Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 17 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 11

O CEGO QUE ME FEZ VER

 

De que vale olhar sem ver...

Goethe

 

Conheci Pedro Matheus por acaso, num café da Lapa onde fui com prar cigarros e acabei ficando.

Quando m e dei conta, era todo ouvidos para a m úsica descom prom issada, vinda de um a das m esas do fundo do bar. Vi um pequeno grupo cantarolando em volta de um suj eito m ulato, m agro, de óculos escuros. Na cara, alguns fiapos no lugar da barba. A princípio, fiquei de pé, observando a cena. O violonista, calado, só tocava, em endando um a m elodia na outra, sem deixar cair o ritm o quente e anim ado, enquanto à sua volta um pequeno grupo cantava.

Vez por outra, alguém sugeria um a canção. Só tocava o que queria. Não adiantava insistir. Im pressionei-m e com suas m ãos m agras e longas, quase cobrindo o tam po do violão. Com elas, extraía um som m isto de solo e acom panham ento.

Era inverno, e resolvi pedir um vinho.

Duas horas transcorreram desde o prim eiro copo. A m oçada ao seu redor foi em bora. Só restam os Pedro Matheus e eu.

Ouvindo m inha voz, parou de repente:

— Você é anim ada, m as para cantar é um a desafinação só.

Olhei para os lados conferindo não haver m ais nenhum freguês. Cantando, eu m e traí. Por ser cego, ele distinguiu o tim bre fem inino da m inha voz. Ainda m e recom pondo do inesperado, falei-lhe:

— É, tenho um a voz horrível, m as em com pensação nunca vi alguém tocar com o você.

Ele devia ter bebido m uito. Não retrucou. Recom eçou a tocar, em ocionado. Ao term inar, levantou o rosto e, com o se m e olhasse, perguntou:

— O que quer ouvir?

Senti-m e lisonj eado com o oferecim ento, m as preferi deixá-lo à vontade. Conhecê-lo m elhor por interm édio do seu repertório.

— Toque algo de que goste.

Endireitando o violão, fez um a introdução m agnífica e, com pletam ente m udo, solou com todo o coração um a m úsica que nunca ouvira. Ao fim , quis saber quem era o com positor.

— Hum ... – fez um a pausa e com pletou: — Essa é a m inha caçula.

Não adiantou pedir que repetisse. Apenas respondeu:

— Noutra ocasião toco para você.

Foi desse m odo que conheci Métius, com o o apelidei, um a pronúncia faj uta do seu nom e em inglês. Um a am izade que se tornou sim biótica. Descobri que dava aulas de violão na casa dos alunos.

Não acreditei quando a cam painha tocou. Com o havíam os com binado, estava ali, na m inha porta.

Em lua de m el com Mercedes, tínham os acabado de nos m udar para um quarto e sala acanhado, m as j eitosinho no Flam engo. Esticou o braço, procurando m eu om bro, enquanto a outra m ão segurava o violão. Sentam os, e quis saber se o que eu desej ava aprender era o clássico ou o popular. Estava sóbrio, e a sua voz era de um barítono belíssim o. Não sei por que optei pelo clássico. Acho que, depois do arraso no bar quanto à m inha desafinação, só restava m e tornar um m úsico erudito.

As prim eiras lições foram dadas com o m anda o figurino. A partir da quinta ou sexta, estava m ais interessado na sua conversa e no som que extraía daquela caixa m ágica do que em tocar o Estudo no 1 de Villa Lobos.

Só depois de seis m eses de convivência, percebendo sua falta crônica de dinheiro, é que lhe perguntei onde m orava. Sua resposta foi evasiva:

— Ah... Deixa isso para lá. Não tenho m esm o casa fixa. Onde estiver bom , eu fico.

Deduzi que era longe, porque falava de tom ar duas conduções.

Sem nem consultar Mercedes, num im pulso, convidei-o a m orar conosco. Ficou felicíssim o.

