Viagem Solitária
Capítulo 4
AUTOCOMISERAÇÃO
A grande consternação de nós mesmos – que genuflexório
d’alma!
Chicoteemos todo o condoído – esta corcunda,
esta ressaca da vida!
(Do poem a “Autocom iseração”, do autor)
Desci de dois em dois a escada do prédio até desem bocar na rua. Saí com passos largos, apressados e sem direção certa. Entrei no prim eiro bar. Pedi um conhaque. A bebida desceu queim ando tudo por dentro, com o Lola j á tinha feito com o m eu coração. Tom ei m ais um a dose. Não queria que sobrassem nem as cinzas. Com o as nuvens que escureciam o céu. Caía um a garoa fria. Arrepiei-m e, m esm o coberto de suor, tom ado por calafrios.
Não era a prim eira vez que era traído. Quase podia apostar. Certam ente não seria a últim a. Jovem e sedutora, ela sem pre testava os m eus lim ites. Confiante na im punidade. Perm issiva. Lasciva. Eu, um covarde obrigatório, ela sabia disso. Vontade de m atá-la. Não, de m atar o suj eito, de castrá-lo.
Com Mercedes tinha sido diferente. Não era sedutora com o Lola. Nem tinha ido para a cam a com um hom em norm al antes de m e conhecer. Por isso, eu m esm o tinha sugerido. Tentativa de m anter o controle. Não poderia culpá-la se acontecesse. Mas fiquei destroçado de ciúm e e insegurança quando soube. Prim eira vez que quebrei um copo na parede. Fúria incontida, coisa rara. Sem pre dócil. Controlado para não cham ar atenção. Covarde, covarde, isso é o que eu era! Babacão! Eterno corno. Pior, corno m anso.
Elas sem pre iam preferir um pênis de carne. Passar pelas várias hum ilhações de ouvir com o faz falta um cacete de verdade. E ainda ser acusado de m achista. O grande herói de cabeça, sem pre adm irado, m as pouco desej ado.
A autocom iseração teim ava em m e invadir. Chicoteava a própria dor. Atordoado, ia pisando nas poças, esm agando a raiva, a pena de m im . Cheguei, enfim , à praia deserta de Icaraí. Já era noite. Cam inhei em direção ao m ar. Subm ergi na água fria totalm ente vestido. Um turbilhão de im agens m e veio à cabeça por segundos, com o num film e: Mercedes, quando m e traiu, confessando a sensação do pênis do cara dentro dela, que era totalm ente diferente e m uito boa; m eu casam ento com Am anda no cartório, com o m eu prim eiro terno com prado aos 30 anos, tendo Dra. Elizabeth com o testem unha e ao lado dona Carm em sorrindo, vendo seu sonho realizado e a ausência do m eu pai; nós dois im plorando ao Porto para que ele fizesse um a insem inação artificial em Am anda, e m inha dupla decepção com a sua recusa, alegando não acreditar que um transexual pudesse ser pai de um filho saudável; m inha tristeza em ter de desistir do bebê que solicitei a um a instituição no Paraná, porque, quando o tão esperado telefonem a aconteceu, eu e Am anda j á tínham os nos separado.
Voltei à tona, j á quase sem ar. Percebi então o horizonte do outro lado da baía. A luz difusa dos prédios do centro do Rio insistia em provar que a vida continuava.
A chuva apertou. Saí do m ar. Quando cheguei à calçada, o céu trovej ou. Um raio clareou a noite. Tudo em volta parecia querer gritar algo.
A enorm e vontade de ser pai. O bebê que chegou tarde, por falta de m ãe. Agora talvez estivesse chegando outro neném . O desej o de ser pai pulsou forte novam ente dentro de m im .
Os passos se apressaram , agora m ais firm es. Sem hesitar, dirigi-m e cada vez m ais rápido para casa. A im agem dela grávida ficou m ais im pregnante do que qualquer traição. Não iria abandonar essa nova chance. Não por falta de pai. Não deixaria que tirasse o bebê. Precisava encontrá-la urgentem ente, antes que ela pudesse fazer outra besteira. Corria para Lola para dizer-lhe que j á tinha resolvido ser o pai.
Só faria um a exigência. Não queria dividir a paternidade com ninguém .