Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 25 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 6

A SEGUNDA BATALHA

 

Todos sabem que meus lábios nunca murmuraram uma

oração. Não procurei dissimular meus pecados. Ignoro se

existem, realmente, uma Justiça e uma Misericórdia. Mas, se existem, não desespero delas: fui sempre um homem sincero.

O. Khay am

 

Dr. Porto era um andrologista j ovem , rico e fam oso. Passei a adm irá-lo por não se acom odar ao status quo, questionando a m edicina tradicional. Estava sem pre a par das novas descobertas. Daí se j ustificar em parte seu pioneirism o no estudo da transexualidade. O restante se devia à sua faceta um tanto exibicionista.

Por ser a única pessoa que poderia m e aj udar a sair do caos, transform ou-se para m im num a espécie de salvador. Tornei-m e dependente por com pleto. Não só por sua bagagem profissional, m as porque, em ocionalm ente, eu precisava de seu apoio constante, para m e sentir am parado.

Levava ao seu consultório os resultados dos exam es e procurava saber das novidades no cam po da pesquisa, para am enizar m inha ansiedade.

Porto não m e cobrava consulta. Sabia que eu não poderia pagar. Quando podia, escrevia “interesse científico” no pedido dos exam es laboratoriais, e eu conseguia abatim ento. Cada vez que ia vê-lo, ficava tão ansioso com o que poderia resultar que gaguej ava ao falar.

Sentado na sua confortável poltrona, girou-a com os pés e m e encarou. Num tom m ais baixo que o habitual, falou:

— João – continuava a m e tratar no m asculino –, am anhã em barcarei para São Paulo. Estarei com um cirurgião plástico que j á fez algum as cirurgias em transexuais fem ininos [transm ulheres] com grande sucesso. Se quiser, encontre-m e neste endereço daqui a três dias, que posso apresentá-lo a ele.

Escreveu num papel o local e a hora do encontro.

Meu coração batia tão forte que ressoava em todo o corpo. Antes que pudesse falar algum a coisa, levantou-se e esticou a m ão.

— Então estam os conversados. Dia 15, ao m eio-dia.

Telefonei im ediatam ente para as faculdades, com unicando que não poderia dar aula no resto da sem ana. Em seguida, peguei um a m ala pequena e coloquei algum as roupas e obj etos de uso pessoal. Ao fechá-la, ouvi um barulho de chave na porta. Am anda chegava do estágio.

— O que é isso? Vai viaj ar? – perguntou assustada.

— Vou pegar o ônibus am anhã para São Paulo. Tenho um encontro im portantíssim o dia 15, ao m eio-dia... – e contei-lhe a conversa.

— Mas esse endereço é o da casa do cirurgião?

— Não sei, não perguntei. Além do m ais, esse m édico opera ilegalm ente, j á que essas cirurgias não são perm itidas aqui. Espero que não sej a nenhum charlatão!

— Porto não indicaria um escroque... Mas por que só agora resolveu revelar isso? Sabia perfeitam ente que há m eses você não pensa em outra coisa! Não lhe prom eteu até escrever um a carta para o Hospital de Stanford, apresentando o seu caso?

— De fato, m as nem sabem os se esse cara opera transm asculinos (trans-hom ens). Pelo que entendi, só transfem ininos. De qualquer form a, poderá m e dar m elhores inform ações sobre a cirurgia aplicada ao m eu caso.

Am anda pegou m inha m ala e com eçou a desfazê-la.

— Ei, o que você está fazendo? – perguntei, sem entender o que pretendia.

— Im agino com o deve ter feito essa arrum ação! Além do m ais, vou botar m inhas coisas aí tam bém . Acabo de resolver que vou j unto. Já te conheço o suficiente para saber com o você vai ficar nervoso. Não disse que estaria a seu lado até o fim ? A que horas sai o ônibus am anhã?

Am anda parecia ler m eus pensam entos. Precisava que fosse, porém não tinha ousado lhe pedir. Foi adorável ela ter decidido espontaneam ente.

Viaj am os seis horas. Desem barcam os às 11 horas da m anhã. Foi o tem po suficiente de tom ar um táxi e seguir para o endereço dado. Faltavam 15 m inutos para o m eio-dia quando descem os em frente a um a suntuosa m ansão. Conferi o núm ero da casa. Resolvem os esperar do lado de fora. Passaram -se 30 m inutos, e nada de Porto chegar. Foi quando Am anda sugeriu que talvez j á estivesse lá dentro.

Tocam os a cam painha. Um m ordom o veio atender.

— Sabe nos dizer se o Dr. Porto se encontra?

O em pregado pediu que aguardássem os. Retornou.

— Passem , por favor.

Atravessam os dois grandes salões; à esquerda, no m eio de um a m agnífica biblioteca, estavam os dois conversando, afundados num sofá.

