Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 15 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 9

MERCEDES

 

Amamos a vida não porque estejamos habituados à vida,

mas ao amor.

F. Nietzsche

 

Eu e Mercedes fom os colegas no curso Norm al. Perseguia-m e onde estivesse com desculpas de aproxim ação. Para traduzir textos de francês e m e dar presentes. Até tom ar coragem e m e confessar um dia que se apaixonara. Não sei se por estar ainda sob o im pacto do térm ino com Dolores, não dei bola. Na verdade, nem a olhava direito. Gostava apenas de ouvi-la falar com carinho dos am igos e dos sonhos.

Os anos se passaram , e não nos vim os m ais. Havia m udado de colégio. Ela parecia ter perdido as esperanças de m e conquistar.

Repentinam ente, aconteceu o inexplicável: sonhei que a beij ava efusivam ente. Acordei ainda sob o im pacto da sua boca. Por um a incrível coincidência, um a sem ana depois m e ligou. Marcam os um encontro. Ao revê-la, senti que para m im algo havia m udado.

Foi um a paixão repentina, m as que durou seis anos. Ela m orava em Cascadura, um subúrbio do Rio.

Minha ideia de sair de casa só se concretizou com ela, aos 22 anos. A saída em si foi relativam ente tranquila. O inconveniente foi ter feito o enxoval às escondidas.

Mercedes não era bonita, pelo contrário, um pouco dentuça e de pernas finas. Entretanto, era extrem am ente charm osa e fem inina.

Quando a conheci, m orava com a m ãe, a avó e um a prim a j á idosa. O pai abandonara a casa quando ela tinha dez anos. Desde então, a velha m ãe dava duro no “alicate” para sustentar a fam ília. Era m anicure há 30 anos. Tanto o corpo com o a m ente j á tinham se m oldado às deform idades da profissão. Acostum ara-se a ouvir de tudo com as freguesas. Porém , quando num a conversa franca lhe disse que nos gostávam os, confessou que preferia sua única filha m orta a ter de aceitar vê-la viver com um a m ulher. Foi um a parada m eio indigesta. Com os anos, diante da felicidade da filha, acabou se rendendo com pletam ente. Fazia até m eus pratos prediletos no dom ingo, só para irm os alm oçar lá. Inesquecível sua língua de boi ao m olho de m açãs! Preparava bolos m aravilhosos, sem pre com m anteiga, para ficarem leves. Para retribuir, consertava em sua casa pequenas coisas que iam quebrando no dia a dia. Cheguei a fazer um a obra e trocar todos os azulej os do seu pequeno banheiro.

Foi com o táxi que consegui m anter o aluguel do apartam ento. Saía nele cedo para a faculdade, trocava a cam isa, tirava a gravata e assistia às aulas. Com ia qualquer coisa no bar e ia trabalhar. Norm alm ente, a labuta era durante o dia, m as, quando m e via obrigado a com pletar o dinheiro do aluguel e a prestação do táxi, prosseguia à noite.

Tive vários m otivos para considerar essa fase um a das m ais decisivas para o m eu crescim ento: passei a m e sustentar e a ter as responsabilidades que um a casa exige. Senti então, de form a m ais nítida, o peso da m arginalização, pois havia m e casado, em bora a fam ília ignorasse.

Nesse período assum i a identidade social m asculina.

Quando solteiro, era visto com o m ulher-m acho e, poucas vezes, confundido com um hom em .

Um dia, por acaso, ao sair de casa, esqueci a bolsa a tiracolo. Fiquei surpreso ao constatar que ninguém na rua m e olhava! Deduzi que, se m e aperfeiçoasse m ais nos caracteres m asculinos, passaria com pletam ente despercebido. Obtive, assim , vantagens na esfera social. Um a liberdade que nunca antes havia desfrutado. Podíam os cam inhar abraçados e até nos beij ar em plena rua. Finalm ente vivenciava, no nível da realidade, m eu verdadeiro gênero.

Mercedes m e incentivava. Com prava roupas de hom em e m e tratava no m asculino, perante os desconhecidos. Escolhem os um apelido neutro, com o qual m e cham ava em público. Mas a confusão com eçou a se form ar quando, no m eio de conhecidos e fam iliares, era obrigada a m e tratar no fem inino.

