Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 46 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 7

CRIANDO UM MENINO ESPECIAL

 

O que eu adoro em ti,

Não é a tua inteligência,

Não é o teu espírito sutil,

Tão ágil, tão luminoso...

O que eu adoro em ti, é a vida!

Manuel Bandeira

 

Eu continuava a trabalhar “de bico”, pintando apartam entos, fazendo m assagens e, m ais tarde, vendendo brincos de prata, criações de um a am iga. Às vezes era convidado para escrever algum artigo, com o o da revista Terceira Margem, em que os psicanalistas Eduardo Prado e Em ê Ribeiro m e propuseram o tem a “Anatom ia não é Destino”. Foi m uito gratificante.

Quando o leite de Lola secou, e ela precisou voltar a trabalhar, assum i com prazer o papel principal no cuidado do Yuri. Se eu tinha algum cliente de shiatsu em casa, m inha sogra vinha ficar com ele. Acabei ganhando a reputação de paizão.

Naquela época, fralda descartável era algo m uito caro, só se usava quando a criança saía. Eram de pano m esm o, dezenas delas. Além das fraldas, tinha de lavar a bunda dele, lógico, o que eu preferia fazer no tanque, sem a paranoia de desinfetar tudo. Em pouco tem po, aboli os cuidados excessivos, se a chupeta caía no chão, sim plesm ente passava um a água e pronto.

Depois que acabaram as cólicas dos prim eiros tem pos, em que m inhas m assagens parecem ter surtido efeito, Yuri passou a com er e dorm ir bem . Lola caprichava nas sopinhas, e eu dava as m am adeiras. Calorentos, nós dois, logo que ele cresceu m ais um pouco, passam os a tom ar banho de m angueira no quintal, na m aior farra. Mas só pude m anter o hábito até os seus dois anos, porque deixei de m e despir e fazer xixi na frente dele.

É claro que ele iria notar a diferença dos outros pais. Mas eu achava que não poderia contar a ele tão cedo, por ser tam bém um a questão de legalidade.

Yuri tinha uns quatro anos quando um dia ele aparece com m eu pênis artificial na m ão, encontrado num a gaveta do arm ário:

— Pai, não consigo tirar o m eu. Com o você faz?

O deslum bram ento dele foi sem elhante ao m e ver tirar a prótese dentária para lim par, o que parecia um a m ágica.

— Pai, e essas cicatrizes no peito, o que aconteceu?

Inventei um acidente, visivelm ente constrangido. Aos poucos, ele percebeu que não era para perguntar o m otivo das m inhas “diferenças”. Só quando ele tinha 13 anos, alguns m istérios seriam esclarecidos.

Meu filho seria realm ente especial, decidi. Não queria criá-lo com consum ism o, desperdício ou chantagem . Que ele aprendesse a com er de tudo, dorm ir sem grandes rituais, não ter m edo do escuro, enfim , de perder o m edo de ter m edo e, m ais tarde, de perder o m edo de perder. Mas de um a coisa eu não abria m ão: colocá-lo na cam a para dorm ir. Aj eitava o lençol, fazia um cafuné, às vezes deitava j unto dele e o cobria de beij os. Tam bém gostava de lhe contar histórias de bichos, inventadas na hora, com o papai fazia com a gente. O cafuné logo lhe dava sono, m as as histórias o despertavam .

— Onde m ora o tubarão?

— No rio – ele respondeu.

— Não, no m ar. O rio tem água doce, o m ar tem água salgada.

— Ele bebe água salgada? Ele gosta?

Se acordava no m eio da noite, em geral era eu que levantava. E tam bém de m anhã cedo, enquanto a m ãe dorm ia m ais um pouco. Lola era um a m ãe carinhosa. Ele adorava quando ela lim pava os ouvidos dele e ria das “cosquinhas”.

Quando com eçou a com er carne, só lhe dávam os de rã. Ele nunca tinha provado carne verm elha. Até o dia em que fom os visitar m inha irm ã caçula, a Van. Ela achou a m aior frescura e tascou um boi ralado na sopa do garoto. A partir de então, o cocô dele passou a ser fedorento.

Um dia apareceu um a barata na sala enquanto víam os televisão. Lola deu um grito, e eu a alertei:

— Não assuste o m enino! Não será bom para você nem para ele ter m edo.

Lola nunca m ais gritou. Em pouco tem po, Yuri j á tinha aprendido com igo a pegar o chinelo e m atar as baratas que apareciam , num a grande farra.

Eu j á não podia carregá-lo no colo, por causa da coluna. Mas adorava sair com ele de m ãos dadas. Acabou se tornando um ótim o andarilho.

Achava m uito engraçado quando eu ou Lola brincávam os de m iar ou latir para ele. Depois de grandes gargalhadas, tinha soluço. Ainda bem pequeno, dem onstrava ciúm e de quando nos beij ávam os, colocava a m ãozinha entre nós. E fazia aquelas besteiras todas de criança, brincar com a água da privada, sair com o rolo de papel higiênico pelo corredor, chupar os botões do aparelho de som , bater na cortina de bam bu da sala para ver o som que fazia até ela lhe despencar em cim a... Enfim , descobrindo o m undo à sua volta.

O prim eiro aniversário foi com em orado no playground do prédio. Lola lhe fez um a fantasia de super-herói, com um a capa esvoaçante. Mam ãe trouxe o teatrinho de fantoches que ela apresentava quando era professora e representou com m inhas irm ãs o Chapeuzinho Verm elho e Os Três Porquinhos.

