Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 9 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 3

ZÉ E ZECA

 

Há somente absurdos relativos e apenas por referência

a racionais absolutos.

J. P. Sartre

 

Todos m e viam com o um a m enina. Para m im , era um m enino.

Havia um abism o entre com o m e viam e com o m e sentia. Adorava brincadeiras consideradas de m enino. Era reprovado. Gostava de m e vestir com o os garotos, tentando rivalizar e com petir com eles. Era ignorado. Trem ia e m e apaixonava pelas m eninas, m as era im pedido de m e declarar. Meus sonhos eram ser um super-herói, m ais tarde casar com um a princesa e ser pai. Era incom preendido. Passei então a esconder m eus sentim entos e m inhas aspirações. Fazia ginástica para m e tornar forte. Arranj ei um a nam orada sem que ninguém , nem m esm o ela, tom asse conhecim ento. Mas o que acontecia? Será que o m undo estava de cabeça para baixo?

Jogava bola de gude na pracinha com os outros m eninos, m as isso tam bém não era bem -visto. Um a vez quis brigar quando m e roubaram as bolas que havia ganhado no j ogo, m as nem m e levaram a sério. Recusavam -se a qualquer disputa corpo a corpo com igo, e sabia que não era por questão de valentia.

Certa vez saí só com m am ãe. Tivem os de atravessar a pracinha. Alguém gritou: “Maria-hom em ! Maria-hom em !”. Quis m orrer naquela hora. Fiquei lívido. Fingi que não era com igo. Tentei puxar qualquer conversa para ela não escutar. A voz não saía. Um m isto de vergonha e tristeza m e invadiu por fazer m am ãe assistir àquele vexam e. O bolo na garganta cresceu. Tentei segurar as lágrim as, que teim avam em sair. Abaixei a cabeça.

Não voltei m ais à pracinha. Evitava a todo custo ter de passar por lá. Mas bastava um garoto m e ver nas redondezas, que novam ente com eçava a ribom bar nos m eus ouvidos: “Maria-hom em ! Maria-hom em !”.

As brincadeiras foram então se lim itando ao quintal da m inha casa. Ali, estava m ais resguardado e protegido, m as ainda não estava seguro.

“Tom e j eito, m enina, parece um hom em !” “Isto não é m aneira de se com portar!” “Um a m ocinha não faz isso, não senta assim , não fala assado, não com e assim , não olha assado!” Não! Não! Não!

Os diálogos descabidos sucediam -se:

— O que você vai querer no Natal?

— Um a roupa de m ocinho, toda cheia de franj as e duas cartucheiras! – respondia im ediatam ente, sonhando ser o Roy Rogers, galã do faroeste no cinem a.

— Não, senhora! Escolha outra coisa – dizia m am ãe, sem saber o que isso significava para m im . Não sei se m e incom odava m ais o “senhora” ou não ganhar a fantasia.

O pior é que, na data natalina, estava no m eu sapato um a cam isola ou um vestidinho novo para estrear. Era feito com o m aior carinho por m am ãe. Era seu j eito de dem onstrar am or por nós, o que m e provocava conflitos terríveis, pois m e via obrigado a entendê-la e, para não m agoá-la, usar algo que detestava.

O m esm o dilem a se repetia nos m eus aniversários. Ganhei poucos presentes de que gostasse. Quando não eram m eus pais m e dando fazendas de florzinha, bij uterias ou perfum es, era o resto da fam ília que se incum bia dessa tarefa. Felizm ente, m am ãe nunca foi de nos em bonecar m uito, em bora o m ínim o para m im j á fosse um inferno.

Ao com pletar oito anos, recebi um a boneca da tia de que m ais gostava.

— É para você ninar e cuidar dela, com o um a verdadeira m ãezinha.

A festa acabou ali.

Na hora de apagar as velinhas, com o em m uitos outros de m eus aniversários, concentrei-m e no m esm o pedido: “Quero ser um m enino com o os outros”.

Devido a esta absurda defasagem entre a m inha autoim agem e a que faziam de m im , descobri, quase instintivam ente, que na fantasia estaria a gratificação de ser reconhecido.

Considero essa solução a balsa salva-vidas com a qual qual consegui sobreviver a tantos desencontros. Delineada pelas m inhas necessidades vitais, m oldei-a de um a form a que podia adaptá-la à realidade.

Surgiu o “Zé e Zeca”. Para Van, era apenas m ais um a brincadeira. Nós éram os dois hom ens viúvos – para explicar a ausência de esposas – e com m uitos filhos, que eram as bonecas.

