Viagem Solitária
Capítulo 8
OS IMPACTOS DO RENASCIMENTO
Melhor é meio pão do que nenhum.
Hey wood
Quando m e m udei para o terreno de tia Estela em Jacarepaguá, só havia um casebre de m adeira cercado por um m uro com capim alto e algum as poucas árvores.
A ideia de m orar lá atendia tanto ao interesse dela com o ao m eu. Em bora estivesse localizado num ponto valorizado pela especulação im obiliária, o terreno trazia aborrecim entos e despesas para titia. Com binam os que não iríam os pagar aluguel, m as cuidaríam os do im óvel e faríam os benfeitorias na m edida do possível.
Em dois m eses, trabalhando com o pedreiro, carpinteiro e eletricista, construí um quarto, criando condições razoáveis de m oradia. Mandei ligar a luz da rua. Fiz a instalação elétrica e executei m elhorias na casa. Construí um boxe no banheiro, rem endos no piso da sala e, após aj eitar o básico, dediquei-m e à agricultura.
O lugar era grande, afastado do centro da cidade e da poluição. O isolam ento m e dava um a sensação de abrigo e segurança. Ali era m ais difícil encontrar conhecidos e tinha tranquilidade para m e recuperar das cirurgias.
Não só pela contínua ação do horm ônio com o tam bém pelas atividades a que m e entregava, m eu físico foi se acom odando pouco a pouco ao m odelo que sem pre im aginara: tórax am plo, com braços e pernas fortes.
Finalm ente era um hom em ! Um hom em de carne e osso, e não som ente na im aginação! Restava-m e ainda ser totalm ente carim bado e protocolado. Agora m eu corpo se m oldava m elhor à m inha essência. A nova harm onia transparecia num a expansividade natural, diferente dos gestos m ais tím idos de antes.
Meu porte ficou m ais ereto. Era im possível dizer que nele j á habitara um a corcunda. O tão esperado bigode despontava no rosto, conferindo algum a m aturidade à aparência. Os pelos cresciam m ais espessos, apesar da relutância das cicatrizes, que se entrecruzavam pelo peito e pelo abdôm en.
Era inacreditável! Tinha nascido quase aos 30 anos, sem nunca ter m orrido!
As m enores coisas adquiriam um a im portância capital. Com frequência, parava de capinar e ficava m e m aravilhando com o fato de estar sem cam isa ao sol. Poder chegar até o portão ou falar com os vizinhos por cim a do m uro, sem ter nada para esconder. Já não m e sentia constrangido pelas cicatrizes. Além disso, os cabelos do peito com eçavam a cobrir parte delas.
Largava o cabo da enxada, abria os braços, respirava fundo e alisava o peito tão reto e lisinho, inacreditável!
Am anda tinha proposto com prar um barbeador elétrico, m as recusara. Queria era m e barbear com um a lâm ina, fazendo espum a com pincel. Raspando devagarzinho, para sentir a relutância dos pelos, que tanto custaram a nascer.
Continuava aguardando um a carta do Farina para continuarm os as cirurgias. Enquanto não chegava, ia degustando as novas m udanças.
O espelho tornara-se agora m eu aliado, sentindo-m e m ais forte e íntegro. Não procurava propriam ente a beleza, m as a coerência.
Os m eses transcorriam , e inovações brotavam no m eu corpo. Nada m e passava despercebido. Pelos nasciam no dorso, na altura dos rins. Foram sendo acom panhados cuidadosam ente. Inicialm ente finos e esquálidos até se tornarem um chum aço preto e consistente. Com o um adolescente que com eça a descobrir as m aravilhas da transform ação do seu físico, deliciava-m e aos 30 anos com o m esm o fenôm eno. Um a degustação bem m ais apurada pela longa e sofrida espera.
Vivenciei isso m ais de perto no dia em que, parado na calçada para atravessar a rua, senti alguém m e abraçar pelas costas e m e tapar os olhos.
— Adivinhe quem é, Joana?
A voz não m e era fam iliar. Totalm ente confuso e sem m e preocupar em descobrir o autor da brincadeira, pensei no que aconteceria ao m e deparar frente a frente, num lugar público, com um a pessoa que dem onstrava não saber absolutam ente nada do que havia ocorrido com igo.
Ainda de costas, segurei-lhe as m ãos. Fui m e virando devagarzinho, até esbarrar com dois grandes olhos esbugalhados cheios de espanto.
Por sorte, estava sozinho. Antes que ela pudesse dizer algo, sugeri:
— Há um bar na esquina onde podem os conversar.
