Viagem Solitária
Capítulo 7
TEMPOS DE DITADURA
Rumor, ainda que não fique mais do que o rumor.
García Lorca
Descobri aos 15 anos que m inha m ãe era m ortal. Estava em cim a de um a cam a de hospital. Ar abobalhado, dizendo incoerências. Seu corpo descoordenado, gestos borrados, ainda sob o efeito do anestésico. No quarto todo florido, vislum brei sua fraqueza. Suas form as ainda guardavam entrelaçadas um a só expressão de debilidade. Vendo-a assim , fortaleci-m e.
Mam ãe era um a m ulher que m e diziam ser adm irável: pela sua eficiência, seu perfeccionism o e sua retidão de caráter. Nunca perm itiu que alguém a protegesse. Suas atitudes certas, obj etivas, pontuais faziam -m e vê-la com o um a pessoa que veio ao m undo m ais a serviço do que a passeio. Foi na revelação de suas dificuldades que passei a am á-la. Com um am or m ais incondicional pelos filhos do que j am ais im aginei!
Sem saber gargalhar ou ser, vez por outra, irreverente em relação ao dinheiro ou ao trabalho, m am ãe perdeu o degustar tranquilo e prazeroso das coisas inúteis. Introvertida, com o um cofre sem chaves, defendendo e elogiando sem pre m eu pai, renunciou aos próprios deleites.
Havia, porém , um m om ento especial em que essa m ulher m e conquistava. Era quando se sentava ao piano. Sua fisionom ia se transfigurava, enquanto relem brava velhos sucessos m usicais. Interrom pia o que estivesse fazendo e corria para a beirada do piano, num contentam ento que não sabia explicar. Mam ãe tocava, m as era no m eu coração.
Foi nessa época que a vi chorar pela prim eira vez. Tinha 14 anos quando senti um m ovim ento estranho e triste dentro de casa. Todos tensos, falando a m eia voz, apreensivos por notícias. Papai sum ido, eu sem entender o que tinha acontecido.
Era o golpe m ilitar de 1964.
— Seu pai asilou-se num a em baixada!
A casa ficou de pernas para o ar. Foram três anos de exílio. Papai foi dem itido, foram cassados os seus direitos políticos, e acabou exilado no Uruguai. Foi dado propositadam ente com o m orto para m am ãe receber apenas um a pensão de viúva. Passam os a viver do seu m inguado ordenado de professora prim ária. Com eçam os a trabalhar para aj udar em casa.
Papai entristeceu, longe de todos e de tudo o que gostava. Não conseguia trabalho no exterior. Só o víam os nas férias escolares.
Apesar de dolorida, essa experiência de separação foi o que transform ou a im agem de m eu pai. Aquela estam pa brilhante, fardada e super-heroica passou a ter um aspecto m ais real, sem a aura do carism a.
Ainda no estrangeiro, tive oportunidade de ouvi-lo:
— Cozinho, lavo m inha roupa e varro a casa todos os dias, m esm o que isso não pareça necessário. É um a form a de provar a m im m esm o que estou vivo. De não m e entregar ao desânim o. Até hoj e, considerava, dentro dos m eus valores, que se sentir útil era ganhar dinheiro, produzir socialm ente, fazer m eu trabalho político. Enfim , estar participando. Agora, só m e resta esta rotina, e tento dar-lhe um caráter de im prescindibilidade para não sucum bir, j á que não sei quando poderei retornar.
Aprendi com seu vigor pela vida, sua m aneira peculiar de aguardar os fatos:
— Im agino com o prim eira hipótese o pior. Não propriam ente por pessim ism o, m as porque, à m edida que o tem po passa e isso não ocorre, j á tenho um a sensação de lucro. Quando m e prenderam , pensei que fossem m e m atar. Ao chegar à prisão e constatar que vivia, senti-m e vitorioso. Foi um a influência decisiva na m inha m aneira de ser.
Pensando assim , papai era um suj eito bem -hum orado. Seu pequeno j ogo com a vida m e m aravilhou. Jam ais o vi se consum ir por pequenos problem as. Com os grandes, era com o costum ava dizer: “É um a questão de visão”.
Suguei do velho essa força inquebrantável no querer.
A autoridade de papai tam bém se m odificou. Tornou-se m ais um com o nós, dependente de m am ãe. O caráter de m ando se esvaiu. Um a nova relação foi surgindo. A cam aradagem aum entou quando tive oportunidade de passar um m ês sozinho com ele no Uruguai. Era a grande chance para nos entenderm os.