Trouxe o violão, um lenço, um a toalha e a bengala dobrável. O resto nunca vi. Vestia as roupas que eu lhe arranj ava. Em dois anos lado a lado, nunca o percebi m al-hum orado. Carregando para todo canto o m eu radiozinho de pilha – que ele batizara de Mudinho –, tornou-se o suj eito m ais bem inform ado do Brasil.

Descobri em Matheus um linguaj ar m etafórico com um toque de hum or da m alandragem carioca. Quando queria dorm ir, term inava a conversa dizendo:

— Vou dar com ida às pulgas.

Em algum as ocasiões, perdeu encontros im portantes por não haver alguém que o aj udasse a atravessar determ inada rua.

Chegava irado em casa, xingando a cegueira. Porém , costum ava brincar:

— Até que sou um cara sortudo. Sou cego, negro, pobre, m as felizm ente não sou m ulher!

Ou então, quando não conseguia cortar o bife no prato:

— Esta faca parece estar m ais cega do que eu!

Falava tam bém o inglês e tinha um a cultura bastante razoável, em bora tivesse parado de estudar no segundo grau.

Encantou-m e no dia em que m e abri com ele. Fui direto:

— Métius, Mercedes é m inha m ulher.

Tom ei fôlego para continuar:

— Fico m eio sem graça quando estou com você em público, porque visualm ente sou um hom em . Tratando-m e no fem inino, m e com prom ete. Deve ter notado que, às vezes, engrosso a voz.

Ouviu-m e sem nenhum a expressão especial no rosto. Só perguntou:

— Com o quer que o trate?

— Cham e-m e de Jô, com o faz Mercedes. É neutro e carinhoso.

— OK. Pode ficar descansado. Não errarei m ais.

E não errou m esm o. Não m e fez tam bém qualquer pergunta. Nem se m ostrou surpreso. A discrição talvez tenha sido um a de suas características m ais m arcantes. Com o atuava assim com igo, fiz o m esm o com ele. Não lhe perguntava nada m ais íntim o ou que pudesse em baraçá-lo. À m edida que queria, foi-se abrindo naturalm ente.

Matheus não colocava sua cegueira com o um m otivo de com plexo, m as ressaltava a dificuldade para resolver várias situações.

Aos poucos, satisfiz m inha curiosidade sobre seu m undo, sua percepção dos obj etos, com o ele sentia a vida ao redor.

Em bora apresentasse um a cegueira congênita, conseguia enxergar um pouco com o olho esquerdo quase colado no que tivesse nas m ãos. Via assim algum as cores e som ente contornos.

Sua presença em casa fez com que eu adquirisse certos hábitos um tanto excêntricos para as dem ais pessoas. Apagar a luz quando saía da sala, m esm o quando ele estava lendo. Andar sem cam isa e até nu, sem qualquer constrangim ento. Tornei-m e m ais organizado. Não deixava nada espalhado ou caído pelo chão, para evitar que tropeçasse. Decorou o lugar até dos m ínim os obj etos, com o cinzeiros e bibelôs, e evitávam os m udar a arrum ação.

Muitas vezes, tentei m e im aginar cego, executando suas tarefas cotidianas. Acender o cigarro segurando-o pela ponta, para saber se o fogo estava perto. Ouvir o barulho da água dentro do copo para não derram ar. Aj eitar a com ida constantem ente para dentro do prato, evitando que caísse.

Os telefones analógicos e fixos da época possuíam um disco com furos num erados. Matheus colocava o dedo m ínim o dentro do disco no núm ero 1 e o m antinha com o referência para, com os outros dedos, discar o restante dos algarism os. Essa habilidade dele nunca alcancei, com o tam bém não consegui aprender Braille.

O m áxim o a que cheguei foi passar um dia inteiro dentro de casa, num dom ingo, com os dois olhos fechados. Consegui m esm o sair com ele na rua com o se fosse cego, tendo-o com o guia, segurando no seu cotovelo, e ele um pouco m ais à frente, usando a bengala.

