Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 27 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 8

O PESCOÇO DO MUNDO

 

É mais fácil um boi voá,

Um cururu ficá belo,

Aruá jogá cacete

E cobra jogá chinelo,

Do que havê um barbado

Que derribe meu castelo!

Azulão

 

Chegou o térm ino das aulas, assim com o o prazo m édio estipulado por Felipe para m e dar o tão esperado laudo. Os m eses de terapia arrastaram -se, desfiados com o contas de um terço.

Atravessam os várias fases durante esse longo traj eto. Apresentei fotos da m inha infância, debatem os exaustivam ente m inha conduta sexual em função da autoim agem , abordam os os com ponentes m asculino e fem inino da m inha personalidade. Até a exigência da presença de Am anda em algum as sessões foi cum prida.

Felipe chegou a m e levar livros sobre a transexualidade. Baseado em dados propostos pelos autores, debatíam os várias questões. Porém , apesar de sua boa vontade, sentia, no fundo, sua dificuldade em lidar com o tem a, m esm o sendo o escolhido para a sua pesquisa de m estrado. Im agino que a constatação de que o transexual é refratário à psicoterapia estaria lhe provocando a sensação de frustração e im potência.

Nas últim as sessões, percebi seu desânim o. Adm ito que m e cansei daquele lero-lero, que não resolvia as crises que sofria fora dali. Mas, sem condições de poder “encostá-lo na parede”, aguardei o prazo se com pletar para, só então, dar-lhe o xeque-m ate.

Fazendo um a cara de quem não tinha entendido, perguntou:

— Laudo? Mas que laudo?

— Com o, que laudo? Quero saber se vai m e dar por escrito a sua avaliação. Afinal de contas, eu m e subm eti esse tem po todo à terapia porque era a exigência para obter esse laudo. Não foi por m eu bel-prazer.

Fez um “ah”, com o se, enfim , tivesse captado.

— É j usto o que está m e pedindo. Mas... Será um a avaliação sucinta e superficial da sua personalidade.

Com preendi que Felipe estava m e enrolando. Irritado, interpelei-o sem rodeios:

— Afinal, você vai escrever ou não que sou transexual?

— Isso não poderei fazer, porque ainda tenho dúvidas se a transexualidade existe realm ente e até que ponto difere da hom o.

Tive vontade de lhe acertar um m urro na cara. Se não fosse o m eu tão desenvolvido superego, ele não escaparia.

Para tentar se m ostrar flexível, disse-m e m ais absurdos, o que só aum entou a m inha raiva.

— Olha, se quiser, posso dizer que você é hom ossexual... Mas trans é im possível!

Aquilo só podia ser gozação. Diante de tal proposta, esbocei um sorriso irônico.

— Mas que grande palhaçada! Indicam -m e um psiquiatra que faz parte de um a equipe que se diz a única especializada no assunto, entretanto não acredita na transexualidade, nem m esm o sabe se existe. Não é form idável? Agora, vê se dá para entender! Você m e diz que não delineou claram ente a diferença entre os dois com portam entos. Com o pode afirm ar, então, que o m eu caso é de um típico hom ossexualism o? Felipe... Sinto m uito, m as isso não posso aceitar. E pelo que tudo indica, não será só em m im que irá provocar decepções.

Minhas palavras devem tê-lo atingido, pois só então deu o braço a torcer.

— João, quero que m e com preenda. Dar um laudo para um a cirurgia dessas é um com prom isso m uito sério. Posso até, com um ato desses, perder m eu diplom a!

Sua sinceridade aplacou m inha indignação.

— Posso com preender até m esm o as suas dúvidas, pois ninguém é onisciente. Porém , o que não perdoo, Felipe, é ter enganado a m im e à equipe durante esse tem po todo. Poderia ter-nos dito antes! Ia m e virar para arranj ar outro profissional que tivesse condições e coragem . De qualquer form a, não posso negar que esses m eses foram proveitosos para m e conhecer m elhor e ter m ais certeza do que quero. Agradeço o seu rico tem po gasto com igo e a gratuidade das sessões.

Estiquei a m ão em sinal de despedida e saí dali com o um a bala, descendo as escadas aos tropeções, sem saber para onde ir.

Um a dor desnorteante m e invadiu o peito. Meus pés quase tropeçavam um no outro, enquanto andava sem rum o. Na cabeça, relanceavam pensam entos desconexos e interm itentes. Pedia-m e calm a, m as era im possível m e atender. Farina lá, esperando esse pedaço de papel, e eu aqui, perdendo um tem po precioso para nada! E agora? Continuar sendo um aleij ão sexual para o resto da vida? Onde iria obter outro psiquiatra que m e desse o laudo? Felipe não podia ser o único. Porto não m e deixaria na m ão! Tinha de m e arranj ar outro.

Estava cego dentro de um interm inável labirinto. Lem brei-m e de que havia deixado m inha m otocicleta no estacionam ento do hospital. Juntando m eus cacos, voltei. Não sei com o, atravessei ileso a cidade. Torcia a m anete do acelerador com o se estivesse torcendo o pescoço do m undo.

Fui direto ao consultório do Dr. Porto. Felizm ente, acabava de chegar e o encontrei no elevador. Respirei fundo, tentando m e controlar para não desabafar ali m esm o, naquele cubículo apinhado de gente.

Puxou um m olho de chaves e abriu a porta. Levantou as persianas, trocou a cam isa pelo j aleco e, virando-se, perguntou:

— Então, o que há para estar tão aflito?

— Porto, seu psiquiatra nos traiu, deu para trás, pediu arrego!

Franziu o cenho.

— Com o assim ?

Contei-lhe o que tinha acontecido. Parecia m ais surpreso do que preocupado.

— Essa não! Até o Felipe, em quem fazíam os tanta fé! É bem verdade que é novo na equipe. Você foi o seu prim eiro caso. Bem que estava achando algum a coisa estranha... A últim a vez que falei com ele foi antes daquele encontro com o Farina, e m e disse que estava indo m uito bem . Depois, tentei ligar várias vezes, m as nunca o encontrava. Deixei recado com a secretária, m as não m e retornou.

Ansiosam ente, inquiri:

— E agora, com o vam os fazer para conseguir esse laudo?

Titubeou.

— Sinceram ente, não sei de m ais ninguém capaz de dar um laudo desses.

— Mas, Porto, tem de m e aj udar! Não pode m e abandonar agora! Essa m erda de equipe funciona ou não? Não posso m ais parar! Agora vou até o fim , custe o que custar! Nem que tenha de falsificar um laudo para poder m e operar!

Sua única reação foi pedir calm a, o que m e deixou m ais irado.

— Calm a porra nenhum a! É a m inha vida que está em j ogo, e não a sua! Vam os, não fique aí parado. Sugira algum a coisa!

Porto viu que eu não estava brincando.

— Escute, por que não tenta com o Farina? Talvez saiba de alguém . Conhece m uita gente.

Repentinam ente, lem brei-m e do seu am igo psiquiatra, o tal que tinha sido responsável pela prim eira cirurgia do Farina. Não sabia se toparia, m as era um a esperança.

Nessa m esm a noite liguei para o cirurgião. Expliquei-lhe rapidam ente a situação e im plorei aj uda. A ligação estava péssim a, m as escutei quando disse que esse assunto só poderia ser resolvido pessoalm ente.

No dia seguinte, em barquei para São Paulo.