Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 34 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 5

AJUDAS INESPERADAS

 

O mundo só se mantém pelo hálito das crianças.

Talm ude

 

Fui recebido com um terno abraço. Tinha m e lem brado da velha am iga da fam ília, a obstetra-ginecologista que fizera tam bém o parto dos m eus sobrinhos. Com seu j eito sim pático, confiante e acolhedor, a Dra. Elizabeth convidou-m e a sentar.

Eu a considerava um a pessoa brilhante. Profissional séria, capaz de discutir qualquer assunto em profundidade sem prepotência.

Morava num am plo apartam ento decorado em m oldes clássicos, sóbrio e confortável. Dirigim o-nos à salinha onde ficava a tevê. Fui diretam ente ao assunto que m e levara ali.

Ao term inar, vi aquela m ulher forte e resoluta com ovida com o m eu relato. Suas frases foram poucas, m as de um a força que m e reergueu novam ente.

— Quando ouvi pela prim eira vez a palavra transexualidade, num congresso, lem brei-m e im ediatam ente de você, João.

Tratando-m e desde logo no m asculino, ela m e provava que o hábito não j ustificava o engano das outras pessoas.

Mostrou sua generosidade quando afirm ou:

— Este não é um problem a só seu, m as de todos nós.

Finalm ente, segurando m inha m ão, disse o que tanto esperava:

— Farei tudo para aj udá-lo, com o m édica e com o am iga. Assim que conseguir algum a coisa, telefono para Mariana. Fique tranquilo.

Ao m e despedir, dei dois beij os na doutora, com todo o m el da m inha ternura.

Revelou-se de um a hum anidade sem lim ites. Além de cum prir o que havia prom etido, envolveu-se na tram a, com o se eu fosse seu filho. Mostrou-se indignada com os colegas m édicos que haviam m e dado apoio inicial, m as não foram capazes de m e arranj ar um especialista para essa difícil cirurgia. Especialm ente com Farina, que continuava m e cobrando as operações, quando sabia que, além de não ter condições para pagá-las, elas não eram um a questão de vaidade, m as de sobrevivência. Revoltou-se igualm ente com papai, seu velho am igo, por se m ostrar com pletam ente om isso no m eu caso. Exigiu que a avisasse quando ele viesse ao Rio, pois desej ava ter um a séria conversa.

Dr. Gabriel foi o santo m édico que aceitou o m eu caso, a pedido da Dra. Elizabeth, antes m esm o de m e conhecer. Marcam os um a entrevista na sua própria clínica, e no dia com binado cheguei um a hora antes.

Era um hom em de m eia-idade, com bastante experiência no ram o. Tratando-m e sem pre por João e dem onstrando um grande respeito, foi obj etivo e rápido. Solicitou-m e um exam e clínico e outro de laboratório, a fim de estudar m elhor com o proceder no ato cirúrgico.

Sua atitude franca, natural e solidária deixou-m e tão à vontade que não m e senti constrangido em lhe m ostrar m eus genitais.

— Preciso saber por onde deverei passar a sonda, se posso colocá-la sem problem as na uretra nova.

Depois de tudo esclarecido, tranquilizou-m e:

— Fique sossegado, dará tudo certo. Se os exam es estiverem OK, poderem os operá-lo ainda esta sem ana. Assim está bem para você?

— Está ótim o! Farei tudo com o achar m elhor. Só tenho um a dúvida: com o devo m e registrar aqui na clínica? Não quero com prom etê-lo.

— Não se preocupe. Você não vai se internar form alm ente. Apenas apresente este bilhete à recepcionista – e rapidam ente rabiscou algum as palavras num a ficha do receituário.

— Ela vai encam inhá-lo à enferm eira indicada, que cuidará da sua internação. Venha na véspera, à noite, pois seria bom que dorm isse aqui. Elizabeth tam bém m e falou que você gostaria de ter sua m ulher com o acom panhante. Pode trazê-la.

Eu não sabia o que dizer àquele hom em que até então fora um estranho e que se m ostrava tão despoj ado, ético e respeitoso:

— Não pode im aginar o que está fazendo por m im ! Sei que este gesto j am ais terá preço, m as gostaria de poder recom pensá-lo de algum a m aneira.

Sorrindo, disse:

— Nem pense nisso. E não se preocupe com as despesas cirúrgicas. Se é am igo de Elizabeth, é m eu tam bém .

Olhei-o fixam ente e m e retirei.

 

Chegam os à clínica na terça-feira à noite. Com o o Dr. Gabriel m e instruíra, dei o bilhete à recepcionista. Cham ou pelo interfone um a enferm eira, que m e levou ao segundo andar, indicando m eu quarto.

Mariana havia nos levado de carro, m as Am anda retornaria com ela. Teria de trabalhar no dia seguinte, para poder faltar no resto da sem ana. Preferia estar com ela durante a recuperação.

Fiquei só. Em bora feliz e aliviado, estava am edrontado. Naquele quarto de hospital, vez por outra m e vinham pensam entos som brios. Lem brava com o tinha sido horrível a volta da últim a anestesia.

Peguei o livro que havia levado, m as não conseguia ler. Quando dei por m im , estava longe, sobrevoando a realidade do dia seguinte. Mas nenhum m edo superava a alegria que j á sentia ao m e im aginar livre de m ais um contrapeso. Às sete horas, estava de pé. Os m édicos não apareciam . Som ente Margarida, a única enferm eira que estava a par da situação, surgiu para fazer m inha lavagem , pois a raspagem , precavidam ente, fizera em casa.

