Viagem Solitária
Capítulo 5
CORPO TRANS-TORNADO
É na angústia que se anuncia o estado do qual se deseja
sair, e é a angústia que proclama não bastar o desejo para que
daí se saia.
S. Kierkegaard
Transform ei-m e literalm ente num m arginal, pois vivia à parte, à m argem . Não pertencia nem ao grupo m aj oritário heterossexual e aceito, nem a qualquer grupo m inoritário e discrim inado. Não m e sentia m ulher nem hom ossexual. Ainda desconhecia todas as categorias “inventadas” em m eados do século XX. Sabia que não era aprovado pela m aioria. Em que grupo existente m e enquadrava?
Algo errado havia. Se fosse um a doença, onde e com o? Não inspirava pena ou com paixão. E com o explicar m inha refinada sensibilidade, que m e fazia ter um a doída lucidez, a ponto de viver m inhas fantasias tão intensam ente sem perder o senso de realidade? Por essa incom patibilidade da m inha m ente com as partes do m eu corpo, num a inversão total de im agem , tornei-m e, cada vez m ais, um ser angustiado. Além de tudo, cônscio de que argum ento algum poderia m e j ustificar.
Bebi angústia pura.
Quando sentia m edo, pelo m enos pressupunha um obj eto, um a am eaça, algo que eu pudesse de algum m odo contornar ou dele fugir. Porém , nessa angústia nada m e am eaçava claram ente. Não havia um obj eto a ser enfrentado para prosseguir m inha estranha cam inhada existencial. Percebi, então, que o “sem sentido” e o “sem valor” da m inha angústia m e tornavam um estrangeiro neste m undo tão cheio de categorias. A ironia era precisar de um rótulo, do que todos tentam fugir.
Aos nove anos, m inha m ãe, assustada com o m eu com portam ento, levou-m e a um a psicóloga. Era um a m ulher m eio gorda, m eio m ãe, que sorria para m im e parecia interessada em tudo o que eu contava. Gostava de ir ao consultório. Desenhava, conversava e m e sentia à vontade para confessar alguns segredos. Falei das caronas que pegava na traseira dos bondes quando voltava do colégio. Só m oleque fazia isso. Não entendia direito por que m am ãe m e levava lá, m as tam bém nunca m e preocupei em perguntar. Só aos 19 anos lem brei-m e desse fato, e m am ãe m e esclareceu. “Com portava-m e com o um m enino, e ela gostaria de saber o porquê da m inha conduta e com o deveria agir com igo.”
O diagnóstico indicou que era fixado no m eu pai, com um a necessidade de im itá-lo por ser a filha do m eio. Assim , tentava m e sobressair para ter m ais atenção e afeto. Minha m ãe não deveria m e forçar, im pingindo-m e roupas fem ininas ou coisas do gênero, pois tudo passaria com a idade. Não lem bro que exam e pediu, m as papai reagiu: “Filho dele não era doente, nem anorm al”.
O m eu m aior m edo continuava sendo o de crescer, de m e tornar um adolescente. Pressentia que em breve teria de assum ir m inha figura fem inina e de exercer o papel correspondente. A infância era um a espécie de álibi. “Não tinha sexo.”
Ouvia dizer constantem ente que, quando entrasse na adolescência, m e tornaria um a m ocinha. Só de escutar essa palavra, sofria um baque. Soava com o um a punhalada na m inha im potência. Não podia fazer nada para evitar essa terrível sina. Isolava-m e num canto, num choro perdido de criança desam parada.
Apesar de não querer acreditar, o fato se tornou categórico. Depois dos 12 anos, não haveria m ais saída, diziam -m e todos. Essa tinha sido a idade escolhida para o térm ino da infância.
Quando com pletei o 12o aniversário, não quis nem acordar. Seria o m eu últim o dia de Peter Pan. No outro, j á deveria ser um a m oça. Que m assacre!
Não m e lem bro do que aconteceu depois. Só sei que vivi num a angustiante expectativa de quando isso iria realm ente acontecer.
A coisa com eçou a aparecer aos 14 anos, quando veio a prim eira “m onstruação”. A ideia de aquilo ter vindo de dentro de m im m e repugnava. Evidenciava um a série de órgãos, horm ônios e funções que eu sabia existirem , m as que, felizm ente, não podia ver.
