Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 54 de 58

Páginas do PDF

Viagem Solitária

Capítulo 15

DE HOMEM PARA HOMEM

 

Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento.

Hilda Hilst

 

Dezoito anos. Yuri se tornava um hom em . Com orgulho, soube que m eu filho tinha passado em dois vestibulares, para Física e Engenharia, em duas universidades públicas. Fom os com em orar com a nam orada dele num bom restaurante, Yuri vestindo a cam isa social azul-clara de tecido am arrotado que eu lhe dei.

Acabou escolhendo Engenharia, o curso era m ais perto de casa e oferecia m elhores possibilidades no m ercado de trabalho. Além do m ais, sensatam ente achou que o curso o obrigaria a colocar os pés no chão, j á que se via com o um cara m eio nas nuvens.

No dia da m atrícula, sentam os num botequim diante de um a cervej a gelada. Um a não, algum as. Papo vai, papo vem , ele m e confessa que experim entou m aconha com a nam orada. Ele sem pre foi um pouco careta, considerando a história fam iliar. Nem fum ava e torcia para que eu parasse com o cigarro. Não usava brinco nem tinha tatuagem . Tam bém não teve a crise da aborrescência. Portanto, senti até um certo alívio quando ele m e contou, afinado com grande parte da sua geração. Sugeri fazerm os um dia um baseado j untos, o que nunca aconteceu, m esm o porque deixei de fum ar.

Entre os ritos de passagem , ganhou das m inhas irm ãs um a calculadora profissional, própria para engenheiro, e tirou carteira de m otorista.

 

Yuri estava com 20 anos quando decidiu “experim entar” m orar conosco. A m ãe andava nervosa, os dois discutindo m uito, inclusive no carro quando ela o trouxe com as m alas. Tornara-se um j ovem esportivo, que gostava de fazer escaladas, trilhas de bicicleta e j ogar tênis com os am igos. Continuava não gostando de futebol.

Foi um a revolução dom éstica. Com o a m aioria da sua idade, largava a toalha m olhada em qualquer lugar, depois de dem orados banhos que sem pre desarm avam o chuveiro elétrico. Ao chegar da rua, arrancava os tênis pelo m eio do cam inho, que de lá não saíam por conta própria. Várias vezes tropecei neles, no escuro. E saía pela casa de m eias, que se tornavam um negrum e. Ao term inar de com er, o prato suj o ficava na m esa. Nem pensar em lavá-lo.

Claro que a rotina na casa da m ãe era m uito m ais tranquila, com em pregada todo dia. Além do m ais, Lola era m ais relaxada e m enos controladora do que eu. Precisávam os de alguns aj ustes para tornar o convívio agradável. Tentei explicar que dois passinhos a m ais levariam os tênis para um canto estratégico do quarto dele onde não incom odariam ninguém . E que não custava nada colocar as m eias usadas no lugar de roupa suj a, j á que nem frio fazia.

Não fui m uito bem -sucedido. Além disso, acostum ara-se a ver televisão no quarto até tarde. Eu resisti em fazer o m esm o que na casa da m ãe porque no dia seguinte ele tinha dificuldade em acordar e chegava atrasado à prim eira aula ou ficava com dor de cabeça. Tentei interessá-lo pela leitura, até instalando um foco de luz ao lado da cam a, m as não consegui que lesse um livro inteiro depois dos de Harry Potter.

Quando com pletou um m ês da experiência, fizem os j untos um a avaliação. Mostrou-se contente de ter sem pre gente em casa, o que não acontecia na casa da m ãe, que chegava tarde das aulas, o que o deixava com m edo. Tam bém adorava m orar perto da nam orada e da faculdade, podendo até ir de bicicleta para a aula. Achou que estava m ais responsável, m as que não gostava de com ida congelada, solução que adotam os porque a em pregada vinha só duas vezes por sem ana. Teve a delicadeza de não fazer outras reclam ações.

No dia seguinte, acordou cheio de decisões. Consertou as duas bicicletas, resgatando a que estava em prestada. Fez teste de alergia, porque tinha tido um a crise séria no dia em que chegou, ficando com os olhos inchados. Pagou a taxa para tirar carteira de identidade e se apresentou para o atestado de reservista.

Dei a ele um novo com putador, j á que agora recebia pela internet os deveres e as apostilas para estudar. Muito contido, dem orou três dias para m e dar um abraço de agradecim ento pelo presente. Em casa, era sem pre m uito prestativo e habilidoso. Trocava lâm padas, arrum ava as tom adas, cortava a gram a.

Ele não queria que fizessem qualquer com entário desagradável sobre a m ãe, o que respeitei. Em m eus sonhos, sem pre o via pequeno, com três anos, de m acacão e sandálias. Era um am or tão forte, tão único, que acordava sobressaltado, com o que querendo resgatar aquele sentim ento para os dias atuais. Surpreendia-m e de j á ser um adulto que se form ou sem que eu pudesse conviver m ais de perto durante todos esses anos.