A calçada da Rua Marquês de Abrantes, onde m orávam os, no bairro carioca do Flam engo, era estreita, cheia de buracos e repleta de cocô de cachorro. Naquela época, ninguém se preocupava em carregar saquinhos de plástico para recolher as bolinhas dos seus pets. Meu guia calcava levem ente o solo a cada passo com o se a calçada fosse feita de ovos, em bora de form a desenvolta. Eu estava até m e saindo razoavelm ente bem , segundo ele, quando aconteceu. Escorreguei e m e desequilibrei. A dupla quase caiu, m as seguim os em frente até chegar ao cruzam ento com a rua da praia. Bateu a m aior paura. Não tive coragem ! Era m ais garantido m e certificar de que não vinha m esm o carro algum ...

Quando conheci Matheus, ele tinha 32 anos e j á havia sofrido uns 30 atropelam entos, sendo que da últim a vez j á m orava conosco.

Num a noite, estávam os vendo televisão, quando apareceu, de m ansinho, na porta do quarto.

— Ai, que susto, Métius! Quantas vezes pedi que entrasse em casa assobiando? Um dia nos m ata do coração!

Não fazia o m ínim o ruído. Nem a chave na porta ouvíam os.

O quarto estava escuro, m as, pela lum inosidade do vídeo, deu para perceber que sua roupa estava suj a, com o se algo tivesse sido derram ado.

— O que foi isso na sua cam isa?

Meio trêm ulo, respondeu.

— Ah, nada. Só um pouco de vinho.

Continuou parado e desconfiei que algo não estivesse bem . Levantei-m e. Acendi a luz e constatei um curativo na sua cabeça.

— O que aconteceu?

— Um puto dum carro que m e pegou – xingou, fazendo bico.

O atropelam ento foi j ustam ente diante do Instituto Benj am in Constant para cegos, aonde tinha ido apanhar uns livros. O m otorista, além de avançar o sinal, não parou para socorrê-lo. A sorte é que um pedestre o aj udou a se levantar e o levou ao Hospital Rocha Maia. Fizeram -lhe um curativo, sem m esm o radiografá-lo ou deixá-lo em observação. Felizm ente não tinha sido nada de m ais grave. Estava m uito nervoso e m e pediu um tranquilizante para dorm ir.

Dem onstrava algum as dúvidas que nunca im aginara que algum adulto esclarecido e m orando num centro urbano pudesse ter.

— Jô, com o é o j ogo de basquete? Sei do núm ero de j ogadores, das duas cestas, m as não consigo ter a noção de com o o pessoal se desloca em cam po.

Às vezes, tinha curiosidade de saber sobre o tipo físico de certas pessoas. Antes de responder, perguntava com o ele as im aginava, baseando-se apenas na voz, para saber se havia algum a correspondência.

Além de todas essas m inhas descobertas de outro m undo, houve um a que talvez tenha sido a fundam ental no m eu crescim ento. Por interm édio dele, com ecei a perder a revolta e o espírito de com petição em relação aos hom ens. Em bora tivesse um pênis, fosse fértil (tinha até um filho, com o vim a saber m ais tarde), enfim , um hom em perfeito num certo sentido, não m e am eaçava em nada. Pelo contrário, ficava pensando sobre o que seria pior: ser hom em , m as não enxergar, ou nascer vendo, m as não poder ser hom em . Nunca chegava a um a conclusão. A im potência de nascer com um corpo trocado m e parecia insuportável. Entretanto, sentia a cegueira com o terrificante. Havia entre nós dois um a diferença básica: em bora fôssem os representantes de m inorias, a sua deficiência inspirava com preensão, a m inha, não. A conduta geral dos outros com ele era de com paixão, atenção e carinho. Todos queriam aj udá-lo. Até desculpavam certas atitudes, por ser cego. Se fosse grosseiro, quando estava de saco cheio, ninguém se irritava. Se pedia que lhe alcançassem algum obj eto, ninguém presum ia preguiça ou abuso, e era prontam ente atendido. Eram louvadas e reconhecidas as m ínim as coisas que executava sozinho.

Certa ocasião, após tom arm os vários copos de cervej a, abordou a questão com igo.