Quando criança, m al am anhecia, saía em disparada para sua cam a. Fingindo que dorm ia, deixava-m e pular sobre ele, fazer rola-rola no seu bum bum e deitar-m e nas suas costas, sim ulando um colchão. Invariavelm ente, term inávam os num a luta em que m e defendia fazendo-lhe cócegas. Enquanto isso, m am ãe ao lado levava as sobras da confusão. Reclam ava, m as, na verdade, creio que se envaidecia da nossa singular com unicação.
Depois que cresci, acabou-se o cavalinho, assim com o as fábulas inventadas na hora, a lavagem conj unta do j ipe e do seu carro. Não restou nenhum com portam ento substituto e que tivesse o m esm o peso. A distância foi aum entando. Sobravam , agora, apenas alguns m aneirism os gestuais lúdicos, algum as expressões verbais significativas.
Meu pai deu-m e seu néctar e pólen. Depois, im pediu que eles fecundassem . Om itiu-se com pletam ente no crescim ento de seu com panheirinho de luta. Manteve-se alheio a esse passado ainda tão vivo em m im , com o um pai inibido e constrangido diante de um a filha m oça. Todo contato físico se diluiu. Fiquei solto no ar. Portanto, agora era a oportunidade de retraçar a linha interrom pida.
Aj udava-o a escolher a roupa para se vestir. Cortava-lhe o cabelo e relem brava fatos antigos, na intenção de lhe despertar as velhas em oções.
— Pai, lem bra-se de quando m e sentava a seu lado, todas as m anhãs, para vê-lo fazer a barba? E de quando se esquecia de raspar um pedacinho e o avisava? E, depois, pegava o pincel e lam buzava toda a m inha cara? Até hoj e sei direitinho o cam inho que percorria com a gilete e todos os trej eitos que fazia com o rosto para escanhoá-lo!
Sorria, dizia “hum ”, e o assunto m orria.
De certa form a m e realizava nele, j á que não m e era acessível nem perm itido fazer todas essas coisas. Ao m esm o tem po que proj etava nele m eus desej os, o fato de vesti-lo era um a espécie de carinho específico m eu, pois nenhum a das m inhas irm ãs m ostrava essa preocupação. Eram assuntos de hom em . Em bora essas sugestões não fossem sentidas por papai exatam ente assim , passou a recorrer a m im quando queria sair elegante.
Outra tentativa de reconquistá-lo foi aprender a j ogar xadrez. Estudava sozinho para m e aperfeiçoar, m as ele gostava m esm o era de disputar com os am igos.
Os filhos dos exilados no Uruguai eram m uito unidos, pela situação em que se encontravam . A vida em Montevidéu era razoavelm ente barata. Um a das diversões era ir ao cinem a continuado. Passavam quatro film es de conteúdos diversos e era dentro do cinem a que fum ávam os escondido. Tam bém usava a casa do Darcy Ribeiro e da sua m ulher Berta, j á que conseguiam Minister, cigarro brasileiro, porque o uruguaio era horrível. Eram os únicos adultos que nos perm itiam fum ar e falar palavrão em sua presença, coisas que j am ais podíam os fazer dentro de casa.
Darcy foi chefe da Casa Civil do governo João Goulart. Criou e foi reitor da Universidade de Brasília. Mais tarde, no governo Brizola, atuou com o vice e concebeu o Sam bódrom o e os Cieps.
Quando eu chegava ao seu apartam ento em Pocitos, fam osa praia de Montevidéu, estava invariavelm ente sentado na poltrona da sala, com as pernas cruzadas em form ato de borboleta, m exendo nos pés descalços, enquanto escrevia diante de m uitas estantes de livros. Não tinha filhos, m as estava sem pre rodeado de j ovens do m undo inteiro que vinham visitá-lo. E eu, por m orar perto e descobrir nele um hom em quase am oral – segundo ele, isso não existia –, encantei-m e com sua personalidade. Apesar de eu ser um adolescente, tratava-m e com respeito, com o se eu fosse um adulto. Conversávam os sobre os m ais diversos assuntos sem preconceitos. Com o tem po m e “adotou” e passou a m e apresentar com o sua filha. Tornou-se m eu m entor intelectual e dizia que seria a herdeira de seus livros, caso estudasse Antropologia. Foi por m eio dessas visitas vespertinas e com as obras com pletas dos grandes poetas que aprendi a recitar poem as. Com ecei com O Padre e a Moça, do Drum m ond, que m ais tarde inspirou um film e. Poem a longo e de conteúdo escandaloso, j á que o padre roubava a m oça e fugia.
