Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 50 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 11

 

PACIÊNCIA

 

Mesmo quando tudo pede

Um pouco mais de calma

Até quando o corpo pede

Um pouco mais de alma

A vida não para...

Enquanto o tempo

Acelera e pede pressa

Eu me recuso, faço hora

Vou na valsa

A vida é tão rara...

Lenine

 

Yuri tinha oito anos quando Sandra veio m orar com igo.

Continuava risonho e na escola era um aluno m edíocre, com o eu tinha sido. A m aior diferença entre nós dois era o ritm o. Eu, m uito ansioso. Ele, descansado dem ais. Era o últim o a sair da sala, a entregar a prova com questões não respondidas, por falta de tem po. Assim era para com er, tom ar banho e se arrum ar.

— Meu filho, você tem de engolir o relógio...

Parecia m ais filho de Sandra do que m eu. Ela tam bém era um a pessoa lenta e detalhista. Trabalhava num a biblioteca, restaurando e catalogando livros. Dedicada ao trabalho, optou aos 36 anos por não ter filhos. Um a m ulher m adura, sem crises de ciúm e e com espaço próprio.

Yuri percebia que não era igual aos outros. Não gostava de futebol nem m ij ava com igo. Sabia que podia chorar e m anifestar suas em oções. Não era alto nem sabia bater. Ensinei que o im portante é o diálogo, m elhor que a porrada. Sua vantagem era que as m eninas o adoravam , era o preferido para conversar porque elas se sentiam com preendidas.

— Sej a gentil e cavalheiro com as m ulheres, filho, elas adoram .

Depois de dois m eses praticam ente m orando j untos, perguntei à Sandra:

— Não é m elhor se m udar de vez para cá, em vez de ter de ir todo dia em casa antes do trabalho?

Adorou a sugestão. Brincávam os dizendo que agora, depois de “casados”, é que estávam os nam orando.

Sandra ficou encantada com a chance de ser um pouco m ãe. Era carinhosa e lhe dava m uitos presentes. Yuri adorava sua calm a e a adm irava por ensinar-lhe inglês.

Nessa época, o prim o Ciro, instrutor de paraquedism o, convidou-o a saltar. Foram de carro até Resende. Foi um salto duplo, film ado e fotografado. Ele m e contou depois que, quando olhou para baixo, viu a m orte. Mas que logo depois a esqueceu. Chegou cheio de coragem e confiante. Só daria o segundo salto cinco anos depois.

Passado algum tem po, Sandra precisava ir a um congresso em Ouro Preto, Minas Gerais, e decidim os ir j untos, nós três. Seria nossa prim eira viagem . Logo no segundo dia, depois de Congonhas do Cam po, assistim os a um acidente na estrada bem à nossa frente. Um a cam inhonete capotou num a curva por causa da chuva forte. Eu e Sandra conseguim os socorrer o casal de idosos, tirando-os do carro pelo vidro traseiro. Pelo celular, o senhor pediu aj uda. Yuri ficou m uito assustado, disse que parecia um pesadelo.

Mas logo foi envolvido pelo encantam ento da paisagem , o ferro nas m ontanhas e por tantas novidades. Subindo e descendo as ladeiras históricas, visitam os as igrej as decoradas com ouro, a senzala da casa dos Contos, ouvim os um recital barroco em que um m enino da idade dele tocava violino.

Enquanto Sandra estava no congresso, aproveitam os para visitar a m ina da Passagem de Mariana, onde se desce 120 m etros num trenzinho. Yuri se sentiu o próprio explorador, catando pedras que dizia serem de ouro. Na saída, o guia garim pou um pouco de areia num a bateia e colocou na palm a de sua m ão dois grãozinhos de ouro. A reação que teve m e fez lem brar de m im m esm o, quando apertei a m ão de Yuri Gagárin, o prim eiro hom em a ir ao espaço, na visita que fez ao Brasil, logo depois de sua proeza, em 1961: disse que nunca m ais lavaria as m ãos... Na m inha aventura, eu tinha conseguido m e aproxim ar dele durante um a hom enagem no Sindicato dos Metalúrgicos, no Rio de Janeiro, e lhe disse “por favor” em russo, que aprendera com m inha irm ã: “Paj álusta!”. Ele sorriu e m e deu um retrato dele autografado. Nossa, quanta em oção.

Aproveitei para sondar Yuri se gostaria de m orar conosco e o que queria ser quando crescesse. Respondeu que preferia passar um ano com cada um , com o a m aioria dos filhos de pais separados. E que pretendia ser professor de dança, cientista ou detetive com o o Sherlock “Gom es”...

Depois de arregalar os olhos com a “m ágica” da Ladeira do Am endoim , em São Tom é das Letras, onde o carro parecia subir sozinho, chegam os à Fazenda do Seu Ram ón, em São Lourenço, onde passei m uitas férias com a fam ília, quando era criança. A filha m antinha o negócio do pai falecido, um hotel-fazenda. Lá estavam as j abuticabeiras, sím bolo de fartura que m inhas m ãos não conseguiam conter ao longo dos troncos carregados. Ainda nos deliciam os do m esm o doce de leite artesanal com que queim ávam os a língua com a raspinha do tacho ainda pelando.

Ao chegar a Niterói, Yuri estava apressado, queria conhecer o cachorrinho que tinha acabado de ganhar da m ãe. Deu-lhe o nom e de Boy.