Com Mercedes, tom ei m ais coragem de enfrentar situações em que punham em risco a m inha segurança. Quando íam os a um a loj a m asculina para experim entar um a roupa, e o vendedor queria entrar com igo na cabine, ela im ediatam ente o cham ava de lado, com um a desculpa qualquer, retendo-o tem po suficiente para que term inasse a prova. Em bora sem pre com prasse cam isas m eio largas e com bolsos na altura do busto, constrangia-m e que o vendedor a exam inasse no m eu corpo.

Um dos m eus grandes desej os era poder usá-la m ais j usta e andar em pertigado, sem a necessária e constante corcunda.

No m eu aniversário, Mercedes m e presenteou com um a cam isa social preta Pierre Cardin, sem bolsos e com abotoaduras. Vibrei de contentam ento. Fiquei pensando num j eito de estreá-la sem m e com prom eter. Finalm ente com prei um a faixa de gaze larga, daquela que se usa para entorse, e enrolei m eu tórax. Ficou tão apertado que m al podia respirar. Prendi-a com esparadrapos. Não podia fazer m ovim entos bruscos. O inconveniente m aior era quando a faixa com eçava a afrouxar, devido ao contínuo sobe e desce do diafragm a. Via-m e obrigado a achar um banheiro urgente para refazer o arranj o, antes que caísse tudo. Hoj e j á existem bandagens e “corpetes” prontos para esse fim .

Andar vestido de hom em na rua fazia com que m e sentisse m uito bem . O desagradável era parecer um garotão im berbe, com um a voz de taquara rachada. Com ecei a desenvolver um a observação m ais apurada e m inuciosa dos detalhes do com portam ento social m asculino: gesticulação, hábitos, cacoetes, m aneirism os. Andar com a m ão direita m etida na abertura da cam isa, na altura do peito, era um gesto descom prom issado e bem característico da conduta dos hom ens. Servia-m e com o um dissim ulador.

Sair em público significava entrar em prontidão. Precisava prestar atenção o tem po todo à m inha figura em relação aos outros. Ficava exausto com a preocupação contínua de m anter a voz grossa, os gestos contidos para não perceberem os seios nem a falta do pênis. Paralelam ente, sondava no am biente se havia algum a am eaça de batida policial ou presença de conhecido que pudesse m e denunciar.

Mercedes dava aula e, nessa época, conseguiu trabalhar à noite com o secretária num curso pré-vestibular. Fez-m e um a carteirinha de estudante do sexo m asculino, o que m e perm itiu circular m ais aliviado. Acabaram as confusões na porta do cinem a. A m inha verdadeira identidade j á tinha causado os m aiores escândalos, a ponto de a bilheteira desconfiar de que não fosse m inha. Antes dessa nova carteira, j á tinha passado a pagar inteira, só para não ter de m ostrar m eus docum entos legais.

Esse novo docum ento, em bora precário, serviu-m e para levar Mercedes a um m otel. Queríam os conhecer um e fom os no m eu táxi. Estacionei. Ficou esperando no carro. Não havia entrada direta para autom óveis, com o nos m ais caros e m odernos. Penetrei na portaria, gelado:

— Sua identidade, por favor – solicitou-m e o porteiro.

— Não a tenho aqui agora...

— Então, a carteira de m otorista.

— Tam bém não a trouxe – respondi, tem endo que fosse dar a m aior m erda.

— Mas com o, cara? Você não é chofer de táxi? Pelo m enos a carteira de m otorista você devia ter!

— Tem razão, chefe! Acontece que saí m eio desprevenido. Arranj ei essa garota no cam inho e só tenho com igo a carteira de estudante. Se servir, m uito bem ; se não, vou arranj ar outro m otel.

Já ia dando as costas, quando m e cham ou:

— Deixa ver a carteira. Preenche aí essa ficha.

Com ecei a escrever, tendo o cuidado de não errar o nom e que estava na carteira. Quando chegou o m om ento de botar o da m ulher, fiquei em dúvida. O rapaz, vendo a m inha indecisão, aproveitou para m e zoar:

— Ô, cara, bota aí qualquer nom e. É só para constar. Parece até que nunca com eu um a m ulher!