A dose foi cavalar. Acom panhando a m onstruosidade, os seios insistiam em nascer. Aí foi dem ais! Com o se j á não bastasse todos m e tratarem no fem inino, não entenderem m inhas vontades, não poder fazer nada do que os outros m eninos faziam , ainda tinha de aguentar o que m e brotava do corpo, à revelia.
As evidências no m eu próprio corpo m e obrigavam a ser visto com o um a m ulher.
— Merda! – bem alto, com todas as forças dos m eus pulm ões. Olhei-m e nu no espelho do quarto. Analisei-m e em todos os ângulos. E tudo, absolutam ente tudo, estava fora do lugar. O que sobrava em cim a faltava em baixo e vice-versa. Minha alm a não se conform ava de ter de se expressar por m eio daquele m onte de carne, sobre o qual não tinha podido decidir nada. Foi-m e im posto sem pedir licença, para a form a, para o conteúdo e todos os papéis que, obrigatoriam ente, carregava j unto. Não conseguiria m e subm eter a esta sociedade pronta e chauvinista. Não sou isto! Esm urrei a parede até não aguentar a dor. Agora estava irrem ediavelm ente perdido. Que m ulher vai se excitar com um hom em que tem um a excrescência dessas? E pegava nos peitos, am assando-os, com o se fossem um excrem ento podre para se j ogar fora. Cadê o pau para ter relações sexuais? E puxava o clitóris com toda força, com o querendo agigantá-lo, arrancá-lo da terrível escuridão. Merda de vida! Cocô de existência! Tudo é trem endam ente estúpido e grotesco! Seu aleij ão, só lhe resta m esm o chorar pelos cantos... Ensandecido de revolta, tom ado de autocom iseração e m ais um turbilhão de em oções m utiladoras, escarrei então no espelho, com o se fosse no m undo. E escorregando com as m ãos espalm adas na própria gosm a, fui desm oronando lentam ente, até m e prostrar no chão.
Fiquei um a sem ana praticam ente trancado, trancafiado com igo e com o m undo. Quem foi o im becil que disse que a natureza é perfeita? Pela prim eira vez pensei neste Deus, pelo qual todo o m undo babava.
Se existe, sacaneia seus filhos e ainda por cim a tira um a de santo. Vivem dizendo que é preciso se am ar, am ar o próxim o, m as com o posso? Vão todos para o inferno, com seus princípios enfeitadinhos!
Com essas explosões não obtinha nada, m as m e acalm avam e m e tiravam do “encasulam ento”. No fundo, sabia que nem Deus nem ninguém tinha culpa. Ele não era sequer forte e consistente para existir em m im . Era um a brilhante invenção, m as que nunca tinha m e servido para nada. Eu não fui criado em nenhum a religião e, portanto, desconhecia as m uletas m ísticas, às vezes tão úteis para o reconforto.
Passei a tarde pensando. Vislum brei duas saídas: acabar com igo ou lutar contra o im possível. Não queria m orrer. Sabia que só teria um a vida. Em bora fosse um a desgraça, toda trocada, não haveria outra chance. Estava vivo sem com parações. Optando pela segunda alternativa, tinha de arranj ar urgentem ente algo que m e elevasse o m oral e m e fortalecesse para poder seguir em frente.
Aos 13 anos, resolvi botar em prática um antigo desej o – dedicar-m e aos esportes. Iria m e fazer bem , pois conseguiria obter adm iração, aum entar m inha autoestim a. Seria um a tentativa de m elhorar m eu físico, tornando-o m ais m usculoso, m ais de acordo com igo. Treinava com o um desesperado. Mal a piscina do clube abria, lá estava eu no tram polim para executar um salto ornam ental. Escolhi um esporte que exigisse coragem , que fosse individual e que m e pusesse em contato com a água, pois sem pre fui m uito calorento.
Ia para o clube de bicicleta, em bora isso tam bém fosse m otivo de chacota. Todos m e consideravam um a “m ocinha”. Na época, não pegava bem m e prestar a esse tipo de atividade tão infantil. Após estacioná-la, seguia direto para o vestiário. Não parava no bar, com o as outras j ovens faziam , com a finalidade de paquerar ou se exibir para os rapazes. Treinava sem descanso até escurecer.
Em bora com petisse na categoria fem inina, o am biente era basicam ente de rapazes. Sentia-m e bem , ao ser tratado com igualdade por todos, inclusive pelo m eu treinador. Sabia de alguns com entários a m eu respeito, e por isso m e esm erava m ais ainda para adquirir um a boa form a com o atleta. Apesar de ridicularizarem o m eu j eito, acabei sendo respeitado pela seriedade, pela dedicação e pelo destem or.
