Viagem Solitária
Parte III: Metamorfose
PARTE III
METAMORFOSE
CAPÍTULO 1
PROVANDO QUE NÃO SOU LOUCO
A conquista de si próprio é a maior das vitórias.
Platão
Vinha chegando do am bulatório onde fora tirar o gesso da m ão, quando o porteiro m e entregou um a carta. Era do Farina! A sofreguidão foi tanta que rasguei o envelope, am putando parte da folha interna. Meus olhos percorriam as linhas com tam anha rapidez, num a tentativa de apreender o essencial, que acabei perdendo o sentido geral do texto. Foi preciso o auxílio de Am anda para que a lesse devagar. Teve de repetir três vezes o últim o parágrafo, para que eu acreditasse. “Recebi um telefonem a de Lourenço confirm ando a nossa expectativa. Mandará o laudo por escrito dentro de 15 dias. Caso queira, estou à sua disposição, e poderem os dar início às cirurgias, pois a clínica está arranj ada. Um abraço, Farina.”
Esqueci que a m ão ainda estava dolorida e levantei Am anda no ar, num rodopio. Gritava com o um louco, com o se acabasse de ser prem iado na loteria.
Não tive paciência de esperar o elevador. Desci os degraus dois a dois, cantarolando. Corri para um a cabine telefônica. A alegria transbordava. Precisava dar a notícia para alguém que pudesse entender sua im portância para m im .
Foi Garcia quem atendeu.
— Alô?
— Cunhado? O psiquiatra deu o laudo favorável! Farina disse que pode m e operar im ediatam ente! – falei tão corrido que, pego de surpresa, m al entendeu.
— Com o é?
— Consegui, querido! Consegui! Vou m e operar ainda este m ês!
— Puxa, você deve estar m esm o feliz! Quando vai ser?
— Ainda não sei, m as em barco am anhã m esm o para São Paulo. Mariana está por aí?
— Não. Ela saiu para ir ao superm ercado, m as não deve dem orar. Pode deixar que conto a ela. E com pletou:
— Tem dinheiro para as despesas? Se não, j á sabe, pode contar conosco.
Agradeci e disse que ainda não era necessário. Mandei-lhe um beij o, exclam ando:
— Você é um am or! Não se preocupe. Mando notícias.
Só tivem os tem po de fazer as m alas, e Am anda conversar com o chefe, pedindo 15 dias de folga. Prom eteu trabalhar em horário integral quando voltasse, para com pensar.
Essa seria a quarta viagem para São Paulo.
Ficam os na m esm a “Pensão Libertador”. Deixam os as bagagens no quarto e descem os para ligar para o cirurgião. Novam ente se surpreendeu com a m inha rápida chegada, convidando-nos para alm oçar.
Pela prim eira vez m e viu sorridente, em bora ansioso por detalhes. Pedi-lhe que m e esclarecesse exatam ente em que consistiria esta prim eira etapa cirúrgica.
Bebeu m ais um gole de vinho antes de falar:
— Am anhã cedo, em j ej um , você irá ao laboratório tirar sangue. Precisam os de um hem ogram a com pleto. É necessário saber se está anêm ico, qual o seu tem po de coagulação, enfim , a rotina pré-cirúrgica. Depois dos resultados, poderem os discutir o que será feito nessa prim eira cirurgia.
— E onde vai m e operar?
— Isso é outra coisa que é preciso esclarecer. O lugar que consegui é um a clínica particular, cuj os donos são colegas m eus. Evidentem ente, estão a par de tudo, m as, para não com prom etê-los, você não fará ficha e só perm anecerá um dia hospitalizado. Não receberá visitas nem deverá dar o endereço para ninguém .
Antes que com pletasse, fiz um a exigência:
— Mas, Farina, pelo m enos Am anda vai com igo. Preciso dela a m eu lado.
— Quanto a isso, não sei. De qualquer form a, vou tentar entrar em contato com eles. Telefone am anhã cedo, que lhe darei um a resposta.
— E quanto vai custar? – perguntei, aflito.
