Viagem Solitária
Capítulo 2
ROCK IN RIO I
Meu amor se nutre do teu amor, amada,
E enquanto vivas, estará em teus braços,
Sem sair dos meus.
Pablo Neruda
Em 1985, tínham os oito m eses de casados quando Lola foi com igo ao Rock in Rio I. Saltam os naquele m undão enlam eado, esperançosos de divertim ento. Ser j ovem naquele território livre j á era um ato de cum plicidade.
Depois das filas do ingresso, da cervej a e do banheiro, im pacientes por beberm os m ais de perto aquele sonzão que vinha do tão propagado palco m óvel de m ilhões de watts, fom os assediados por dois rapazes. Procuravam fogo e, ao que parece, literalm ente. Um agradecim ento, um sorriso, um convite para irem todos j untos à Meca dos ídolos.
Eu m e vi, repentinam ente, num único abraço com os dois. O que im portava era o clim a de encontro, a verdadeira e esperada confraternização, nem que fosse por m eio do festival de clim a tropical brasileiro.
Ingenuam ente feliz, repartia m eu copo com os dois recém -irm ãos adotados, esquecendo-m e m esm o da m inha m ulher.
Ela nos acom panhava, ora m ais atrás, ora m ais à frente. E talvez por esse esquecim ento, o m ais baixinho, subitam ente, arrebanhou m inha m ulher, beij ando-a efusivam ente na boca.
Eu, o m arido, que acabava de desenterrar a cara do copo, fiquei assistindo à cena. Paralisado e engasgado por beber m ais em oção do que cervej a. Confiando na experiência dos m eus 34 anos, se é que valia de algum a coisa, dei um a relaxada, porque sabia que aquilo não acabaria em trepada. Eu ali m e sentia o dono da situação, o que não elim inava m inha cara de idiota.
Repentinam ente, resolvi ficar por cim a – não sabia exatam ente de onde ou do quê – e com o que perm itindo a traição, num gesto tolo, tentei aliciar o outro, com o testem unha.
— Olha só o que o seu am igo está fazendo com a m inha m ulher! – e ainda repeti m ais um a vez a frase, com o se fosse possível ao outro despertar da bebedeira diretam ente para a m oral da fidelidade conj ugal.
— Deixa para lá, cara. Ele j á tá m eio doidão – retorquiu de m odo conciliador, com a boca m ole.
Antes que pudesse esboçar qualquer outro gesto, o beij oqueiro pegou o copo da m inha m ão. Abraçou-m e e se j ustificou:
— Calm a! Calm a! Não precisa ficar tão nervoso. Hoj e tô num a de paz, de am ar todo m undo...
Resolvi com preender o tesãozinho irresponsável do am igo e no íntim o não deixei de adm irá-lo pela ousadia.
Novam ente o trio m asculino abraçado, e m inha m ulher m ais distante, repetiu-se a cena. Em um novo ím peto, o baixinho se desgarrou, rodeou Lola e a agarrou num beij o caloroso, alisando tam bém seus peitos, com o se adivinhasse que essa seria sua últim a chance.
Agora deixava de lado a im portância crédula do clim a “am orosam ente grupal”. Com eçava a questionar a inocente passividade de Lola. Sentia-m e m ais am eaçado pela perm issividade dela do que propriam ente pela coragem do garanhão. Obrigado a tom ar algum a atitude para interrom per o crescim ento doloroso e visível dos m eus chifres e, ao m esm o tem po, sem querer ser um usurpador de direitos, acabei, sem nenhum a originalidade, repetindo a m esm a reação anterior: irradiando o que acontecia ao outro, dem onstrando, assim , um a educada indignação.
E quando o sedutor, tam bém sem originalidade, tentou novam ente o álibi do “am or com unitário”, Lola resolveu evitar que tudo descam basse para o “ódio com unitário”. Com cara de currada arrependida, tentou m e acalm ar.
— Meu am or, só quero ficar bem com você. Esqueça tudo isso, e vam os em bora daqui.
Tentando m e agarrar a essa m entira, deixei assim de ser o m acho traído, para m e portar com o o defensor de m ocinhas desam paradas e im portunadas.
Fortalecido, virei-m e colérico para o atrevido e desafiei:
— Se você está am ando todo m undo, quero que beij e tam bém aqui na m inha boquinha – e bati com os dedos insistentem ente nos m eus próprios lábios, com o se fosse um a latrina pública.
O m achãozinho não gostou. Coraj osam ente drogado, ainda disse que a m inha m ulher era m uito gostosa e que não tinha culpa disso.
Eu, ex-intelectual, ex-m ilitante estudantil, lem brei-m e de todo esse passado e, paternalm ente, controlei-m e, afastando-m e com Lola para o outro lado da arena.
No fim , não se soube quem lucrou m ais: se eu, que angariei a adm iração da m ulher, se o sedutor, que conseguiu alguns beij os, ou se ela, que, com o vítim a indefesa, degustou a traição, com o consentim ento e a com preensão do m arido.