Viagem Solitária
Capítulo 4
AMORESCÊNCIA
Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs,
porque desfaleço de amor.
Cantares de Salom ão
Aos sete anos, m e apaixonei. Foi por um a coleguinha de turm a, com cara de índia. Tím ida e com um j eitinho que m e desaj eitava todo.
Minha paixão se resum ia em olhá-la. Absorver o frenesi da proxim idade, fosse na fila da entrada, fosse na carteira da sala. Descobrir do que gostava para agradá-la. Ser sobrinha de um a das professoras do colégio a tornava m ais im portante. Nessa época, a escola ainda não era m eu escritório, m as, por causa do súbito am or, passou a ter um novo brilho.
Carlos Alberto sentava-se à m inha frente, na prim eira fila. Todo em pertigadinho, com um topete que fazia um a curva dura de Gum ex, causava-m e a m aior invej a. Além de ter um estoj o de m adeira gigante, onde cabia tudo, inclusive duas borrachas e um a lapiseira, a m ala que carregava era um portento, com saiotinha de plástico e tudo! Sua m ãe a fez para que ele pudesse colocar a m ala no chão sem a arranhar. Um luxo! Esse m enino era o protótipo do que eu adm irava e queria ser.
Na tentativa de im itá-lo, ele virou um a espécie de ídolo para m im . Passei a usar, igualm ente, gom a no cabelo e a fazer um topete duro. Minha letra foi arredondando, aum entando, e o ritual que a organização exigia foi igualm ente absorvido. Com o foi adquirido superficialm ente, não m antive a devida frequência e continuidade. No m eio do caderno, j á não colei m ais decalque (hoj e adesivo) em nenhum a página, nem fiz m ais a ponta do lápis requerida para um a boa apresentação.
Dona Arthalides era nossa velha professora. Boa e dedicada, poderia ter se aposentado havia alguns anos. Mas continuava firm e em sua m issão, por verdadeira vocação. Não tinha um seio por causa de um câncer. Em substituição, usava um a espum a num lenço, pois na época não existia silicone nem próteses sofisticadas. Eu perdia m etade do que ela dizia em sala, observando se os dois seios se m antinham sim étricos. Um dia, ficou bem nítida a diferença. Sem que ela percebesse, o peito postiço escorregou e ficou perto da cintura. Senti um a pena m esclada com a curiosidade de ver de perto aquele sobressalente.
Dona Arthalides foi m inha m estra durante todo o prim eiro grau. Gostava de m im , em bora fosse um aluno m edíocre. Por m ais que m e esforçasse, não conseguia obter um a m edalha de honra ao m érito. O que m e deslum brava na condecoração é que transform ava o sim ples uniform e colegial num a farda m ilitar. Só m ais tarde, com o golpe m ilitar, com preendi exatam ente o que isso poderia representar. Mas naquele m om ento era ter um a farda bonita com o a do papai.
No Dia das Crianças, finalm ente, ganhei a prim eira e única m edalha do m eu período estudantil. Não foi por um m eio m uito lícito. Houve um a gincana, e resolvi participar da corrida de saco. Consegui pegar um que estava furado. Corri m ais que pulei, vencendo a disputa. Até o fim do curso, ostentei a m edalha no peito. Mas duas coisas m e incom odavam : o fato de ser de bronze e não de ouro, o que a desm erecia; outra, que nela havia gravada a im agem de um saco – bastava as pessoas se aproxim arem um pouco m ais para descobrir a real procedência. Que desm oralização!
Em bora esse dia tenha m e dado m uita alegria, foi tam bém nele que m e aborreci pela prim eira vez com dona Arthalides. Para nos presentear, levou dois tipos de lem branças para os alunos: pulseirinha para as m eninas e saquinho de bolas de gude para os m eninos. Na m inha vez, levantei-m e e fui até a m esa. Passei rapidam ente a m ão nas bolinhas, m as fui agarrado pelo punho e advertido.
— Não, Joana, o seu é o daquele m ontinho ali.
Desta vez, m e enchi de coragem e protestei baixinho:
— Quero esse aqui.
A turm a inteira deve ter ouvido a m inha reivindicação. Senti todos os olhares convergirem para m im . Sabia, perfeitam ente, o que aquilo representava. Ela continuou:
— O núm ero está certo. Nenhum m enino vai querer usar pulseirinha. Portanto, se lhe der as bolas, alguém vai ficar sem presente.