Levantaram -se. Porto nos abraçou enquanto nos apresentava:

— Farina, este é João, de quem lhe falei, e esta, Am anda, sua m ulher.

Sorriu.

— Só estávam os esperando vocês para m andar servir o alm oço. Tom am algum aperitivo?

Farina m e surpreendeu. Se não soubesse, j am ais diria que era um cirurgião. Não apresentava os traços de agressividade ou exuberância tão com uns entre seus colegas. Com a fisionom ia m ansa, quase cândida, gestos calm os, voz branda e pausada, parecia m ais um sacerdote.

Durante a refeição, a conversa foi corriqueira. Além de nós quatro, sentaram -se à m esa seus filhos e sua esposa. Lastim avelm ente, m eu apetite não reverenciava à altura aquelas iguarias. Estava em ebulição, parecia que ia explodir. Continha-m e para não detonar. Eram tantas as perguntas a fazer, tantas as inform ações a obter que não via a hora de nos levantarm os dali e conversarm os a sós.

Entretanto, o papo do alm oço foi produtivo. Deu para perceber que Farina, pelos cargos que exercia dentro dos hospitais e por suas atividades, era um m édico bem -conceituado.

Fiquei intrigado. Por que será que um hom em tão bem de vida, que parecia realizado dentro do que exercia, tinha se m etido num cam po tão controvertido e ilegal com o o da transexualidade? Seria por sam aritanism o? Pioneirism o? Necessidade de quebrar a rotina, arriscando-se em lances m ais perigosos?

Finalm ente, passou o guardanapo nos lábios. Levantou-se e nos convidou:

— Vam os tom ar o café no m eu escritório.

Virou-se para a m ulher, avisando:

— Não estou para ninguém .

Confortavelm ente nos acom odam os. Porto tom ou a palavra.

— Farina, por tudo o que tem os constatado, parece que João é um caso legítim o de transexualidade. Estive, inclusive, na sem ana passada, com o psiquiatra de nossa equipe, que o está assistindo. João vai indo m uito bem . Confesso que a gente fica sem pre m eio receoso quando aparece um caso desses, principalm ente por ser fem inino (trans-hom em ), que é m ais raro. Hoj e, entretanto, depois de todas as dificuldades que lhe apontei, das possíveis consequências sociais e psicoem ocionais que discutim os e de ver a coerência com portam ental de João com sua persistência em querer se operar, com eço cada vez m ais a acreditar nele. Além disso, é o prim eiro que vem a m im apresentando um nível de instrução superior. Com o é tam bém psicólogo, vej o um a possibilidade de que nos traga m uitas contribuições. É um a pessoa de boa form ação fam iliar, m uito inteligente e, acim a de tudo, parece-m e extrem am ente lúcido.

Porto ultrapassou m inhas expectativas na apresentação que fez de m im para Farina. Quando este ia com eçar a falar, a porta se abriu, e a copeira entrou com o café. Foi só depois do licor que o cirurgião se pronunciou:

— É um belo rapazinho! Não vai precisar m udar m uita coisa... – brincou. — O difícil é quando nos chega um paciente que quer trocar de sexo, m as não traz no tipo físico nada que possa contribuir favoravelm ente para essa m udança. Geralm ente, é preciso m exer em características secundárias, com o nariz, queixo etc., quando não apresentam problem as insolúveis, com o a altura. Aí, as coisas ficam bem m ais com plicadas. Sua situação é difícil em se tratando de um a transform ação para o sexo m asculino, o que não se obtém com um a ou duas cirurgias, m as várias. De qualquer m aneira, é um caso a se pensar.

Essa últim a frase ficou ressoando nos m eus ouvidos. “Caso a se pensar. Mas... ele faz esse tipo de operação?”

Farina continuou:

— A m aioria que veio a m im era de transfem ininos (transm ulheres) com um baixo poder aquisitivo e intelectual. Quase todas foram expulsas da casa dos pais e tiveram de se m anter sozinhas, em em pregos com o m anicure, cabeleireiro ou em shows de travestis. São as poucas profissões em que conseguem trabalhar com o m ulheres. O fato é que felizm ente as que operei saíram do desespero em que viviam . Estão adaptadas e felizes com os resultados pós-cirúrgicos. O m aior problem a continua sendo a falta de reconhecim ento legal da m udança de identidade. São m ulheres com docum entos de hom em .

Era anim ador ver alguém falando com tam anho entusiasm o do assunto. Continuava m e contendo para não o interrom per e fazer a pergunta capital que m e m artelava a cabeça. Achei que seria m ais gentil no m om ento esclarecer a m inha prim eira curiosidade.

— Mas com o foi que você, um m édico tão respeitado, foi se m eter num problem a de m inorias?

