Viagem Solitária
Sobre o Autor
Simone Ávila 4
Em m eio ao trabalho j unto ao Núcleo de Identidades de Gênero e Subj etividades (NIGS) da Universidade Federal de Santa Catarina, no qual
desenvolvo um a pesquisa sobre trans-hom ens,5 ao pesquisar o tem a na internet, deparei-m e com o livro Erro de Pessoa: João ou Joana?, de João W. Nery, publicado em 1984. Na capa do livro tem a inform ação: “O depoim ento de um transexual brasileiro que, nascido m ulher, finalm ente se realizou com o hom em ”. Fiquei curiosíssim a para ler o livro, tentei com prar um exem plar, m as infelizm ente ele estava esgotado. Ao continuar m inhas buscas na internet, consegui finalm ente com prar um exem plar usado.
A publicação da autobiografia de João W. Nery no Brasil se deu em um m om ento em que os trans-hom ens vinham se tornando m ais visíveis ao relatar suas transexperiências, seguindo um a tendência m undial que vem desde a
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década de 1960, que se intensificou m ais particularm ente desde 1995. Um a indicação disso é a publicação de vários trabalhos sobre o tem a, com o, por exem plo, os de Loren Cam eron, um fotógrafo am ericano que iniciou sua transform ação corporal em 1987, em San Francisco, Estados Unidos, e fez o registro fotográfico de seu processo de transição. Esse registro foi publicado em 1996, sob o título “Body Alchemie: Transexual Portraits by Loren Cameron. Há ainda três autobiografias britânicas, as de John Hewitt e Mark Rees, am bas publicadas em 1996, e a de Ray m ond Thom pson, publicada em 1995. Há outras biografias de trans-hom ens posteriores a essa época, com o as de Jam ison Green, de 2004; de Max Valério, 2006; e de Axel Léotard, publicada em 2008.
No cam po da visibilidade de trans-hom ens atualm ente, o trabalho de Kael T. Block, fotógrafo francês de origem colom biana, tem sido im portante, ao desenvolver desde 2007 o proj eto XX Boys, registro em fotografias de suas m udanças corporais. Essa exposição j á foi apresentada na Europa, na Austrália
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e nos Estados Unidos.
A leitura do livro de João foi de um fôlego só. Em Erro de Pessoa, ele relata a sua transexperiência, abrindo sua vida desde a infância. João expõe as dificuldades e os percalços pelos quais passou, seu sofrim ento, seus conflitos e suas angústias por não saber com o ou onde se enquadrar em um a sociedade e um a cultura que não aceitam o “diferente”. Ele se pergunta: “em que grupo existente eu m e enquadraria?”. Ou, dito de outro m odo, “quem inventou essa coisa de que tem os de nos enquadrar no que j á existe?!? Por que não podem os sim plesm ente ser o que querem os ou quiserm os?!? Por que eu tenho de seguir norm as que não são m inhas?!?”.
Entendendo experiência com o a história dos suj eitos produzidos discursivam ente por m eio de sistem as discursivos conflituosos e contraditórios, dentro de um dado contexto social e histórico, podem os pensar que essa transexperiência só existe com o m arca linguística, com o espaço de construção individual em espaços nos quais valores e representações de m asculino e fem inino são com partilhados coletivam ente.
A categoria transexperiência não confina os trans-hom ens a um a categoria identitária fixa e determ inada, m as perm ite entendê-la com o parte de processos históricos que, pelo discurso, pela linguagem , posicionam os suj eitos e produzem suas experiências, sendo passíveis de interpretação; interrogando seus processos de criação, tem os claro que é um a experiência política, tanto por sua construção individual com o coletiva.
É im portante lem brar que João fez sua transição em 1977, época da ditadura m ilitar no Brasil, quando as cirurgias para m udança de sexo eram proibidas, e orientações sexuais e identidades de gênero diferentes da norm a eram consideradas “subversivas”. Os m édicos que realizavam essas cirurgias eram tom ados por crim inosos. João, m esm o sabendo disso, seguiu seu desej o, com o testem unha seu livro.
Ao conhecer João, por interm édio de um am igo com um , fui surpreendida ao receber um e-m ail com o seu novo livro, Viagem Solitária – Memórias de um transexual 30 anos depois. Neste novo livro, João faz um a revisão do Erro de Pessoa, atualizando, tirando alguns capítulos e colocando outros, incluindo um a parte sobre a paternidade, e fala de seu filho de 24 anos.