Estava triste e com raiva, dela e de m im . Apanhei o em brulho da pulseira, encerrando o m ais depressa possível aquele fatídico episódio. Quem gostou foi Van, que adorou o presente e não tirou m ais a pulseira do braço.
A indiazinha j am ais percebeu o que provocava em m im . Nessa prim eira experiência com o am or, não correspondido, senti claram ente o peso da frustrante realidade. Vislum brei que essa sensação linda e gostosa era proibida. Não poderia ser partilhada com ninguém .
Para todo guri, o beij o na boca era considerado o ponto culm inante da intim idade sexual. Essa proeza foi consum ada nas brincadeiras de bandido e m ocinho com m eus prim os. Éram os dois casais, sendo que m eu prim o ficava com Van. Suzana, irm ã dele, fazia par com igo. Ao chegar a hora rom ântica do j ogo, apertávam os as bocas, pondo os lábios para dentro, e nos beij ávam os. Um beij o m uito reprim ido, m as extrem am ente excitante. Por m ais que tentasse fazer com que Suzana relaxasse à com pressão, m eu esforço era em vão.
Minha prim a nunca m e atraiu. Mas era a única m ulher disponível e com quem tinha algum a intim idade para poder tocar fisicam ente. Fom os program ados pelas nossas m ães para nascerm os na m esm a data, m as acabou m e antecedendo em 20 dias. Saiu com um tem peram ento antagônico ao m eu. Muito fem inina, gordinha, pacata e subm issa às vaidades da m ãe. Essa program ação sem pre foi um inferno! Achavam que eu tinha de usar o que ela usava. Im agine Suzana, cheia de laçarotes e diadem as! Isso, só gostava de ver nela! Essa perm anente com paração entre nós contribuiu para nos afastar. Só na adolescência é que nos tornam os am igos, porque fui m orar, tem porariam ente, em sua casa.
Mam ãe conseguiu um a licença e foi viver seis m eses no Uruguai para ficar com papai, quando ele precisou se exilar naquele país, em 1964. Dividiu os filhos pela casa dos parentes. Fiquei na de sua irm ã Estela, m ãe de Suzana. Era um casarão velho, com um pé-direito alto e quatro quartos. Coube-m e o da sua sogra, j á falecida, e que m antinha a m esm a m obília antiga, a decoração sóbria e um santuário no canto. Todos os aposentos tinham um a porta que dava para a sala, e no m eu havia um a extra, que interligava m eu quarto com o de Suzana. Titia tam bém com prara um as tábuas que estavam apoiadas na parede, perto do j anelão sem grades, que dava para a rua. Eram para construir um a estante no local dessa porta. Nessa época, eu e Suzana tínham os 15 anos e estudávam os no m esm o colégio, na Tij uca.
O dia clareava quando ouvi um barulho e acordei. Constatei que a j anela estava apenas encostada: as gavetas da côm oda, rem exidas; a porta que dava para a sala, aberta. Senti um frio na espinha na certeza de ter algum ladrão na casa. Fiquei pensando que não podia ficar ali parado enquanto o ladrão ia levar tudo. Com o num film e de super-herói, enchi o peito de ar, em purrei as cobertas e m e levantei. Cam inhava com o se pisasse em ovos para não fazer barulho. Ao chegar à porta que dava para a sala, verifiquei que não havia ninguém , m as a porta que dava para a rua estava aberta. Sem saber onde estava o ladrão, resolvi cham ar Suzana para m e aj udar. Entrei devagar no seu quarto e a cham ei, sussurrando. Relatei o acontecido, j urando que não era brincadeira. Não titubeou e seguiu-m e. Atravessam os a sala em direção ao quarto dos m eus tios. Abrindo a porta na penum bra, tive, por segundos, a im pressão de que havia um vulto na penteadeira do outro lado. Não duvidei. Apertei o interruptor. Tudo clareou. Era ele! Soltou um gem ido de susto e pulou do banquinho. Tia Estela sentou na cam a e soltou um grito m edonho: “Ladrão!”. Am edrontado, ele tentou fugir pela única saída do quarto, onde estávam os. Num a reação im pensada, sem nem supor que pudesse estar arm ado, abri os braços no portal para evitar sua saída. Levei um soco no braço e quase fui ao chão. Suzana saiu correndo atrás dele, que corria para o m eu quarto, por onde entrou. Ela ainda conseguiu segurar-lhe a cam isa, m as ele, ao puxar as duas abas da j anela com força, derrubou as tábuas que ali estavam apoiadas, que caíram em cim a da m inha prim a. O ladrão escapou com um pulo. Ela ficou com alguns hem atom as. Tia Estela apareceu com um a vassoura na m ão. Titio não chegou a entender o que tinha acontecido, e m eu prim o continuava dorm indo em seu quarto. O resultado foi que deixou um cocô no j ardim e levou apenas o m eu relógio – único presente que ganhei dos velhos por m érito estudantil. E no plano espiritual, levou a m inha paz para dorm ir. Não tinha m ais coragem para ficar só naquele quarto. Quando a noite vinha, o m eu sono ia em bora. Ficava vendo TV até o últim o film e e depois verificava todas as trancas da casa. Só então m e deitava na cam a dos m eus tios, infantilm ente entre os dois, e apagava exausto.
