Viagem Solitária
Capítulo 10
A MOSCA E A LAGARTIXA AZUIS
Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão,
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada,
Em certa noite de verão.
Então ela, voando, e revoando, disse:
“Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor.
Machado de Assis
— Conhece a “Mosca Azul”, de Machado de Assis?
Não, nem sabia que Machado tinha escrito poesia. Com eço, então, a ouvir, surpreso, aquela vozinha tím ida, engasgando às vezes, de quem tira o poem a do fundo da m em ória. Foi assim que conheci Sandra. A surpresa do poem a m e fez reparar naquele rostinho suave e sem m aquiagem . Silhueta delgada, segurava delicadam ente com as m ãos finas e brancas a taça de vinho.
Exatam ente o oposto da nossa am iga em com um , Nanda, que m e convidou para ler uns poem as enquanto ela e Sandra faziam m osaicos em sua casa em Santa Teresa. Nanda era pintora, escultora, poeta. Baiana, era extrovertida e apim entada, com o os quitutes que fazia para receber os am igos. Nesse dia cheguei com a m ochila cheia de Drum m ond, Pessoa, Bandeira, Neruda, Florbela Espanca...
“Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança”... Sem vontade de voltar para casa, acabam os dorm indo j untos, eu e Nanda. Mulher vivida, separada, com dois filhos, j á conhecia m inha história, e isso foi m eio cam inho andado. Am bos carentes, sabíam os que não existia paixão entre nós. De m anhã encontrei Sandra adorm ecida na sala, o lençol descobrindo suas lindas pernas.
O dom ingo foi tem perado com bobó de cam arão e m ais poesia. À tardinha, aula de dança para as duas. Estávam os em abril, e o aniversário de Nanda seria dali a três sem anas. Eu estava convidadíssim o, m as Sandra m e ligou dois dias antes, a pedido de Nanda, para m e lem brar da festa. Claro que eu iria.
Da rua j á se ouvia a m úsica, o som anim ado. Quando entrei, Nanda estava m eio alta e m e tascou um beij o na boca. Foi m e puxando para dentro da sala para dançarm os o bolero que rolava. Vi Sandra sentada sozinha no sofá. Havia torcido o tornozelo e ainda sentia dores. Aproveitei para oferecer um a m assagem . Fom os para o quarto e se deitou. Apliquei-lhe um shiatsu suave, som ente na zona afetada. Fui superprofissional. Voltam os para a sala conversando. Consegui saber que m orava em Niterói e que tinha acabado um nam oro com um cara que conhecera no bloco “Sim patia é quase am or”.
Dois dias depois, toca o telefone:
— João, aqui é Sandra, am iga da Nanda.
— Oiiii!
— Tô ligando porque m e esqueci de dar m eu telefone, no dia da festa...
— Não quis a m inha carona, preferiu ficar na Nanda...
— Pois é, tínham os uns m osaicos para term inar.
— Está de bobeira esta noite? Posso ir aí?
— Meu apartam ento está em obras, tudo revirado.
— Se andar de m oto, pego você em um a hora.
— Com binado!
Sandra veio na garupa da m inha nova m oto, um a XLX-250, da qual eu sentia o m aior orgulho. Era a m ais possante que j á tivera. Vinha olhando fixam ente a m inha nuca, a prim eira parte do m eu corpo que com eçou a lhe interessar, com o m e confessou m ais tarde. Sentam os na varanda de casa. Enquanto tom ávam os algum as cervej as, íam os nos revezando na leitura de poem as. Depois de um as três horas, tirou da bolsa um papel e m e entregou. Era um a cópia da “Mosca Azul”.
Coloquei um som rom ântico e a convidei para dançar. Estávam os um pouco altos com a bebida, quando deitou a cabecinha no m eu om bro. Fiquei ainda em dúvida, sem ousar avançar o sinal. Eis que sinto pousar um beij inho suave no m eu pescoço. E os beij inhos não pararam m ais. Anoiteceu, e ela foi ficando, ficando. Já faz 15 anos.
Aí nasceu a “Lagartixa Azul”:
Certa noite de outono,
Voava e revoava solta pelo quarto, quando depois de quinze anos,
Engolida de um sorvo, com o a m entira que nos adula,
A lagartixa devorou a nossa m osca azul.
Ao invés de presa, rota, m orta e digerida,
O inseto agora reinava,
Aquém do pouco rabo de seu ilusório algoz.
Só a noite aparecia,
Ilum inando o silêncio das coisas sem nom e.
Tudo em volta, contam inação.
Com o num a visão fantástica e sutil.
E com o um rei m e espreguicei sorrindo,
Da sua graça fina e perguntei:
“Esse refulgir, que m ais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?”
E ela, com todo seu resplendor, disse:
“Eu sou a vida, eu sou a flor,
Eu sou o seu grande am or”.
Naquela noite, Sandra só se esqueceu de m e dar seu telefone.