Subim os. Ao entrar no quarto todo espelhado, o que aum entou m ais ainda m inha agonia, corri direto para o banheiro e assim acabou a noite.

O clim a de tensão em que vivia era perm anente. Constatava essa angústia nos sonhos frequentes que passei a ter, com o m esm o tem a: andar só de cuecas no m eio da rua e, de repente, descobrir que estava tam bém sem cam isa. Saía, então, correndo e nunca encontrava um a porta aberta ou esconderij o onde pudesse m e abrigar. Havia poucas variações no pesadelo. A sensação era de am eaça, vergonha, m edo de ser descoberto e ridicularizado.

O curioso é que tinha todos os m otivos para ser um a pessoa agressiva. No entanto, era dócil e afetivo. Desenvolvi um a razoável capacidade de autocrítica para m elhor m e situar no cam po perceptivo do outro. Estranhava apresentar passividade, quando a revolta, pela lógica, deveria m e dom inar. Por outro lado, m e tornei covarde porque nunca poderia enfrentar a polícia.

Um a cena com a qual raram ente sonhava, e que m e im pressionava pelo conteúdo violento, era a de um hom em desconhecido debochando de m im por ser m ulher. Pegava-o com as duas m ãos pelo colarinho e, com um a força descom unal, batia seguidam ente sua cabeça contra a parede, até m atá-lo. Aí acordava. Era com o se lutasse contra o irrefutável do m eu ser.

Outra consequência de viver duas identidades foi que m eu cam po de ação se restringiu. Enquanto hom em , esbarrava num a série de obstáculos: ir à praia de sunga, urinar em m ictórios públicos (sem pre precisava de reservados para m e trancar), apresentar docum entação, pegar m ulheres na rua. Com o m ulher, tam bém não podia m ais frequentar os m esm os am bientes que anteriorm ente m e eram perm itidos. Minha figura agora j á tinha alguns caracteres de m acho, com o pernas e axilas cabeludas, corte de cabelo bem curto, o que m e im pedia igualm ente de ir à praia, a toaletes fem ininos e apresentar m eus próprios docum entos sem causar escândalo e confusão. Eu era am bos os gêneros e, ao m esm o tem po, não era nenhum dos dois.

Apesar das dificuldades, o fato de deixar de ter um a aparência social am bígua m e deu um enorm e alívio. Além de não ser tão discrim inado na rua, era até aprovado. Um a vez ouvim os dizer que “form ávam os um casal bonito e perfeito”.

Era com o se tivesse tom ado o elixir da legalidade! Quis saborear esse delicioso gostinho. Fui até as últim as consequências que essa “aceitação” pudesse nos perm itir. Tornam o-nos um casal bem enquadradinho nos m oldes vigentes. Mercedes tinha largado o curso noturno e ficou só nas aulas para crianças, num a escola no subúrbio de Paciência. Gastava quase o tanto que ganhava do Estado em passagens. Acabou largando o trabalho de professora. Eu sustentava a casa. Quando aparecia a chance, eu pintava apartam entos de conhecidos para conseguir m ais algum .

Aos dom ingos, íam os alm oçar na casa da sogra, que fazia m eus pratos prediletos. Era quando com íam os bem , pois no resto da sem ana não víam os nem cheiro de carne ou de qualquer produto que pudesse estourar nosso precário orçam ento. Havia dias em que chegávam os a com er apenas pão na refeição.

Em decorrência da pouca grana e do estresse constante da situação, passam os a ficar irritados e proj etando nossas frustrações um no outro.

Aos poucos, Mercedes foi relaxando com o dona de casa. Tive de abrir m ão da postura m achista e aj udar nas tarefas dom ésticas, o que m e entediava profundam ente.

Em com pensação, achava interessante seu m odo peculiar de ver a vida. Talvez por sem pre ter sido pobre, ela alim entava um a am bição sem lim ites, até m esm o surrealista. Sonhava em conhecer Paris, em ser um a escritora fam osa, ter vestidos longos, vaporosos e descer por escadas de m árm ore, com o nos film es. Tudo esboçado num a linguagem onírica, traduzindo um alto nível de aspiração, o que evidenciava a insatisfação com o cotidiano: “As pessoas resignam -se em função da sobrevivência básica e adquirem pseudovalores para se dizerem felizes. Acostum am -se a ser exploradas sem questionam entos, pois acham que é o seu destino e a vida é assim m esm o, a pobreza deform a”.