— Não posso dizer. Falei da sua situação e sei que vão cobrar o m ínim o. Certam ente o m aterial, a diária e os exam es de laboratório você terá de pagar integralm ente.
— E você? Quanto vai cobrar para m e operar?
Pensou um pouco, fez m ais ou m enos as contas de quantas cirurgias seriam e resolveu fazer o m esm o preço para todas elas. Não era m uito, diante da com plexidade e da responsabilidade das operações, m as eu não tinha toda aquela quantia. Com a m inha indenização, conseguiria pagar a prim eira e talvez a clínica, m as e o resto? Decidi não m e angustiar m ais. Com o não havia m esm o outra saída, era pegar ou largar, concordei, ressalvando:
— Caso não dê para pagar tudo à vista, posso ir pingando a prestação?
Ele riu.
— Pode. Faça do j eito que achar m elhor.
Aproveitam os a tarde livre para ir a um cinem a e passear um pouco.
Acabávam os de cruzar com um desfile circense anunciando sua próxim a tem porada, quando Am anda lem brou:
— Ih... Só faltam dois dias para o seu aniversário!
Eu nunca m e esqueci do dia em que faço anos. Geralm ente, um m ês antes j á com eço a contar na folhinha. Mas, dessa vez, nem m e passou pela cabeça.
— É m esm o! E, se não m e engano, vai cair no dia da m inha operação! É o m elhor presente que eu poderia receber!
Am anda tom bou a cabecinha no m eu om bro e, fazendo um biquinho, lam entou:
— Tadinho, vai estar todo enfaixado e sem bolinho para apagar...
— Que nada, vou estar é m uito feliz de não ter m ais este m aldito corpo!
Naquela noite, pressentindo que seria a últim a antes da grande separação física que as circunstâncias iriam nos im por, fizem os am or com gosto de despedida.
Às sete horas da m anhã, tirava sangue no laboratório. Ao voltar, Am anda ainda dorm ia estirada na cam a. O lençol no chão. Tão linda, tão solta, parecendo boiar naquela espum a branca! Tive pena de despertá-la. Mas a novidade m erecia...
Aj oelhei-m e e, com a boca perto da sua testa, dei-lhe um beij o. Abriu os olhos com o um a boneca que, de repente, ganhasse vida.
— Am or, acorde. Está tudo resolvido. Já tirei sangue e liguei para o Farina. O resultado ficará pronto hoj e à tardinha e am anhã de m anhã entro na faca. E tem m ais: você vai poder ficar com igo na clínica!
Estendeu os braços m e cham ando:
— Não se incom oda de beij ar um a m ulher que ainda não escovou os dentes?
A clínica era pequena. O quarto, m enor ainda. Havia duas cam as e um criado-m udo. Quando estava acabando de descobrir um a com adre no seu interior, entrou a m oça que m e recebera.
— Sou sua enferm eira. Não se preocupe. Estou a par de tudo. Está em j ej um ?
— Estou.
— Então vam os agora fazer um a lavagem e depois a assepsia.
Cham ava-se Violeta e se tornou um a santa depois de tudo que precisou aguentar com igo.
Pensei que não houvesse nada pior do que evacuar com litros d’água, m as m e enganei. A raspagem dos pentelhos foi m uito pior. Com o não podia m e recusar, pedi a Am anda que saísse do quarto. Que tortura ter de escancarar as pernas para um a m ulher desconhecida! Além do m ais, com um a navalha afiada nas m ãos m e im pedindo de fazer qualquer m ovim ento! Quando dei por m im , estava de olhos fechados, punhos cerrados e m e sentindo um idiota por achar aquilo um a hum ilhação.
A etapa seguinte foi a últim a que vi. Estava na m esa cirúrgica, e Farina apareceu, apresentando-m e aos donos da clínica, que queriam assistir à operação. Havia ainda um assistente e um anestesista. Farina m e explicou que prepararia o cam po para as próxim as cirurgias, providenciando a ablação dos seios e a feitura de um a neouretra. Deram -m e um pré-anestésico. Fiquei com pletam ente grogue, e então m e aplicaram a anestesia.
Apaguei.