Com dois m eses de treino, ultrapassei, em técnica e estilo, m uitos saltadores. Fui então convidado a participar do cam peonato nacional, em São Paulo, concorrendo ao Troféu Brasil Arthur Buzin.
A viagem m e fortaleceu. Não só porque era a prim eira vez que m eus pais depositavam confiança em m im para viaj ar só, m as porque consegui vencer o torneio.
Fom os para um desses aloj am entos de atletas. Fiquei, logicam ente, no quarto das m oças. Havia um a grande quantidade de beliches e m uitas garotas de outras localidades. Deslocado no m eio daquele m ulherio, onde os interesses e os gostos eram com pletam ente distintos dos m eus, fui m e deitar cedo, logo após o j antar.
Sem pre gostei de dorm ir e acordar cedo. Hoj e entendo bem o porquê disso. A m anhã m e inspira um a sensação de com eço, de esperança, de possibilidade de m udanças, e por isso adoro, até hoj e, abraçá-la desde o com ecinho.
Ser atleta tinha outro valor essencial. Pertencia a um a equipe, a um clube. Havia entre nós um a série de códigos, gírias específicas de saltador, características que m e com prom etiam em ocionalm ente com um grupo. Tínham os o m esm o obj etivo, e eu era um a peça fundam ental. Foi a prim eira vez que m e senti im portante e necessário. O treinador acreditava em m im . Tratava-m e com carinho, em bora m ais tarde viesse a saber que tam bém para ele eu era m otivo de pilhéria e gozação.
Na m anhã da com petição, tom am os um café leve e nos dirigim os para o Clube Palm eiras, local da com petição. Fazia um frio cortante, e a fase de aquecim ento ficou reduzida. Ninguém aguentava m ergulhar naquela água gélida.
Concorria no tram polim de um m etro, na categoria infantoj uvenil, pelo Clube Flum inense, e executei quatro saltos da série obrigatória. A “grande nota” da com petição foi o m eu “sim ples de costas”, um a espécie de “anj o” para trás. Entrei “agulhando”, sem levantar um a só gota d’água. Graças a esse salto, levantei o título de cam peão nacional. Ergueram -m e nos om bros, e dem os a volta olím pica em torno da piscina. Senti-m e trem endam ente feliz por estar vivo naquele m om ento!
A glória foi ter voltado com um troféu. Achei-o um pouco pequeno, m as era um início brilhante de carreira.
Os saltos continuaram até os 16 anos, acom panhados de 29 m edalhas, em bora todas ganhas em com petições com m ulheres. Incom odava-m e essa distinção de categorias por sexo. Sem pre ficava no lado errado. Além do m ais, os saltadores hom ens eram considerados os m elhores em técnica e bravura.
Na noite em que venci o torneio, o treinador disse que eu poderia escolher o lugar aonde quisesse ir para com em orarm os. O clube arcaria com as despesas, j á que eu lhe tinha dado um troféu.
Não titubeei:
— Quero ir ao parque de diversões!
Aos 14 anos, ainda m e interessava por bolas de gude, circo, j ogar futebol e andar de carrinho de rolim ã. As m eninas da m inha idade aspiravam a usufruir as vantagens do sexo fem inino, e quase todas j á tinham nam orado.
Meu com portam ento com as m ulheres, tanto no âm bito esportivo com o no escolar, dem onstrava duas facetas nítidas: arredio e palhaço. Arredio, na m edida em que m e esquivava das conversas e do que gostavam de fazer j untas. Palhaço, porque precisava ser am ado e adm irado por elas. Brincando e contando anedotas, fazia o gênero “m aluquinha”, o que j ustificava em parte a m inha aparência desengonçada. A im pressão que deixava era m ais de sim pática do que de m onstruosa. Defensivam ente, agia de form a tal que canalizava a atenção dos outros para características diferentes das do m eu verdadeiro estigm a. Era um a espécie de pista falsa, de conduta desidentificadora, para evitar os rótulos tão incôm odos.
Os saltos iam m e deixando com um a com pleição m ais m áscula.