Gostava de ouvir suas análises. Sabia que seus desej os não visavam m eram ente a um a m elhoria de status, m as a um a form a irreverente de tratar o “indispensável da vida”. Não era consum ista.

Em bora adm irasse sua audácia, tal atitude m e causava desânim o, por nunca conseguir fazer com que as coisas lhe bastassem . Sua busca era quase insaciável.

Quanto ao aspecto sexual, Mercedes m e agradava, em bora a prim eira noite tenha sido um desastre.

Fom os para Teresópolis, um a cidade turística próxim a do Rio, e nos hospedam os num hotelzinho acolhedor, com o dinheiro que eu j untara das pinturas.

— Meu bem , deixe as m alas aí m esm o fechadas, e vam os descer para j antar. Am anhã arrum am os tudo – sugeri.

Resolvem os com er fora porque a diária do hotel só incluía o café da m anhã. Aproveitei e com prei um a garrafa de conhaque barato, com a desculpa de com em orarm os.

Enquanto ela falava, sentada à m esa, pensava em coisas com pletam ente diferentes: tom ar um pileque para enfrentar coraj osam ente as dificuldades que iria ter na hora “H”. Não tinha intim idade suficiente com ela, nem havia conversado nada antes para esclarecer as preferências sexuais – esses pequenos aj ustes que um a relação não padronizada exige.

Tudo m e passava pela cabeça: “Com o será na cam a? Ficará quieta, esperando que eu resolva tudo? Assim seria m elhor. Mas não falei nada. E o que fazer se decidir tocar nos m eus seios? Não, aí vai estragar tudo. Vou apagar a luz, entrar m eio alto, tirar m inha roupa, fazer com que m e toque o m enos possível e descobrir do que gosta, para ver se, desse j eito, m e esquece. Mas e eu? Não. Vai ser assim m esm o. Pelo m enos, até ter certeza de que posso m e entregar sem que m e confunda com m ulher. É m ais garantido”.

— Am or, você está longe. Vam os voltar para o hotel? – m urm urou m aliciosam ente.

Foi com o se tivesse tocado o sinal para com eçar a prova final. Deu-m e um nervoso tal que fiquei com pletam ente desnorteado. Queria m uito fazer am or. A m erda toda era a vergonha de tirar a roupa, e Mercedes perceber que eu era igualzinho a ela. Enquanto vestido, m antinha certo porte. Fazia, pela altura, 1,71 m , e pela m usculatura, um a figura razoável. Mas pelado... Mesm o no escuro... Iria querer pegar no m eu pau, e cadê? Broxaria... E o pior é que ficaria desm oralizado, m e sentindo ridículo. Sabia que tinha esse corpo, até m e tratava no fem inino (o que m e incom odava m uito; só m ais tarde tive coragem de conversar sobre isso), m as um a coisa é ter um a noção geral, e outra é patentear, visual e tatilm ente, o real.

Brindam os. O conhaque desceu queim ando. Não estávam os acostum ados a beber. Parou no prim eiro copo. Apesar da sua advertência, fui entornando. Subitam ente, retirou-se para ir ao banheiro. Aproveitei para os últim os retoques.

“E agora, o que faço?” Com ecei a ter um a leve dor de barriga. Tom ei m ais dois goles, aguardando o que iria acontecer. Entrando novam ente no quarto, Mercedes deitou-se, puxou as cobertas e, sensualm ente, m e convidou:

— Vem !

O j eito era de m ulher segura e experiente, que conhecia todas as técnicas do m undo. Duvidei da inexperiência que m e confessara dias antes, m as agora não havia m ais com o recuar. Apaguei a luz. Tirei a roupa num segundo e, antes que seus olhos pudessem se acostum ar ao breu, pulei em cim a dela. Foi então que tudo com eçou a girar. Senti m eu corpo crescer e dim inuir várias vezes, até se transform ar num a sensação horrível de náusea. Levantei-m e cam baleando. Só deu tem po de chegar até a pia do quarto. Escovei os dentes, ainda m ais envergonhado. Fui ao banheiro e, quando retornei ao ringue, adorm eci nu sobre seu corpo.