Seguiu-m e com o um a som bra.
Sentam os. Sem conseguir deixar de m e estudar um só m inuto, perguntou perplexa:
— O que foi que a-con-te-ceu com você? Será que m e enganei de pessoa?
O garçom se aproxim ou, e pedi dois cafés.
— Não, Paula. Sou eu m esm o.
Pela prim eira vez, fiquei realm ente em baraçado, sem saber por onde com eçar. Se fosse apenas um a m udança de nom e, de cara, não seria tão difícil nem com prom etedor, m as de sexo, de tudo!
Tentei dar um a conotação corriqueira à conversa, com o se o fato fosse trivial. Mas a expressão dela não aj udava.
— Bem , há quanto tem po a gente não se vê? Deve ter uns quatro anos, e nesse período dei um a guinada de 180º na m inha vida. Continuar vivendo naquela indefinição estava se tornando insuportável. Procurei um a equipe m édica especializada no m eu problem a e fiz um a série de operações. O resultado é o que você está vendo. Agora m e cham o João.
Parecia dem orar a assim ilar a novidade.
— Mas tudo isso que está m e contando é incrível!
Fez um a pausa e, com a cabeça ainda balançando, perguntou:
— E a faculdade, com o é que fez?
— Não dou m ais aulas. Não posso m ais ser psicólogo.
— E o que faz agora, posso saber?
— Sou lavrador.
Suas sobrancelhas subiram ao m áxim o, quase saltando da testa.
— La-vra-dor? Não, Joana. Só pode estar brincando com igo! É difícil de acreditar. Explique m elhor essa história. Está querendo m e dizer que a m inha querida ex-professora de Psicologia é agora um lavrador?
Paula parecia estar ouvindo um a história de ficção. Sua surpresa m esclava-se com um esboço de riso e de choque. A im pressão que transm itia é de que o “lavrador” a tinha abalado m ais do que propriam ente a m udança de sexo. Falava alto, e algum as pessoas j á dirigiam os olhares para a nossa m esa. Tentei abrandar o clim a:
— Paula, lidar com a terra é algo deslum brante. É outro aspecto da vida que nunca tinha tido oportunidade de conhecer. Não pode im aginar com o tenho descoberto coisas curiosas nessa nova atividade! De início, quebrei a cara, não conhecendo as estações do ano propícias ao plantio nem com o evitar as pragas. Ainda tenho m uito o que aprender. Além disso, m oro num lugar lindo, cheio de árvores frutíferas e pego m uito sol. Não está vendo com o estou bronzeado?
Paula m e interrom peu repentinam ente e, com o se não tivesse ouvido nada do que falara, exclam ou:
— Ainda não estou acreditando totalm ente, Joana. Não posso crer que não sinta falta das nossas aulas... Nunca vi ninguém se entregar tanto quanto você num a sala. Aliás, o pessoal lá da turm a volta e m eia fala no seu nom e. Todos se lem bram de você com m uito carinho. A m aioria tem a m esm a opinião: foi a professora m ais im portante que tivem os. Não só em term os de aprendizagem , m as pelo potencial hum ano que nos transm itiu. Im pressionante com o todo m undo a endeusava.
— Jam ais quis ser um m ito e m uito m enos um deus – respondi secam ente, com o se quisesse fazê-la voltar à realidade. Sem m e entender, continuou na m esm a tecla:
— Sei que nunca fez nada para isso, m as todo m undo que foi seu aluno... Mas e o m estrado que estava cursando?
— Larguei tudo o que fazia antigam ente, Paula. Agora sou praticam ente um a nova pessoa. E queria lhe pedir, particularm ente, dois favores: prim eiro, não com ente com ninguém lá da faculdade que m e viu. Não quero que saibam . Segundo, por favor, não m e cham e m ais de Joana.
Aquele papo j á estava m e cansando. Dem onstrava lástim a por não m ais corresponder à im agem que havia feito de m im e deixava claro com o estava decepcionada.
Term inei o café e fiz m enção de m e levantar.
— Já vai? – surpreendeu-se.
— Ainda tenho m uito o que fazer hoj e.
Procurou um a caneta e papel na bolsa.
— Espere. Deixa lhe dar m eu endereço. Quero que conheça m eu m arido. Já falei m uito de você, e tem curiosidade de conhecê-la.
Com o não encontrasse nenhum papel, pegou m inha caixa de fósforos. Escreveu o endereço e o telefone, avisando:
— Mas ligue antes, porque podem os não estar em casa.
Levantei-m e, sem retribuir a gentileza, e m e despedi.