Minha segunda m usa foi um a lourinha, filha de um am igo de m eus pais. Às vezes, ela e a irm ã avisavam que iam passar o dia seguinte lá em casa. Ficava tão excitado com a perspectiva do encontro que não conseguia dorm ir direito, esperando o am anhecer. Quando chegava, de rabo de cavalo, loura e sardenta, tudo m udava de cor. Deixava de ser um cara chato e dom inador e ficava m anso com o um coelho para topar qualquer brincadeira. Até m esm o a de passar o anel entre as m ãos – para m im , m uito boba, m as que agora era o prim eiro a sugerir. Dava-m e enorm e prazer, pois era a oportunidade de colocar m inhas m ãos dentro das dela e soltar o anel, com o num a fecundação.
Minha terceira paixão foi aos 15 anos, tam bém por um a colega de sala. Achava-a linda, m as m etida. E m orria de ciúm es por ela estar apaixonada por um garotinho do Colégio Militar. Moravam perto um do outro e pegavam o m esm o ônibus para voltar para casa.
Consegui que ela m e convidasse para ir a sua casa e conheci seu quarto. Sentei em sua cam a, enquanto ela tocava no violão canções em italiano. Foi aí que fiquei fã de Peppino di Capri e Rita Pavone. Tudo o que obtive nessa relação foi com eçar um diário... que queim ei ao descobrir que m am ãe o havia lido.
Meu quarto am or foi Lúcia, am iga de Suzana, que resolveu levá-la para m e conhecer. Eu fazia a sesta. Apaixonou-se por m im dorm indo. Ao acordar e ver aquela m orena de vestido verm elho, três anos m ais velha, com aqueles m aravilhosos olhos am endoados, um a boca carnuda e com um a pintinha do lado, fiquei literalm ente encantado. Foram m uitas conversas. Contou-m e sua história de vida com plicada, criada por um a velha j udia que cham ava de m ãe e um pai gaúcho, que j am ais via.
Um a noite em que Van não estava, convidei-a para dorm ir lá em casa. Sem resistir, fui até sua cam a e tim idam ente enfiei m inha m ão por debaixo do lençol e toquei seu seio. Ela estrem eceu. Eu tam bém . Retirei-a rapidam ente e pulei na m inha cam a de volta. Nenhum dos dois conseguiu dorm ir naquela noite m ágica.
Não passam os de alguns beij os furtivos até Lúcia desaparecer. Quase enlouqueci à sua procura. Suzana tam bém não tinha qualquer pista. Um dia recebi um telefonem a dela. Estava m orando com a m ãe doente num quarto alugado num a casa de côm odos. Fui visitá-la. Não encontrei m ais a graça de princesa. Mais m agra, com olheiras, sem a alegria espontânea da j uventude. Tornou-se um a m ulher sofrida antes do tem po, m as determ inada. Novam ente Lúcia desapareceu. Muitos anos depois, recebi um cartão de Natal. Ela estava com pouco m ais de 30 anos, casada com um sargento e com três filhos, m orando em Roraim a. Veio ao Rio, m e apresentou a fam ília e disse que estava de m udança para Brasília. E, pela terceira vez, desapareceu. Só voltei a descobri-la 30 anos depois, pela internet, quando j á era avó de quatro netos.
Fui crescendo sem saber exatam ente o que havia com igo e com o tudo acabaria. Mas era patente que, toda vez que eu aparecia, um a confusão se form ava.
Com exceção de Lúcia, todas as m inhas paixões até o fim da adolescência foram unilaterais. Jam ais expressas verbalm ente. Rej eitado e incom preendido, a sensação de am ar sozinho foi se acum ulando, até explodir aos 19 anos.