Com dois anos foi para a escola. Durante um a sem ana a m ãe ficou o tem po todo com ele. Depois foi a m inha vez, ficava cerca de duas horas e ia em bora quando a tia achava que estava bem . Mas foi com Davi, um am igo trans com o eu, que estava hospedado lá em casa, que ele realm ente deixou de reclam ar por ficar sozinho na escola. Essa foi um a das poucas am izades com um trans que m antive ao longo dos anos, pois Davi m e aj udou m uito, apesar de ser m ais j ovem que eu. Tinha cursado Medicina e pretendia fazer outra faculdade, com a identidade m asculina. Acabaria se form ando em Adm inistração.

Minha preocupação em não tornar Yuri m achista m e fez ensiná-lo a não bater em ninguém . Isso acabou lhe criando problem as na escola, m as de algum a form a ele aprendeu a se defender. Tam bém gostam os quando um a am iga lhe deu de presente um bebê de borracha. Dava banho e o ninava com o um paizinho carinhoso. Felizm ente o boneco não era nenhum guerreiro tipo Falcon, era sim plesm ente um m enino.

Quis criar m eu filho com o um hom em gentil, sincero, sensível, que não tivesse vergonha de chorar. Enfim , decidi adotar todos os m elhores valores que na nossa cultura são considerados fem ininos, sem fazer dele um ser necessariam ente efem inado, fortalecendo sentim entos que dificilm ente são enaltecidos nos hom ens. Mesm o sendo um trans-hom em , fazia questão de preservar essas características, atitude esta rara em m uitas pessoas do m eu gênero.

Surpreendeu a pediatra quando o levam os a um a visita de rotina, m ais ou m enos por essa época: era o prim eiro paciente que nunca havia tom ado antibiótico!

Nas nossas brincadeiras, eu adorava fazer cara de m acaco, catar caranguej os em seu sovaco para lhe provocar cócegas, m atar bichos im aginários e nos esconderm os debaixo do lençol. Adorou quando foi ao Zoológico e conheceu os hipopótam os – ele viu o casal “se beij ando”. Foi quando aprendeu a dizer cavalo em vez de “vagalo”.

— Papai, bigado. Eu te am o você – ouvi encantado, ao lhe cobrir num a noite fria com o cobertor.

— Pai, com pra outra tevê e não avisa o ladrão – m e pediu, depois de dois assaltos em casa, agora um im óvel m aior, presente de m eus pais.

— Ela tá falando errado, não tá, pai? – perguntou-m e, sobre a m oça falando inglês na televisão.

Cheirando a rosa perfum ada que eu dei a Lola, perguntou:

— Ela tom ou banho?

Yuri aprendeu a nadar e a subir no pé de m anga do quintal. Eu e Lola gostávam os de inverter os papéis e brincar com o se ele fosse o adulto. Depois de algum tem po com nós dois sendo bebês, ele pedia:

— Ri para m im .

Ressabiado, queria ter certeza de que não estávam os zangados com ele.

Aceitando a sugestão de um am igo, topei fazer nosso m apa astral. Em bora avesso às forças ocultas, surpreendi-m e com os resultados. Sem saber nada da m inha história, a astróloga acertou em cheio nas características dos m eus pais. E m e arrepiou quando acrescentou que eu tinha um lado fem inino forte.

Do m eu filho, previu que seria adm irado no trabalho e que gostaria de viver em com unidade. Seria am bicioso, no m elhor sentido, e poeta. Sobre Lola, deveria ter cuidado para não ser invasora, e eu, para não ser ausente. Nisso parece que o destino se cum priu. Mas avisou sobre o livre-arbítrio com que cada um faria as próprias opções na vida.

Um a das brincadeiras de que eu m ais gostava era dar cam balhotas com ele com o as do palhaço Carequinha. Quando eu tinha nove anos, ganhei o concurso de quem dava a m elhor cam balhota no program a dele na televisão. Sabia abanar o chapéu e fazer a pirueta sem encostar a cabeça no chão. Depois colocava o chapéu na cabeça, batia palm as, virava os braços para dentro, cruzava tam bém as pernas e abaixava a cabeça, com o o toque final exigia. Apesar de vencer vários garotos na disputa final, a dupla Carequinha e Fred resolveu dar o prêm io a um m enino cadeirante que estava na plateia. Não recebi sequer um prêm io de consolação.

Eu fazia com ele m uitas outras brincadeiras de quando eu era criança, com o am arrar um pano nos olhos e brincar de esconder, ou ter de descobrir o que o outro tinha nas m ãos. Tam bém passávam os um bom tem po com os j ogos de arm ar, m ontando robôs e casas. Nunca lhe com prei um a arm a.

Mas o que eu tem ia acabou acontecendo. Lola se desinteressou do nosso casam ento. Dizia que eu era um ótim o pai, m as que deixava a desej ar com o am ante. Por outro lado, ela se sentia um pouco rej eitada pela m inha fam ília e tem ia que o m esm o acontecesse com o Yuri. Eu tam bém não estava satisfeito. Não queria perder m eu filho, m as reconheci que a separação era o m elhor cam inho.

Lola fez a m ala, pegou o Yuri pela m ão e disse:

— Dá até logo para o seu pai. Depois venho buscar o resto das coisas.

Fiquei im potente, na varanda, vendo através das lágrim as os dois descendo a ladeira.

Ela saía com um a certeza: eu não poderia brigar pela guarda do nosso filho.