Viagem Solitária
Capítulo 4
A CRISE NO CLÃ
Amadurecer é a transcendência do suporte ambiental ao
autossuporte.
F. Perls
Desde o fim da m inha adolescência, m uitas m udanças tinham ocorrido na fam ília. Entre as irm ãs, Mariana era até então a m ais distante. Na m inha infância e adolescência, o fato de ter seis anos a m ais do que eu representava um a outra geração. Não convivi com seus anseios nem conheci seus desesperos. Depois de adultos, quando pareceu que o tem po igualara nossas diferenças, acabam os nos aproxim ando. Casualm ente, ficou sendo tam bém a única irm ã a m orar no Rio, o que contribuiu para um m aior entendim ento. Tinha cursado Letras e era professora.
O m arido de Mariana era um engenheiro m inucioso. Um suj eito form idável que, da severa educação recebida, trazia um senso profundo de honestidade e certo retraim ento. Garcia m e enternecia com a sua docilidade. Um a dessas pessoas que, se você pudesse esprem er, só sairia bondade. Sem pre bem -intencionado, transm itia um a confiança do tam anho do m undo. Sobretudo, era um am igo de verdade, o que m e foi confirm ado diversas vezes.
Eles tiveram um casal de filhos com um a esperteza deliciosa. Moravam perto de m im , e nos víam os regularm ente, às vezes para um carteado, quando Am anda tam bém ia, com pletando a parceria.
Ao perguntar à Mariana com o via m inha situação, sim plesm ente respondeu:
— Prefiro não pensar m uito. Aceito, porque gosto de você.
Am anda, por ser m ais sim pática que Mercedes, soube conquistá-los, em bora a m esm a situação não se desse com Leila, a segunda irm ã, que fazia Antropologia. Ela acabou casando com o cirurgião plástico que m e operou da prim eira vez. No entanto, não se resignava a ser apenas esposa de doutor rico. Depois de ter tam bém um casal de filhos, resolveu se separar do m arido, m as perm aneceu m orando em Brasília.
Obteve sucesso na profissão dando aula na universidade e dedicando vários anos ao estudo da Antropologia, aproxim ando-se da Psicanálise. Diferentem ente de Mariana, era extrovertida e afetuosa. Continuava se envolvendo nos problem as da fam ília, e a m inha situação a incom odava m uito:
— Não posso adm itir um a coisa dessas, Joana! Você não quer é assum ir a m ulher que existe em você! Assim , nunca conseguirá ser feliz! Acho que um a análise poderia aj udá-la bastante. Posso lhe indicar um a psiquiatra conhecida m inha. Você não quer?
Para a Psicanálise, criada no fim do século XIX, a transexualidade não existia. Em bora eu fosse psicólogo, nunca concordei com essa visão ortodoxa, que praticam ente não dava im portância à linguagem corporal, som ente à verbal. Além do m ais, eu achava m achista e radical tentar explicar o com portam ento basicam ente por m eio da invej a do pênis e do com plexo de Édipo. Esses conceitos se baseavam na bipolaridade fem inino versus m asculino, tendo com o parâm etro “norm al” a heterossexualidade. Freud aceitava a androgenia com o resquício genético prim ordial dos indivíduos. A bissexualidade deveria ser “resolvida”, pois era vista com o um a característica prim ária. Reconheceu, no fim da vida, que deu pouca im portância ao aspecto cultural na personalidade do indivíduo.
Travam os um a discussão violenta. Mas, para não m e m ostrar intransigente e am enizar o clim a pesado, resolvi ir a tal psicoterapeuta. Não aguentei m ais do que duas sessões. Preocupada exclusivam ente com o m eu passado, sublim inarm ente tentava m e m ostrar com o a m inha conduta era patológica e quão sadio seria ter um parceiro.
Leila nunca se conform ou com essa m inha desistência. Continuava se sentindo um pouco m ãe dos irm ãos m enores, o que a im pedia de nos tratar de igual para igual.
Van era com quem m elhor m e dava. Representante da geração m ais j ovem , casou aos 19 anos, e aos 20 j á estava separada. Quando m eus pais pensaram que ela havia “entrado na linha”, trabalhando num banco, envolveu-se em política estudantil e se tornou guerrilheira para com bater a ditadura. Depois de duas prisões, exilou-se no Chile de Allende. Com o golpe m ilitar, acabou presa no Estádio Nacional do Chile, só com a roupa do corpo. Lavava a própria calcinha diariam ente e ficava sacudindo até secar. Respondeu a interrogatórios, nos quais foi am eaçada de m orte. Mam ãe foi ao Chile e conseguiu que o consulado brasileiro se m exesse para arrancá-la das garras dos m ilicos. Trinta e seis anos depois, foi anistiada e chorou quando leu que “em nom e do Estado brasileiro lhe pediam desculpas”.