Am anheceu. Verifiquei que Mercedes ainda dorm ia, profundam ente, ao m eu lado. Afastei as cobertas com cuidado, abri a m ala em busca do pij am a. Vesti-m e. Só então m e deitei para acordá-la, afetuosam ente.

Inteligentem ente, Mercedes não fez com entários sobre a noite anterior. Lim itou-se a dizer:

— Parece um m enino que nunca teve um a m ulher nos braços!

Sorri m eio sem graça, m as adorei ter feito pelo m enos um a im agem de m enino. Com preendera m eu nervosism o. Nessa noite, quando fom os deitar, antes que pudesse m e descontrolar, convidou-m e:

— Deita aqui ao m eu lado. Quero sentir prim eiro o seu cheiro e gosto. Vem , m e abraça. Não vam os fazer sexo hoj e. Vam os nos conhecer prim eiro de outras form as.

Que alívio! Estava sendo m agistral, m esm o que estivesse adiando o inevitável. Foi um a tática que funcionou. Fez-m e m ais am ado e seguro. Principalm ente m ais à vontade para falar um pouco do m eu problem a:

— Sabe, Mercedes, só tive um a m ulher até hoj e. Não sei se m e entende, para m im é difícil explicar. Não que você não m e atraia, pelo contrário, m as m eu corpo não aj uda. Se fosse com o qualquer outro hom em ... Você saberia o que esperar dele e vice-versa, em bora isso não invalide as diferenças pessoais. Mas, no m eu caso, pode dar m argem à confusão e...

— Cam a não se discute. Sente-se. Tudo vai dar certo, tenho absoluta certeza – profetizou inabalável, tapando m inha boca com os dedos.

Resolvi entregar-m e por inteiro e não pensar m ais no caso. Mas com o?

Passaram -se três dias. O dinheiro estava acabando, e com ele a lua de m el. E ainda não tinha exercido m inhas funções m aritais! Agora, eram duas frentes de angústia: a de querer e não poder com o queria e a de estar fazendo papel de bobo. Com o resolver esse im passe? O corpo não ia m udar m esm o e não queria perdê-la. Tom ar outro porre não era um a alternativa. Não poderia gastar m ais tem po sem , pelo m enos, tentar.

Decidi pelo velho recurso da fantasia. Com ecei a m e autossugestionar de que era o cara m ais lindo e gostoso do m undo. Preparei o terreno, tratei-a com o um a verdadeira lady. Porém , quando entram os no quarto, e m e pediu que abrisse a j anela, tudo foi, novam ente, por água abaixo.

— Querido, levanta o vidro da parte de baixo da j anela, para a gente sentir um pouco da brisa noturna – pediu, com o se não tivesse força suficiente para executar essa sim ples tarefa. Im buí-m e então da sensação de ser o próprio Hércules. A j anela era tipo guilhotina. Enquanto sustentava com um a das m ãos a esquadria, puxava com a outra as orelhinhas de m etal. Dei um close para a m usculatura avantaj ada do m eu bíceps, com o um a inj eção de ânim o, depois de tanta m iséria corporal! Mas desconfiei que ela estivesse olhando, e, ao virar para trás, não deu outra. Sorria da m inha pose. “Que papel ridículo! Pareço um garoto tolo fazendo m uque para a nam orada, só para m ostrar que é forte.” Fiquei tão aturdido que ela despencou em cim a da m inha m ão. Dei um gem ido. Rapidam ente, sua preocupação passou a ser com o m eu m achucado. De certa form a foi bom , porque canalizou sua atenção para outro fato. E foi nessa m esm a noite, com um bruta hem atom a na m ão, que m e aventurei a sacram entar nossa união.