Não é por acaso que João retom a sua história, depois de 27 anos. No período entre um livro e outro, várias m udanças políticas e sociais aconteceram no país. Acom panham os o processo de abertura política, com o fim da ditadura m ilitar em 1985, a dem ocratização do Brasil e o surgim ento de vários m ovim entos sociais, entre eles o Movim ento de Lésbicas, Gay s, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBTT), de luta contra a discrim inação e de defesa dos direitos das populações LGBTT, sem quaisquer form as de discrim inação, afirm ando a livre orientação sexual e identidades de gênero. Para João, entre os acertos, está m ostrar que um trans-hom em pode ser pai de um filho saudável.
Neste novo livro, João se considera um “estrangeiro neste m undo”, que rom pe fronteiras, que é de todos os lugares e, ao m esm o tem po, de nenhum lugar.
Percebe-se tam bém um a m udança de linguagem ; no livro anterior, ele fala de “transexual fem inino” ao se referir a si m esm o, pois era a denom inação usada na época, um a denom inação oriunda da Medicina, que privilegia a prim azia do sexo biológico sobre a identidade de gênero. Atualm ente, são m ais adequadas denom inações baseadas no gênero com o qual a pessoa se identifica, e não no sexo biológico.
Outra m udança ocorrida no Brasil, fruto das reivindicações trans durante m uitos anos, diz respeito ao processo transexualizador. As cirurgias de m udança de sexo no Brasil iniciaram em 1997, a partir da Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) no 1.482/1997, que retirou da clandestinidade intervenções cirúrgicas do processo transexualizador, m as som ente hospitais universitários estavam autorizados a realizar esse tipo de cirurgia.
Em 2002, o CFM revisou essa portaria por entender que nem todos os procedim entos de transgenitalização eram experim entais e publicou a Resolução CFM no 1.652/2002, que tem sido referência nacional “para todas as ações endereçadas às pessoas transexuais, m esm o para os profissionais não vinculados ao Conselho Federal de Medicina”.
Em 2008, o Ministério da Saúde publicou a Portaria no 1.707, que institui, no âm bito do Sistem a Único de Saúde (SUS), o Processo Transexualizador, a ser im plantado nas unidades federadas, respeitadas as com petências das três esferas de gestão. Nessa portaria, foram incluídos os procedim entos de m udança de sexo para transm ulheres, isto é, de hom em para m ulher.
Além disso, a transexualidade hoj e está presente na m ídia. Recentem ente ouvim os falar em Léa T... em Thom as Beatie, trans-hom em que em 2008 foi considerado o prim eiro “hom em grávido”... em Ariadna, transm ulher que participou do Big Brother Brasil, em 2011...
Contribuindo para um a m aior visibilidade de trans-hom ens, há o
personagem Max, da série 8 The L Word . Max é inicialm ente na série um a lésbica “m asculina” que m antém relacionam entos com outras m ulheres e aos poucos vai se identificando com o um transexual m asculino que se vê às voltas com a sua transform ação corporal, colocando em discussão a tom ada de horm ônios e a cirurgia de m astectom ia (retirada das m am as).
Nesse processo, Max, j á “assum ido” com o m asculino, inicia um relacionam ento afetivo com um gay e tem um a surpresa ao se descobrir “grávido”. Todas as situações vivenciadas por Max o colocam dentro das discussões m ais atuais sobre a transexualidade m asculina, ou sej a, que transexualidade não significa necessariam ente articulação com heterossexualidade norm ativa, um a vez que não são poucos os exem plos de trans-hom ens que se engaj am em relacionam entos hom ossexuais com gays após sua transform ação corporal e social.
João, em Viagem Solitária, parece ter se apropriado m ais profundam ente de sua transexperiência e parece m ais tranquilo e m ais “pacificado” em relação à turbulência que foi sua traj etória de vida.