Morávam os no quintal da casa dos patrões, onde construím os um barraco com a rede aberta em cim a da escada e um m onte de j ornal pendurado com pregador de roupa com o paredes. Quando chovia, pegávam os todos os guarda-chuvas da casa e abríam os em cim a do nosso barraco. Tinha três peças: o quarto das crianças, o vão interno da escada, que era a sala, o outro côm odo, que era a cozinha, onde fazíam os com idinha. Varrer o quintal era um trabalho, pago com folhinha de fícus. Ir à escola era trabalhar no escritório. Engraxar os sapatos da fam ília inteira, nos fins de sem ana, chegava a ser prazeroso. Todas as dificuldades se j ustificavam porque “vida de pobre é assim m esm o”, e tínham os de agradar os “patrões”.

Minha vida m udou. As atividades de antes tinham agora um novo sentido.

Não só ganhou finalidade com o consegui ser tratado no m asculino, pelo m enos pelo Zé. Eu era o Zeca. Com binam os que seria um segredo só nosso, evitando assim a introm issão de outros. A única concessão era quando nossa prim a ia dorm ir lá em casa. Virava o Zico.

Eu perm anecia quase o dia inteiro nessa fantasia, enquanto m inha irm ã só nas horas de folga. Tentava convencê-la de que a brincadeira era m ais im portante do que a realidade, m uito chata. Nunca consegui, porém , que se envolvesse tanto quanto eu.

As tarefas na fantasia eram as m ais variadas. Ao j ustificar a “necessidade” de varrer o quintal, por exem plo, porque a “patroa” pediu, não discutíam os se a tarefa era m asculina ou fem inina, boa ou ruim . Tratava-se de um a relação de trabalho. A graça era tam bém nos sentirm os úteis, produzindo, pois, com o crianças, não tínham os nenhum a im portância social.

A escola era nossa única obrigação. O resto do tem po era para brincar. De vez em quando, aj udávam os em algum a tarefa da casa, porque gostávam os de desfazer o m ito de que, em geral, criança quebra a louça, não sabe fazer nada direito, term ina atrasando ou dando prej uízo no serviço do adulto.

Meu m odelo m ais fiel para assum ir a personalidade do Zeca e saber com o agir em determ inadas circunstâncias era o seu Sebastião. Hom em hum ilde, pintor de paredes, m orava na parte coberta da garagem . Tornou-se um agregado da fam ília, fazendo pequenos serviços para retribuir a m oradia gratuita: consertava o ferro elétrico, pintava a casa ou lavava o carro. Exatam ente com o Zé e Zeca.

Fascinava-m e sua engenhosidade sim ples e criativa. Observava-o no seu pequeno e organizado aloj am ento. Construiu prateleiras, onde guardava pequenos obj etos: o copo com a escova e a pasta, a saboneteira – encaixada ao lado –, um pacote de biscoitos, que m e im pressionava porque nunca acabava – tinha com edim ento para guloseim as, coisa que eu não entendia. A cam a era coberta por um a colcha velha, toda rem endada por ele. As duas calças e cam isas, um a de trabalho e outra de passeio, ficavam penduradas num a carcaça de m adeira. Construiu um a caixa de Eucatex para colocar um chassi de rádio com botões de sua invenção. Os sapatos tinham sido do papai e ficavam em baixo da cam a. Atrás da porta, um vidro cheio de pincéis de todos os tam anhos. Na parede, um quadro de São Sebastião, a quem devia o seu nom e. Com em orava seu aniversário no m esm o dia do santo. Descobri m ais tarde, num a de detetive, que a data em que fazia anos era outra nos seus docum entos.

A fam ília tinha ficado na terra natal. Enviava um dinheirinho quando podia. Seu bom hum or era constante. Quando chegava, ligava o rádio. Ficava na garagem , sem perturbar ninguém . A única coisa que m e enchia o saco era m e tratar por “senhorita”. Em bora pudesse com preender que era assim que m anifestava seu respeito, sentia-m e trem endam ente incom odado.

Num a terça-feira chuvosa, em que não tinha nada para fazer, tentei encarnar a figura de seu Sebastião. Aproveitei sua ausência, entrei em sua “casa” e repeti ritualm ente o que ele costum ava fazer. Deitei-m e em sua cam a, liguei o rádio e fiquei olhando um tem pão para o teto. Achei cansativo. Ensaboei o rosto (ele não usava crem e de barba) e raspei-o com o aparelho que estava em cim a da pia. Em seguida, lavei-o e penteei o cabelo. Segurei o pente com as duas m ãos, do m esm o j eito que ele. Mas não adiantava... Eu não conseguia sentir, fazendo, o m esm o que sentia vendo-o fazer.

Mais tarde, descobri um nom e para essa sensação: “gostosinho”. Era um j eitinho gostoso de executar certas coisas. Era o acolhim ento de estar escondidinho dentro do nosso barraco em dia de chuva, ou de puxar o dinheiro de dentro da nossa caixa registradora. Era ver a habilidade da em pregada ao m anej ar a vassoura no ar, m udando habilm ente, o lado da varrida, conseguindo puxar a suj eira dos m enores cantinhos. “Gostosinho” era o arrum adinho do seu Sebastião, o encaixe perfeito de certas tam pas fechando cofres ou caixinhas m iúdas.