De volta ao Brasil, tentou “ser norm al”. Foi estudar j ornalism o, m as acabou saindo de novo do Brasil, indo para Portugal e depois para a França, onde foi m orar com um brasileiro tam bém exilado. Muito autêntica e sem nenhum convencionalism o, sorvia intensam ente a vida. Suas aventuras deram -lhe o prim eiro lugar com o ovelha negra da fam ília, com fam a de não saber o que queria. O m eu caso passou até ao segundo plano, com o se j á tivessem se habituado. Além do m ais, tinha com pletado m eu curso e trabalhava condignam ente.
A força que m e ligava a Van era m aior do que nossa história conj unta.
Além de serm os com panheiros de infância, nossa aceitação era m útua e incondicional. O que ela fizesse que estivesse bom para ela eu aceitava, o que valia tam bém para m im . Em vários m om entos, fom os o único apoio um do outro.
Muito desligada dos valores tradicionais, achava que o essencial era am ar. Aceitava perfeitam ente a m inha vida, sem restrições. Na França foi baby-sitter, dom éstica, aj udante de cozinha e datilógrafa.
Num a de suas cartas, escreveu: “Adm iro sua coragem em se assum ir e transar com a pessoa que escolheu, independentem ente do que os outros pensem ”. Van só voltaria m uitos anos m ais tarde, com dois filhos rechonchudos.
Eu tinha 17 anos quando m eu pai voltou do exílio no Uruguai. Não aguentou ficar clandestino e decidiu vir para casa. Foi preso e interrogado pela polícia. Nunca m ais poderia pilotar, proibido por um a portaria sigilosa da ditadura. Depois de m uitas tentativas, conseguiu, por m eio de um am igo, um em prego de gerente na garagem de um j ornal. O exílio lhe deixou m arcas. Sua posição se m odificou depois de se tornar um “m arginal” para a sociedade, perdendo a profissão de que tanto gostava. Transform ou-se num hom em m ais flexível e cordato.
Mam ãe envelheceu por todas essas circunstâncias. Sem pre ali, ao lado do velho, segurando o peso do caos, revelando-se de ouro. Ficou m ais am arga, m as m ais am ada. Considerava que a m elhor fase da sua vida havia passado. Agora só desej ava viver o resto com resignação e um pouco de tranquilidade.
Papai, um hom em nada burocrático, violentava-se com aquela rotina que o fazia levantar de m adrugada, sem fim de sem ana para descansar. Exausto do barulho e da poluição, acabou aceitando o convite para ser sócio do m eu ex-cunhado e ir m orar num a fazenda perto de Brasília, criando gado, com o na sua infância.
Mam ãe era tipicam ente urbana, m as, com o sem pre, só pensou no bem -estar do m arido. Depois de se desfazer de tudo, lá se foi com ele viver entre os lavradores. Obrigada a se aposentar, passou a cuidar da casa, a dar com ida aos porcos e às galinhas. Fez um canteiro de flores e um a hortinha ao lado. Suas raízes, não conseguiu replantar. Com o tem po, venderam sua parte da sociedade e construíram um a casa na Asa Norte em Brasília, para onde se m udaram .
Depois do m eu retorno da Europa, estive na fazenda apenas um a vez. Foi quando ela m e confessou, num dos seus poucos desabafos:
— Seu pai não m e entende. Fica danado porque não consigo diferenciar um burro de um cavalo...
Após tantos anos, ficam os j untos novam ente. Aprendi a dirigir trator, arar a terra, tirar leite de vaca e m anej ar m elhor um a enxada, cavando regos para irrigar a horta. Caiei as paredes, pintei as portas e as j anelas do casarão. Cortei a gram a e adubei o pom ar. Quando voltei, tinha deixado algo m eu naquela fazenda.
Mam ãe se desfez de tudo. Apenas conservou o piano. Conseguiu carregá-lo para aquela lonj ura. Não esqueço o dia em que lhe perguntei:
— Mãe, você não toca m ais piano?
Com a voz desalentada, tristonha, explicou-m e que o piano desafinou e que ali era difícil de conseguir um afinador. Entretanto, levantou a tam pa, sentou-se no antigo banquinho, fez um a pausa e dedilhou velhas canções que eu estava acostum ado a ouvir desde criança. Sem m ecanism o e engasgando a toda hora, desculpava-se, enquanto eu, abraçado às suas costas, tentava dissim ular o nó que se form ava na m inha garganta.