Jogam os cartas, conversam os deitados na cam a, e, no m eio do papo, com eçou a m ordiscar m eu pescoço. Fiquei todo arrepiado. Seu j eito provocante despertou-m e um a excitação incontrolável. Com ecei a trem er em ocionado e, antes que descesse do pescoço, retom ei a posição ativa. Lentam ente, fui roçando m inha boca atrás de cada beij o dado. Muito m agra e flexível, encaixava-se perfeitam ente nos m eus abraços. Era excitante envolvê-la, sentindo seu corpinho quente e entregue. Era belo aquele m ovim ento m útuo e desnudo.

Toquei-lhe o sexo e, quando pensei que havia alcançado o clím ax, ouvi o seu pedido:

— Entre dentro de m im .

Minha cabeça deu um nó. E agora? Será que é por estar m e achando desligado ou realm ente quer que penetre na sua vagina?

Até então, m inhas relações com Dolores se resum iam som ente à prim eira etapa. Nunca tinha feito o que Mercedes m e solicitava agora.

Mas por que estranhar tanto? Afinal, estava se com portando com o qualquer m ulher excitada e desej osa. Tentava m e refazer da surpresa e não dar a perceber a m inha insegurança, quebrando a continuidade do ato.

Tudo transcorria em segundos, quando, para m eu alívio, sentindo-m e perdido, segurou um a das m inhas m ãos. Mostrou-m e, então, com o gostaria que fizesse. Com o um autôm ato, obedeci rigorosam ente ao seu desej o. Continuei no ritm o que im prim ia e que parecia estar gostando. Sentia um grande desconforto j á que a m inha m ão não nascia do m eu ventre, pelo fato de estar sendo guiado, m as continuei. Com o form a de retribuir a carícia, Mercedes teve a infeliz ideia de tentar tocar na m inha genitália. Foi a gota d’água! Não tive condições de aguentar m ais.

Apesar do incôm odo, havia ao m enos o prazer de penetrar um a m ulher. Porém , quando tocou no m eu pênis m irim e com eçou a friccioná-lo, o corte foi total. Sufocando com o nó subindo pela garganta, supliquei:

— Não, por favor, desligue-se de m im . Sinta apenas o que estou lhe dando, pois é assim que m e excito.

Sentia-m e o últim o dos hom ens. Ao m esm o tem po, satisfeito por não ter perm itido que alguém m e violentasse daquele j eito. Teria de haver outra form a, em bora nunca ideal, m as que pudesse, ao m enos, m e deixar m ais à vontade, sem ter de evidenciar as partes m ais “abj etas” e com prom etedoras do m eu corpo.

Ainda com as m ãos trêm ulas, acendi um cigarro. Tentei resistir, m as a m erda do velho choro doído veio à tona. Não sei se fingia não m e entender ou se estava apenas querendo ser natural, quando m e abraçou.

— Não tem im portância. Isso acontece nas m elhores fam ílias. Reafirm o que ainda vam os nos entrosar m uito bem .

Sabia que a m inha im potência não estava na m inha sexualidade propriam ente dita, m as no m eu sexo, enquanto hum ilhante e vergonhoso.

Meu obj etivo estava longe de lhe provocar com paixão. Queria que com preendesse o que se passava com igo. Porém , faltava-m e estrutura em ocional para m encionar palavras com o seio, vagina ou clitóris que se referissem a m im . Era com o se, falando, reforçasse auditivam ente, no outro, um a percepção que eu próprio preferia que esquecesse.

O m om ento intenso da contorção do insolúvel foi passando, e predom inou m eu lado que reagia com hum or. Inicialm ente fiquei apático, com o sem pre ocorria depois de um a crise. Para não a deixar deprim ida, com ecei a brincar num a espécie de “j ogo do contente”, pensando em com o era bom estar am ando e sendo am ado.

Decidi que tinha de acontecer ainda naquela noite.

A certeza de que não tocaria m ais no m eu sexo m e acalm ou. Fui m e deliciando pouco a pouco com o seu perfum e, o sal de sua pele, suas curvas m acias, até conseguir penetrá-la suavem ente. Seu corpo se agitou, sua respiração acelerou e, pressentindo que ia gozar com igo lá dentro, atingi o êxtase. Fiquei tão feliz que a m oleza costum eira não m e abateu. Orgulhava-m e de ter conseguido chegar ao clím ax, quase que só m entalm ente, pois o m eu sexo nem tinha roçado nela.

Nessa noite dorm i com o um anj o.