Fortaleci-m e tanto física quanto em ocionalm ente. Continuei a reagir ao crescim ento natural e grotesco do m eu corpo. Felizm ente não m e acom odei. Considero sadio o fato de ter lutado sem pre contra esses inim igos tão capciosos. Não m e entregava m ais à apatia ou ao desespero. Meu recurso rudim entar era esm urrar os seios, até onde conseguisse suportar a dor. Dava então um a parada, obtinha novo fôlego e recom eçava outro round. Minha intenção era em purrá-los para dentro. Atrapalhar algum sistem a endócrino, conseguindo estacioná-los. Essas autossurras só term inaram quando desconfiei de que não só continuavam crescendo, com o os m urros talvez estivessem servindo de m assagem para aum entá-los!
Um a das consequências desse nascim ento “não grato” do m eu corpo foi que desenvolvi um a postura arqueada. Tornei-m e corcunda, com o um a form a de chupar o peito para dentro e não exibir os dois execráveis apêndices.
Quanto à m onstruação, usava igualm ente m étodos violentos. Ignorava as eventuais cólicas. Bastava surgirem para ir fazer ginástica ou saltar. Era com o provar a m im m esm o que podia ser m ais forte do que o que acontecia com igo. Um desafio!
O que m ais m e deprim ia nessas periódicas visitas é que elas m arcavam o início de um a possível função, com pletam ente estranha e antinatural para m im – a de ser m ãe. Sem pre recusei essa form a de fertilidade. Nesse tem po, j á sentia ânsias nítidas de paternidade.
Term inei indo à Dra. Elizabeth, um a ginecologista obstetra am iga de m eus pais, que depois teria um a enorm e im portância na m inha vida. A m onstruação vinha de seis em seis m eses. Essa dem ora m e deixava eufórico, porque achava que m eu psiquism o estava conseguindo bagunçá-la. Quem sabe até poderia elim iná-la por com pleto? Outro m otivo é que havia a curiosidade de ouvir um a opinião abalizada sobre o m eu problem a, se era ou não um caso de intersexo. Caso fosse confirm ado, teria então a grande desculpa física e nosológica, a única j ustificativa aceita pela sociedade brasileira para m udanças relacionadas ao sexo. A Medicina só m udaria a visão de que tais cirurgias eram um a “m utilação do ser hum ano” quase 20 anos depois.
No entanto, com o tem ia, ouvi a funesta palavra “norm al”. Eu não possuía um clitóris m ais desenvolvido, apesar de tê-lo puxado a infância inteira, o que não m e excitava nem era um a form a de m asturbação. Indubitavelm ente sentia certo prazer em segurá-lo, pois, afinal de contas, era algo externo e pendurado. Entretanto, ouvi o belíssim o veredicto de que não ovulava. A doutora prescreveu-m e uns rem édios. Tom ei-os por um tem po, só porque soube que continham horm ônios m asculinos. Com o vi que não nascia barba, parei. O que m enos m e interessava era passar a ter um a ovulação certa e regular.
Minha crise corporal foi dolorosa e confusa. Ao m esm o tem po que m eu corpo era eu, tam bém não o era. Quando tom ava banho, por exem plo, sentia que não dava banho num corpo estranho, m as em m im , queria m e sentir lim po. Quando havia um m achucado, tratava dele, poderia ser até com um a postura de m édico, m as com a finalidade últim a de ficar bom . A própria gesticulação – os trej eitos das m ãos e do rosto – transm itia o que sentia e queria dizer. No entanto, era por interm édio desse m esm o corpo que as pessoas m e confundiam com um a m ulher!
Com ecei a fazer ginástica sozinho, j á que não existiam as academ ias. Adquiri um a boa m usculatura, chegando m esm o a um a grande desproporção entre os om bros largos e os seios. Senti-m e m ais integrado ao m eu corpo. Ao m e olhar agora no espelho, esforçava-m e para só ver o que m e envaidecia. Um a vez, experim entei colocar dentro das calças um obj eto cilíndrico, para sentir a prazerosa sensação de ter um pênis grande. Deleitei-m e por uns instantes, até pressentir que, se não o tirasse im ediatam ente, iria cair num a profunda depressão, por saber que aquilo era um obj eto artificial, que não m e pertencia e que não podia com andar, o qual em breve sairia dali para ir novam ente para cim a do m óvel! Às vezes, algo m e im pulsionava a recolocá-lo, m as a consciência da realidade e a dor do ridículo predom inavam , e não o fazia. Daí ter m antido por m uito tem po a posição de que j am ais usaria nada artificial para o ato do am or. Teria de m e virar com m eus próprios recursos. Queria que, no dia que acontecesse, fosse tudo m uito natural. Mas com o se o “desnatural” estava em m im carim bado?