estou preocupado que sej a difícil para você!

Rim os os dois, nervosam ente. Agora m ais decidido, continuei:

— Sou m ais que seu pai, sou seu am igo de verdade. Sei que rola um a energia m uito legal entre a gente. À m edida que for crescendo, você vai m e conhecer m elhor. Seu pai é um hom em com um a história diferente. Não tenho dúvidas de que vai m e com preender, assim com o eu sem pre vou m e esforçar para entendê-lo.

Lá estava eu dando voltas. Ele, calado. Queria prepará-lo para que soubesse que, além do que iria dizer, haveria novas coisas a serem ditas m ais à frente:

— Espero que essa nossa conversa sirva para nos aproxim ar m ais, eu, você e sua m ãe, que tam bém te am a m uito.

Pausa. Não tinha m ais retorno.

— Sou seu pai em tudo, m eu filho, em tudo, m enos num detalhe...

Peguei novo fôlego e continuei:

— Não sou seu pai biológico. Sou estéril, filho. Só por isso é que não tem os o m esm o sangue.

Ficou trêm ulo e frio. Abracei-o. Seu coraçãozinho batia forte, assim com o o m eu. Nós dois, em oção pura. Com as lágrim as escorrendo, continuei falando, dando tem po para que se recuperasse do choque.

Perguntou-m e, então, com o sua m ãe tinha engravidado. Tentei lhe explicar, com o m áxim o de cuidado, para não com prom eter a im agem dela e, ao m esm o tem po, não m entir. Falei que não conhecia seu pai biológico e que este nem sabia da sua existência, por isso não o tinha procurado. Dei espaço para que soubesse que, se algum dia quisesse buscar o pai, contaria com a m inha aj uda.

O m enino estava branco. Fiquei com m edo de que estivesse passando m al. Perguntei com o estava.

— Meu coração deu um pulo, pai.

Continuam os abraçados por vários m inutos, beij ando-nos no rosto, na cabeça. Finalm ente, o alívio.

— Filho, agora você sabe que eu te am o por escolha, porque gosto realm ente da pessoa que você é.

A conversa, sem dúvida, nos aproxim ou.

— Você é m eu grande presente, filho! Cada vez m e orgulho m ais de ser seu pai!

Perguntei, então, a opinião dele, se devíam os com entar nossa conversa com Lola. Eu sabia que era ele quem , m uitas vezes, acalm ava a m ãe. Ainda em dúvida, respondeu:

— Acho que daqui a um as duas sem anas, pai.

Achei sensato. Precisávam os de um tem po para descobrir a m aneira m ais adequada de contar a ela. Depois pensei m elhor e sugeri que falássem os dali a uns três dias, pois ela poderia ficar com raiva se soubesse que havia passado tanto tem po.

No resto da sem ana estudam os j untos e botam os todos os deveres em dia. Depois foi só j ogar pingue-pongue.

Após três dias, m arquei um encontro com Lola. Cedo, na hora da sua corrida m atinal pela praia. Estava um dia lindo, e a conversa fluiu. Foi a m elhor dos últim os dez anos. Abraçam o-nos chorando. Dei m inha palavra de que a tinha defendido diante do filho. Queria que ele a com preendesse, com o a m im , com os defeitos e as qualidades.

Sentiu-se aliviada, m as traída pelo fato de não term os contado j untos. Estava ansiosa para se encontrar logo com o filho.

Naquele m esm o dia, à tarde, nos reunim os os três. Tom am os sorvete, e tudo parecia tranquilo e em paz.

Infelizm ente não continuou assim .