Seu relato em am bos os livros é de um a sensibilidade extrem a e com ovente. Seu testem unho m ostra um a form a contem porânea de autodefinição social que nos perm ite contem plar de outro m odo a experiência de ter um a identidade ou expressão de gênero não norm ativa com o resultado de um a dinâm ica biográfica com plexa. Mostra tam bém que todos e todas nós estam os im bricados em um sistem a discursivo m arcado por conflitos e contradições, m as ao m esm o tem po som os suj eitos que têm agência, é possível “fazer escolhas”, em bora essas não sej am ilim itadas.
João W. Nery é um a referência nacional não só por ter sido o prim eiro trans-hom em do Brasil (com o aparece na m ídia) m as tam bém por sua generosidade e sua coragem em com partilhar sua experiência singular, m ostrando-nos que é possível serm os o que desej am os, sem cederm os às constrições sociais que nos são im postas pela sociedade e pela cultura.
4 Doutoranda interdisciplinar em Ciências Hum anas, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisadora do Núcleo de Identidades de Gênero e Subj etividades (NIGS/UFSC).
5 Transexuais m asculinos, ou sej a, indivíduos nascidos m ulheres que se identificam com o gênero m asculino. Utilizo a categoria trans-hom em por três razões: a) porque m e agrada a tradução literal do francês “transhomme” e do inglês “transman”; b) porque dessa form a “trans-hom em ” se torna um substantivo, que é a palavra com que se denom ina, e não se “qualifica”, um ser ou um obj eto, com o é o caso do adj etivo. Ao usarm os “m asculino” ou “fem inino” após transexual (transexual m asculino, transexual fem inino) ou “transexual” após hom em ou m ulher (hom em transexual, m ulher transexual) estam os qualificando o suj eito; c) porque em um a lógica “polissexual”, parece-m e adequado fugir dos binarism os j á conhecidos, com o, por exem plo, hom em /m ulher, m asculino/fem inino. Da m esm a form a, usarei a categoria “transm ulher” para m e referir às transexuais fem ininas, ou sej a, hom ens que se identificam com o gênero fem inino.
6 CROMWELL, Jason. Transmen and FtM – Identities, Bodies, Genders and Sexualities. Chicago: University of Illinois, 1999.
7 SORENTE, Isabelle. L’art de la m etham orphose. Philosophie Magazine. n. 26, p. 20-21, 2009.
8 Série de TV am ericana, considerada inovadora, que fez sua estreia em j aneiro de 2004 nos Estados Unidos. É sobre um grupo de am igas lésbicas e bissexuais que vive e am a em Los Angeles e desafia as noções tradicionais de relacionam entos, estilos de vida queer, identidades de gênero, raça e etnia, sexo e sexualidade. A série deixou de ser produzida em 2009.
Joana, 1952: no m eu aniversário de 2 anos.
Joana, 1964: 14 anos.
Joana, 1961: Instituto Guanabara, Tij uca, Rio de Janeiro, RJ,
1961, turm a do 1° ano ginasial (5ª série). Na últim a fila, no
m eio, em pé.
Joana, 1968: 18 anos.
João, 1977: logo após a cirurgia, finalm ente um hom em , aos 27
anos.
Joana, 1976: aos 26 anos, 1 ano antes da cirurgia.
João, 1977: logo após a cirurgia, com a m inha am iga Martha
Reis, assistente social da equipe m édica.
João, 1987: no sítio dos pais, Teresópolis, RJ, com Yuri, m eu
filho, aos seis m eses de idade.
João, 1995: com Darcy Ribeiro, Maricá, RJ, nosso últim o
encontro.
João, 1996: deitado em m inha cam a, deixando aparecer
algum as cicatrizes da cirurgia
João, 1996: com m eu am igo Pedro Matheus e sua esposa Inez
Helena.
João, 1997: na varanda de casa.
João, 1999: no Forte São Luiz, Niterói, RJ.
João, 1999: na casa do m eu am igo e dentista Murilo, com a
cadelinha Billie.
João, 2010: na Russel Square, Londres.
Índice
CAPA
Ficha Técnica
Para m eu filho, por m e fazer um pai feliz.
AGRADECIMENTOS
NOTA DO AUTOR
INTRODUÇÃO
PREFÁCIO DO ERRO DE PESSOA
PRÓLOGO
PARTE I DESENCONTROS
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
PARTE II DESCOBERTAS
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
PARTE III METAMORFOSE
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
PARTE IV PATERNIDADE
CAPÍTULO 1
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
SOBRE O AUTOR