Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 58 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 19

TRINTA ANOS DEPOIS

 

Os espelhos fariam bem em refletir um pouco mais antes de

devolver imagens.

Jean Cocteau

 

De repente, recebi um conhecido beij o na careca:

— Oi, pai!

— Meu filho! Já sei, veio procurar o seu ovo...

Mesm o aos 24 anos, Yuri não abria m ão do ritual da Páscoa. E tinha de estar escondido.

Olhei aquele hom em , ainda com ar de m enino tím ido, a essas alturas j á com a cara suj a de chocolate. Fiquei em ocionado. Com o reafirm ou seu am or por m im , m esm o quando soube do “pai-torto” que eu era. Ainda não m anifestara qualquer vontade de conhecer o pai biológico e seus m eio-irm ãos, que sabia existirem , desde os 13 anos.

Logo depois da “revelação”, Lola rom peu a única exigência que lhe havia feito para ser o pai. Havia ligado para o Cássio. Contou-lhe da gravidez e do adolescente que o filho deles se tornara. Possivelm ente am edrontado com as notícias am eaçadoras para sua fam ília “oficial”, ele silenciou, sem ao m enos dar um único telefonem a para Yuri.

Lem brei-m e de com o m eu filho tentou m e defender quando fui am eaçado de ser entregue à Justiça pelo desespero de sua m ãe. Teve a grandeza de nos perdoar por tudo o que acontecera. Continuava terno com os dois, assim com o aprendera a se bastar sozinho, sendo filho único, sem reclam ar da falta de com panhia para brincar, convivendo bem com a solidão.

Até então, a única pessoa a quem tinha contado nossa história foi à nam orada, depois de quatro anos. Nem aos am igos m encionara nada, em bora soubesse que tinha total liberdade para fazê-lo. A história não era m ais só m inha.

— Pai, eles não vão entender com o eu gostaria. Talvez para o Paulo, um dia...

Ganhei a chance de vivenciar a paternidade daquele filho que aj udei a tornar um a pessoa íntegra e que aceitava as diferenças.

Eu não tinha term inado as cirurgias, m as isso não m e fazia m enos hom em ou pai, e essa certeza era confirm ada tam bém pela nossa relação.

Lem brei-m e de quando estudava com ele. Do dia em que lhe m ostrei que a Matem ática tam bém tinha seu lado filosófico. E ele, surpreso, por não ter conseguido im aginar um infinilátero, o polígono com infinitos lados.

Por ele m e perm iti ousar m ais e ver o m undo diferente. Meu problem a passou a ser, de certa form a, secundário, diante da sua existência. Tornei-m e m ais hum ilde e paciente.

Quando lhe contei que estava escrevendo um novo livro, agora incluindo ele e a m ãe, com entou im ediatam ente:

— Não quero nem saber deste livro. Já sei que vão ter passagens m uito dolorosas para m im , sobretudo relativas à m inha m ãe.

E coraj osam ente com pletou:

— Pois fique sabendo, pai, que, com o só tem um banheiro lá em casa, é com um eu ver m inha m ãe nua e tam bém ficar nu na frente dela, sem constrangim entos, e tam bém m eu padrasto. Com você, só consegui ficar de cueca e assim m esm o há um m ês. Sem pre soube que havia algo estranho, devido às cicatrizes, ao m istério de não o ver nu, nem de m ij ar na m inha frente. Já achei seu pênis um as três vezes durante todos esses anos, inclusive quando você ainda estava com a Gina num a viagem que fizem os j untos.

Yuri concluiu que eu o idealizava de form a errada, pois com os am igos ele era diferente e contava até piada de bicha, ao que respondi:

— E daí? Eu tam bém conto.

Quantos anos ele levaria para tirar o novo livro da estante? O prim eiro levara dez anos.

 

Aproxim ei-m e um pouco m ais e, ternam ente, aceitei dar um a m ordida no seu ovo de Páscoa, com o um cachim bo da paz.

Senti que a m inha paternidade tinha valido a pena e, sobretudo, que ele se tornara o m eu “acerto” na vida.

Depois de lhe contar a últim a conversa com m eus am igos trans, sobre o hom em grávido, perguntei a opinião dele. Respondeu sem pestanej ar:

— Acho que precisam os ser m ais tolerantes.

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João W. Nery

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