Às dez horas, fui para a sala cirúrgica, vestindo um cam isolão branco e com pletam ente lúcido. Deitei-m e na m esa, e o anestesista inj etou-m e um a droga. Meu coração pulava, e em dois m inutos fiquei m ole e nauseado. Depois, aplicou o anestésico, e apaguei.

Acordei no quarto, com Am anda m e olhando. Novam ente, a consciência da realidade era total e a descoordenação m otora tam bém . A prim eira coisa em que pensei foi que estava vivo e, no côm puto geral, faltava agora m enos um a cirurgia.

Veio então o terrível calafrio. Com ecei a bater o queixo e a trem er. Am anda, por conhecer essa m inha reação, prevenira a enferm eira, e os cobertores estavam à m ão. O pior foi não conseguir controlar a náusea e vom itar cinco vezes, apesar das inj eções preventivas.

No restante do dia, dorm itava. A sonda e os soros m e incom odavam . À noite, as dores vieram , com o cólicas fortes. Tom ei um batalhão de rem édios, acrescidos de analgésicos. Na m anhã do segundo dia, o m édico plantonista entrou no m eu quarto. Quis m e exam inar, com o de rotina. Olhei para Am anda sem saber o que fazer. “Será que ele está avisado?” Percebi, então, que na ficha que trazia nas m ãos estava escrito “apendicite”. Im ediatam ente, aleguei que há pouco tinham vindo m e ver e que não seria necessário outro exam e, pois m e sentia m uito bem .

Mas durante os cinco dias de internação, além das dores e do m al-estar, tive de enfrentar as enferm eiras que substituíam Margarida quando seu expediente term inava.

No terceiro dia, apareceu um a nova que queria a todo custo m e dar banho. Dessa vez, a desculpa foi a tim idez. Por m ais que alegasse que estava acostum ada, não perm iti que m e tocasse.

Acredito que tenha ficado patente na clínica que era um paciente especial, um tanto m isterioso e cheio de problem as.

Finalm ente, Mariana veio nos buscar. Com o Am anda teria de trabalhar, fiquei acam ado uns dias na casa da m ana e na de tia Estela.

Estava m e recuperando bem quando um dos pontos da sutura com eçou a latej ar. Voltei à clínica. Dr. Gabriel constatou um abscesso de parede. Para m eu azar, um dos pontos infeccionara.

Durante 15 dias consecutivos, Margarida, a enferm eira, esprem eu-o, drenou-o e fez curativo. Após um m ês e m eio, a cicatrização finalm ente se com pletou.

No últim o dia de curativo, entreguei ao Dr. Gabriel um poem a que escrevi no hospital, no qual expressava m inha gratidão. Encabulado, respondeu que leria em casa com calm a.

Mariana e Garcia fizeram questão de pagar as despesas hospitalares. A cada dia que passava, esse casal penetrava m ais fundo no m eu coração. Nunca poderia im aginar que a m ana m ais distante na m inha infância se tornaria a m ais presente nessa fase tão decisiva. E foi nesse período em que m e restabeleci em sua casa que a m inha situação foi colocada para as crianças.

O fato foi dito de m aneira sim plificada, com o tendo nascido com dois sexos e m e operado para ficar com um só.

A caçula de seis anos recebeu a notícia com um a deliciosa naturalidade:

— Mãe, e agora, cham o de “tio João”?

O m ais velho, com nove, surpreendeu a todos com sua m aturidade:

— E os docum entos, com o vão ficar?

A reação dos m eninos foi um a lição para os adultos. Enquanto estes tinham m il dificuldades sobre com o m e tratar, sem saber com o m e explicar aos conhecidos, os garotos pareciam ver tudo m ais claro, sem com plicar o óbvio. Era com o se a m inha figura anterior é que fosse a confusa e estranha. A atual era definida, m ais bem entendida e aceita. Anteriorm ente, os m eninos m e viam com certa reserva, ressabiados, com o olhando algo estranho. Agora, podiam com preender Am anda com o m inha m ulher e com o sua tia.

Surpreendia-m e a espontaneidade dos m eus sobrinhos. Tem pos depois, quando passaram um fim de sem ana lá em casa, a caçula perguntou, olhando para o m eu antigo pote de bolas de gude:

— Tio, essas bolas você ganhou quando ainda era m enina, não foi?

Se tinham algum a curiosidade, falavam sem rodeios, com o m eu sobrinho um dia:

— Seu pinto é igual ao m eu?

A naturalidade era tam anha que poderia m e causar certos constrangim entos. Resolvi explicar que o m eu caso ainda não era com preendido e aceito por todos. Portanto, só deveriam contá-lo para as pessoas m ais próxim as, que tinham m e conhecido antes da operação.

O m ais velho, vendo-m e sem trabalhar por tanto tem po, m anifestou preocupação. Expliquei que não podia m ais exercer a profissão de psicólogo. Confuso, perguntou:

— Mas, então, o que você é agora?

Pela prim eira vez, pensei em com o responderia a essa pergunta.

— Vou ter de com eçar tudo de novo, do princípio. Perdi o diplom a que tinha, e, portanto, você agora está m ais adiantado do que eu. Não vai ser ótim o m e ensinar as coisas daqui por diante?

Sorriu, achando tudo m uito engraçado.