Darcy era um hom em baixo, franzino, sem qualquer habilidade m anual a não ser escrever. Nem dirigir carro sabia. Mas tinha o dom da palavra e um a m ente m essiânica quando falava de seus planos e afirm ava que deixaria sua m arca na História.
Ensinava-m e tudo. Desde aulas de Antropologia, Poesia, Política, até m e fazer encher a boca para dizer bem alto os piores palavrões. “É lindo o exagero de pornografia na sua boca de 15 anos”, dizia.
O obj etivo era perder o m edo das palavras. Dizia que falsa m odéstia era pleonasm o, porque toda m odéstia era falsa e não deveria tratar ninguém por senhor.
Ele e a m ulher eram antropólogos e j á haviam m orado com os índios no Xingu.
Contava-m e histórias dos índios e que um dos m aiores carinhos que j á recebera foi quando, deitado na rede de um a das ocas, um a índia colocou um piolho na sua cabeça para sua esposa depois o catar.
Durante um a festa tribal, um índio louco arm ou o arco e a flecha em sua direção. Darcy deu-lhe as costas e cam inhou lentam ente, sem olhar para trás. “Cada passo que dava sentia com o se recebesse a flechada.”
Encontrou-se com Cecília Meireles quando esta voltou da Índia, recebendo-o com um sári verde. Durante toda a noite, enquanto conversavam , ela se retirava para o quarto e, quando retornava, tinha trocado a cor do sári. “Não fazia nenhum a observação sobre a m udança, porque não queria interrom per aquela esfera m ágica de transform ação” – ensinou ele.
Quando esteve preso em Niterói, na Fortaleza de Santa Cruz, fui visitá-lo na prisão. “Esses ‘m ilicos’ vão se cansar de bancar os soldadinhos de chum bo.”
Posteriorm ente, o casal m orou alguns anos em Lim a, no Peru. Depois foram para a Europa e, em Portugal, descobriram que ele tinha um câncer no pulm ão. Quis voltar ao Brasil para se operar aqui. O governo brasileiro negou sua entrada. Então, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) interferiu j unto ao governo brasileiro. Finalm ente, pôde vir e se operou na Beneficência Portuguesa, na Glória. Fui visitá-lo no hospital, j á sem um pulm ão e com um a cicatriz que dizia para os m eus sobrinhos ser de “m ordida de tubarão”. Recebeu-m e com o se estivesse em casa. Alegre e brincando consigo próprio: “Esse cancerzinho não vai m e vencer, não. Eu é que j á estou tirando vantagem dele, conseguindo voltar à m inha terrinha”.
Seus 60 anos foram com em orados com um a festa no Forte de Copacabana, com várias celebridades, inclusive Danuza Leão, am iga de Elisa Nutels, m ulher do fam oso m édico indianista Noel Nutels. Conversando com am bas, Elisa se interessou em ler m eu livro e 15 dias depois telefonou m e surpreendendo: “Ruth leu seu livro em dois dias! E j á o entregou ao Houaiss para o aval final. Ficou tão im pressionada com a sua história que m e pediu que você ligasse para ela. Quer m arcar um encontro na casa deles para conhecê-lo”.
O casal m orava num belo apartam ento de frente para a lagoa Rodrigo de Freitas. Não tinha filhos, só um a cadelinha, e estava recém -chegado da Europa.
Houaiss m e recebeu de berm uda, deixando aparecer suas finas e arqueadas pernas. Um hom em sim ples, de origem libanesa, em bora tivesse nascido na Copacabana do início do século. Além de filólogo, acadêm ico e diplom ata, era tam bém um grande gourmet e foi ele quem preparou o im provisado j antar. Lem bro-m e de que m e contaram , entusiasm ados pela viagem , do film e expressivo a que tinham assistido – Le Bal, de Ettore Scola, que não continha nenhum a palavra e ainda era inédito no Brasil.
Depois desse encontro, ainda estive algum as vezes com eles, conversando sobre o m eu livro, suas m il atividades e tam bém sobre o chá das quintas-feiras a que com parecia na Academ ia Brasileira de Letras. Houaiss era um hom em m etódico, organizado e ocupadíssim o. Na época, estava tam bém envolvido na feitura de um novo dicionário, depois de j á ter dirigido duas enciclopédias.
Mas, m esm o com tudo isso, não só m e presenteou com o prefácio do m eu livro com o fez questão de ir, pessoalm ente, entregá-lo ao Alfredo Machado, para um a possível publicação pela Record, o que de im ediato aconteceu. No fim do texto recom endava: “Leiam e hum anizem -se”.
Houaiss m orreu em 1999, sem ver sua últim a obra com pleta.