— Você descreveu exatam ente com o m e sinto quando estou diante de pessoas estranhas, porque com os conhecidos não tenho tanta colher de chá. Incom oda-m e esse extrem o cuidado. Agora, im agino o seu caso, quando o problem a é visto com o um a agressão, um a tara. Não é isso? As pessoas devem achar que você está m aluco, precisando de psiquiatra, ou então devem considerá-lo um pervertido, um sacana, ou coisa parecida. É claro que estou falando do geral, pois penso que, tam bém com o no m eu caso, com os parentes e os am igos sej a diferente.

— Nem sem pre, Métius. Meus pais, por exem plo, m e veem com o tendo um sério distúrbio psicológico, talvez m esm o um a espécie de doença, passível de cura, caso tratada. E para não m e m agoar ou a si m esm os, não tocam no assunto. Ignoram m eu sofrim ento, m inha m ulher, enfim , m inha vida. O pior de tudo é o afastam ento afetivo. Sinto-m e frequentem ente relegado. Sei que m e am am , m as, com o em m im não há nada que os convide à intim idade, não ficam à vontade para conversar, e o único carinho físico o beij o form al de cum prim ento. Preocupam -se exclusivam ente com m inha saúde, m inha situação financeira e m eu futuro profissional.

Matheus se envolveu de tal m aneira que exclam ou:

— Mas que filhos da puta! Será que eles não têm pena de você?

— Pena, não. Vergonha! Pena só se tem quando o suj eito é vítim a da situação. Você, por exem plo. Seu defeito é involuntário, m as o m eu é visto com o fruto da m inha opção. Quem m andou ter “escolhido” o cam inho errado?

Meu am igo cego ia vendo cada vez m ais profundam ente. Estava sério quando retrucou:

— Só não estou entendendo um a coisa: o m eu problem a é físico, indiscutivelm ente, e o seu? É físico ou m ental?

— Físico – disse-lhe sem pestanej ar. — Nasci com um corpo errado, que não m e serve para nada. Se a solução estivesse na cuca, teria tentado tudo para aj ustá-la ao corpo. Mas, infelizm ente, sei que só um a lavagem cerebral poderia apagar e repor tudo de novo. A m inha esperança é que a ciência evolua, e eu possa, um dia, aj ustar essa carcaça ao m eu cérebro...

E ele, desanim ado, concluiu:

— É, estam os os dois sentados, esperando que a bendita ciência evolua...

Foi então que lhe perguntei se j á havia procurado um especialista.

— Fui, m as não tem j eito. Disseram -m e que nem cirurgia resolveria. Parei de m e iludir, m as conform ado nunca vou estar!

Entendi perfeitam ente o que estava querendo m e dizer e quis saber de que m odo tinha descoberto que era cego.

— A m inha cegueira é de nascença, e até os seis anos ninguém havia m e falado nada. Com o nasci no interior do Espírito Santo e era filho único, isso facilitou a m eus pais m e esconderem o problem a. Tratavam -m e norm alm ente e fazia de tudo. Cheguei até a andar de bicicleta!

— Bi-ci-cle-ta! – exclam ei surpreso.

— É claro que m e estrum bicava todo. Ia em cim a das coisas e vivia caindo. Mas achava que era assim com todos. Só aos seis anos tive m aior acesso às brincadeiras de rua. Vivia m uito preso. Quando pude m e com parar com as outras crianças, fui percebendo que ninguém se arrebentava tanto quanto eu. Até hoj e não sei direito, m as acho que os m eninos do bairro estavam avisados para não m e dizer nada. Sentia que não queriam conversar com igo e tam bém não gostavam de m e incluir nos seus j ogos. Mam ãe m antinha tudo organizado dentro de casa, portanto não havia dificuldades para m e locom over ou fazer m inhas tarefas. Quando ingressei no colégio foi que descobri definitivam ente a m inha cegueira, em bora j á desconfiasse que havia algo errado com igo. Preferia ter sabido desde o início, pois, além dos problem as que essa revelação m e causou, corri risco de m orte. Duas vezes fui atropelado na frente de casa.