Farina aj eitou-se na poltrona:

— Para ser franco, nem eu m esm o sei. Trabalhei m uitos anos com plástica restauradora genital. Achei o cam po tão fascinante que im portei literatura técnica sobre o assunto. Um dia, um psiquiatra am igo m e falou de um cliente que apresentava um caso típico de transexualidade. Estava convencido de que a única solução para o rapaz era a cirurgia. Mostrou-m e pesquisas sobre o tem a que coletou em várias fontes de que tinha ouvido falar num congresso na Europa. Em bora o assunto tivesse m e m obilizado na época, foi só com esse psiquiatra que com ecei a pensar seriam ente na questão. Seu paciente tinha ido a um endocrinologista e a um geneticista, e discuti o caso com am bos. Gostaria que eu o recebesse em m eu consultório. Com o procuro não ser rígido a priori, aceitei a proposta. Quando m inha secretária anunciou sua presença e a vi, tive um im pacto. Era um a m oça! Magrinha, m uito tím ida, usava um vestido sim ples e um a bolsa a tiracolo. Tinha seios, a voz era fina. O psiquiatra havia m e dito que tom ava horm ônios desde a adolescência. Mas só agora, há uns dois anos, é que tinha ido procurá-lo. Conversam os um as duas horas. Fiquei im pressionado! Não precisava ser nenhum especialista em psique hum ana para não ter dúvidas de que se tratava de um a m ulher! Não m anifestava nenhum m aneirism o ou exibicionism o. O desespero daquela criatura era algo tão pungente e com ovedor que pela prim eira vez senti de perto a dor desses infelizes. Tivem os m ais alguns encontros. Foi então que eu reuni coragem para enfrentar a ilegalidade da situação. Quando disse que concordaria em operá-la, sua reação foi inesperada. Aj oelhou-se e beij ou m inhas m ãos.

Farina olhou o relógio e se levantou.

— Vão m e desculpar, m as tenho de ir para a clínica. Infelizm ente, hoj e à noite tenho um a reunião im portante, m as, se quiserem esperar até am anhã à tarde, podem os continuar o nosso bate-papo.

Apesar dos seus com prom issos m ais do que j ustificados, era im possível perm anecer até a tarde do dia seguinte. Seria um a despesa alta e nos com plicaria no trabalho. Não poderia, porém , m e retirar dali sem ter nada de m ais concreto, sem ao m enos saber das m inhas chances.

Saím os j untos, e, j á na calçada, dei um j eito de ficar a sós com ele. Dessa vez, não perdi tem po.

— Farina, j á fez operações em transm asculinos (trans-hom ens)?

Respondeu de form a evasiva:

— Já acom panhei de perto um caso – e m ais não disse.

Entendi que podia ter assistido um a cirurgia no exterior.

Meu coração disparou.

— E m e operaria, caso a m inha transexualidade fosse com provada?

— Por que não? Mas precisaria do laudo psiquiátrico a favor. Sou um m ero executor. O ponto final para onde converge todo o resto.

Fiquei rindo uns cinco m inutos, enquanto acenava, vendo-o partir no seu carro. Não era possível! Será que conseguiria finalm ente realizar m eu grande desej o, sem ter de ir para o estrangeiro? Nada m ais m e im portava a não ser conseguir esse precioso e decisivo laudo.

Ao nos despedirm os de Porto, indaguei:

— Por que não m e disse logo da existência do Farina, sabendo que estou angustiado há m eses, m aquinando com o poderia ir para os Estados Unidos, sem falar inglês, sem ter dinheiro e sem conhecer as exigências deles?

— Achei que não era a hora ainda de saber. Agora existem duas alternativas para escolher: se não conseguir aqui, ainda restará a de lá. Continua de pé o oferecim ento da carta, OK?

Ensaiei um sorriso irônico.

— Sua sorte é que estou m uito feliz hoj e, porque achei um a sacanagem isso que fez com igo. Não tinha o direito de m anipular m eus sentim entos desse j eito!

— Calm a, rapaz! Em vez de estar agradecido pelo que fiz por você, ainda está danado com igo?

Um a coisa não j ustificava a outra.

— Foi um filho da puta, m as o diabo é que gosto um bocado de você! – apertei-lhe a m ão e segui direto com Am anda para a estação rodoviária.

Enquanto esperávam os a saída do ônibus, enxerguei então o absurdo de toda a situação: estava com pletam ente na m ão dos outros. O problem a era m eu; quem sofria e sabia do que se passava dentro de m im era eu. No entanto, era um a equipe m ultidisciplinar “especializada” que decidiria o que eu era, com o m e sentia, qual a m elhor solução para a m inha vida. Sem qualquer liberdade de escolha e ainda dando graças a Deus por existir um a saída!

Durante a viagem de volta, toda hora vinha à m inha m ente o diálogo que tive com Farina na calçada. Quase chegando em casa, Am anda perguntou:

— Não vai m ais parar de rir, não?

— Sabe, am or, apesar de todas as dificuldades, é um a m aravilha estar vivo.