Darcy, após a am eaça de m orte, tom ou coragem e term inou seu casam ento de m ais de 30 anos. Nunca fora um hom em fiel à esposa. Ela funcionava tam bém com o sua secretária, datilógrafa e revisora dos textos, em bora tivesse publicado seus próprios livros, sobre arte indígena. Berta era j udia, órfã, com apenas um a irm ã que m orava nos EUA. Sua fam ília, praticam ente, resum ia-se a dona Fininha, a sogra, o cunhado e os sobrinhos do Darcy.
Soube tam bém que ele passou a escrever m ais sobre a m orte, textos estes que nunca li. Parte da sua recuperação foi deitado na rede da varanda lá de casa, com a polícia de plantão na portaria do prédio. Muitos anos m ais tarde, o fatídico câncer term inou por m atá-lo. Logo depois, Berta m orreu de câncer cerebral. Os dois deixaram um a bonita obra, e há hoj e um a Fundação com seu nom e em Santa Teresa, a qual nunca tive coragem de visitar.
Term inaram as férias. Mais um a vez, senti-m e fracassado nesse confronto. Regressando ao Rio, fiz concurso para um a Escola Norm al (que form ava professores), opção esta decidida por m am ãe. Queria todas as filhas nessa carreira, para term inarem o segundo grau j á com um a profissão. Assim , continuei num am biente sem rivais, basicam ente de m ulheres, num perpétuo contraste. Para com pensar os anos ali dentro, de cultura inerte, resolvi estudar francês e fazer um curso de teatro.
Era um a form a de adquirir m ais experiência na arte de representar. Achava que o teatro m e proporcionaria libertar os fantasm as contidos, m as insepultos. Participei de alguns grupos am adores. Encenei Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e tam bém fui convidado pelo m eu professor de violão e tam bém ator, Graça Melo, a fazer um teste para m e tornar profissional. Infelizm ente, ele foi de carro para São Paulo e sofreu um acidente fatal. Com isso desisti de vez do teatro. Percebi tam bém que os papéis que m e caberiam seriam , provavelm ente, os de personagens fem ininas, quando não de bicho ou qualquer figura m itológica.
A essa altura, todos lá em casa trabalhávam os fora, m enos Van, que ainda era m uito nova. A m esada havia sido cortada há m uito, e precisávam os aj udar. Mam ãe ainda tinha de m andar dinheiro para papai sobreviver no exterior. Com ecei pintando apartam entos de conhecidos, graças aos ensinam entos de seu Sebastião. Era representante da Avon e tam bém fazia sacolas para vender, j á que naquela época as loj as só em brulhavam as com pras. Com o tem po, fui adquirindo m ais prática e m e profissionalizando.
Aos 19 anos, ingressei na faculdade. Acabei optando por Psicologia, pois os labirintos da m ente m e atraíam . Entrei com a garra de qualquer calouro que pensa algum dia se tornar fam oso.
A instituição m e fascinava. Dessa vez não precisava usar uniform e com saia, nem cham ar os professores de senhor. Podia até m atar aula no próprio pátio, na cara de todo m undo. Tornei-m e um aluno brilhante. Lia desesperadam ente, querendo recuperar o tem po perdido. Estudava as m atérias que m e interessavam , assuntos extracurriculares e teorias acerca da sexualidade. Por m eio das pesquisas de antropólogos culturalistas am ericanos, descobri que a conduta sexual hum ana é determ inada e padronizada de acordo com a própria cultura e, por essa razão, pode apresentar m últiplas variações.
No am biente liberto e em ancipado da universidade, tornei-m e m ais seguro e capaz de não dissim ular tanto o que sentia. Estávam os entrando na década de 1970. A m oda agora perm itia a m aneira unissex de se vestir, o que foi um grande alívio. Pouco a pouco fui tornando m inha figura m ais am bígua, em bora isso ainda incom odasse m uita gente.
Sem pre na tentativa de com pensar o choque que causava, tornei-m e um excelente colega. Conversava com todos e dava cola nas provas. Ninguém podia negar a m inha contagiante sim patia. Fui eleito representante de turm a e reivindiquei a favor dos m enos privilegiados. Com o estávam os sob um regim e ditatorial, a diretoria da faculdade fechou o diretório acadêm ico. No prim eiro ano da universidade, acabei sendo enquadrado no Decreto no 477, m ais um a lei de exceção criada em 1969, que punia os que “atentavam contra a segurança nacional” na universidade. Os estudantes deveriam ficar cinco anos sem estudar, e os professores, três anos sem lecionar.
Consegui um ótim o advogado, Modesto da Silveira, um hom em especial, que conseguiu m e absolver e não m e cobrou nem um tostão.