 

Para m elhorar o orçam ento fam iliar, botam os um anúncio no j ornal de aula de violão. Quando o aluno j á tocava e queria aperfeiçoam ento e noções de harm onia, Matheus m inistrava as aulas. Quando era iniciante, eu virava o professor.

Dorm ia no estreito sofá da sala. Num a m anhã, ao acordar, vi que tinha trazido um a m ulher para dorm ir com ele.

A princípio não gostei, pois era um a estranha dentro da nossa casa.

Era cega, m uito feia, de aspecto m altratado e a quem fui apenas apresentado. Depois que ela foi em bora, ele veio se explicar.

— Jô, desculpe não ter avisado antes, m as Virgínia é um a m ulher tão encantadora que não resisti em convidá-la a passar a noite com igo. Além disso, conheço-a há m uito tem po.

— Acha essa m ulher encantadora? Faltam até dentes na sua boca!

— Tem um a pele m aravilhosa, um cheiro inebriante, um carinho especial... Ela é linda!

Diante dessa revelação, voltei para a cam a para dorm ir m ais um pouco.

 

Tenho saudades do seu j eito, do seu riso diferente, quando exibia os dentes e fazia som de gargalhada. Era assim que m ostrava satisfação.

Matheus foi o irm ão que não tive.

Um dia m e disse que tinha arranj ado um a dona e ia m orar com ela.

Só nos vim os m uito tem po depois, quando veio m e visitar. Eu j á casado com Am anda, m orando no apartam ento dela. Entrou, sentou-se na alm ofada e com eçou a alisar o chão, prim eiro com a ponta dos dedos, depois com a palm a; então, percebeu que estava pintado de epóxi branco. Falou eufórico:

— Rapaz, o seu chão não tem taco! É lisinho, branco, e parece marshmallow. Dá até vontade de lam ber!

 

Após m uitos anos, Matheus se casou com um a cantora e poetisa tam bém cega, que fazia parceria com ele nos shows que apresentava em bares. Era um a cearense porreta, que cantava descalça, sem pre de branco. Ela própria fazia os vestidos. Eram sem pre tecidos do Ceará, que costurava à m ão nas laterais, transform ando-o num a espécie de caftan, deixando só os buracos abertos para a cabeça e os braços. Tiveram m ais dois filhos norm ais, que educaram sem em pregada. O filho, a quem deu o nom e de João, j á tocava cavaquinho aos quatro anos.

Num a ocasião, no intervalo de um a de suas apresentações em Santa Teresa, conversam os eu e ela. Só então descobri que não sabia nada da m inha história. Fiquei surpreso, pois eram casados há m uitos anos. Ouviu, com ovida, o m eu relato e no fim teve a reação m ais inesperada que recebi:

— Jô, que história linda! Agradeço pela lição de vida que m e deu. Sem pre há coisas para se aprender – e apertou m inhas m ãos.

Depois, perguntei ao Matheus por que nunca tinha com entado m inha história com a m ulher. Foi sucinto:

— Essa história é sua, e não m inha. Você é que tinha de contar, se quisesse.

Mais um a lição que aprendi com m eu am igo – sua noção gigantesca de respeito pelo outro.

Até hoj e, acontecem situações em que m e surpreendo de alguém saber da m inha história, sem que eu tenha contado diretam ente.

 

A últim a vez que o vi, j á com 62 anos, foi na sua quitinete, no Largo do Machado. Sua m ulher havia m e ligado para que fosse visitá-lo. Tinha estado internado para tratar de um câncer de esôfago. Tudo indicava que havia m etástase e pouco tem po de vida.

Quando entrei, estava sentado na cam a, com o filho João ao lado, que não parava de acarinhá-lo. Cham ei-o logo para m e reconhecer.

— Métius...

Colocou o dedo no buraco da traqueotom ia e, com um fiapo de voz, respondeu:

— Jô, que bom te ver!

Estava m uito m agro e abatido, m as ainda conseguia sorrir.

Relem bram os j untos todos os nossos m om entos alegres e ainda teve forças para pegar o violão e tocar para m im a sua caçula.

Foi nossa despedida.