Quando recom eçaram as aulas, Yuri resolveu voltar para a casa da m ãe. Só então a “ficha caiu” para m im :

— Pai, você m e acha um vagabundo, lerdo e preguiçoso, não é? Já m e disse que na m inha idade trabalhava, ganhava o seu próprio dinheiro, e eu nem consigo vender m inhas três bicicletas, agora duas, descontando a que m e roubaram na faculdade. Sinto-m e sem pre um cocô ao seu lado – gaguej ou.

Ele estava certíssim o! Com o m eu discurso de querer o m elhor para ele, de forçá-lo a ler, organizá-lo, torná-lo pontual e responsável, fazia-o se sentir um bosta. Tentei m udar m inha conduta de pai intelectual e “perfeito”, que sabia tudo, enquanto ele errava sem pre. Com preendi m elhor sua m ania de lim peza quando descobri que era m uito alérgico, o que só passou a ocorrer depois dos quatro anos de idade.

Continuou frequentando nossa casa, inclusive trazendo a nam orada para dorm ir com ele. Fiel e apaixonado há três anos, conquistara a garota que conhecia desde os sete anos na escola. Num a ida ao lanche dos netos na casa dos avós, foi dirigindo nosso carro e levou a nam orada para apresentar à fam ília. Era sim pática e agradável, todos gostaram dela.

Num a das noites em que levou a garota em casa, quando voltava a pé, foi m ais um a vez assaltado. Dessa vez por três pivetes arm ados, que levaram sua m ochila. Chegou trem endo, assustado e com m uita raiva. Obrigou-m e a levá-lo im ediatam ente à delegacia. Era um a hora da m adrugada quando chegam os a um prédio caindo aos pedaços, cheio de tapum es. O policial de plantão nos atendeu de m á vontade, datilografando seu depoim ento num a m áquina velhíssim a. O pátio estava coberto de carros, todos vazios e fechados. Ao sairm os, chegava um a patrulha com dois policiais. Yuri insistiu em pedir aj uda, exercendo seus direitos civis.

— Você está louco? Quer que a gente suba sozinho o m orro a um a hora dessas? Isso é suicídio! – e entraram na delegacia, deixando o garoto assom brado e arrasado com tam anho pouco-caso.

A sorte é que os m oleques só queriam m esm o a m ochila e j ogaram fora os livros e os docum entos. Um a m oradora que soube do assalto nos ligou, avisando onde estavam .

A m enina era a antítese dele. Fazia duas faculdades, um a no Rio e outra em Niterói, e ainda arranj ava tem po para nam orar durante a sem ana. Era quem planej ava os program as e reservava os lugares. Para ele era prático, m as por outro lado ressaltava seu lado passivo, o que o incom odava. Às vezes queria apenas sair com os am igos ou construir seus aviões de isopor, m as ela o sufocava com tantas solicitações e telefonem as. O nam oro ainda duraria m ais um ano entre idas e vindas. Ela alegou que não o sentia m ais tão apaixonado com o antes. Foi seu prim eiro am or correspondido.

Vendo Yuri triste, sugeri que saísse com outras garotas. Ficou indignado:

— Pai, não sou um hom em -galinha! Nem sei fazer isso! Quando gosto, fico.

No fundo, foi bom ouvir aquilo. Eu tam bém era assim , m as nunca saberei se era ou não por causa das m inhas lim itações.

Resolveu estudar inglês. Um dia, falou que j á tinha saído da fossa. Disse-m e que a briga serviu para com eçar um novo diário no com putador. Estava gostando da experiência de escrever e botar para fora os seus segredos sem que ninguém os lesse. Saiu carregando um dos m eus violões, afirm ando que agora tinha m ais tem po para tocar com os am igos. Entrou de férias e passou em tudo na faculdade.

A m aioridade de Yuri se aproxim ava. Havia lhe prom etido um a m oto quando fizesse 21 anos. No carro, era um m otorista cauteloso e atento. A princípio fiquei m uito receoso de dar um presente tão perigoso. Não sei se m e perdoaria se lhe acontecesse algo. Entretanto, ele andava de m oto com igo desde os dois anos de idade, ela j á fazia parte da nossa história. Além de aum entar a sua autonom ia, era tam bém m ais um voto de confiança na sua responsabilidade.

Antes de pegar a m oto na loj a, dei-lhe um as aulas práticas, ensinando com o dar ré em ladeira ou subir em calçada. Escolhem os um m odelo pequeno para se acostum ar e aprender a dom iná-la. Avisei que as despesas com a m oto seriam por sua conta, j á que recebia m esada. E eu tinha duas exigências: que não fosse para a estrada nem cruzasse a ponte para o Rio, por ser perigoso. Meu filho ficou tão feliz que m e abraçou, beij ando-m e várias vezes.

Ele não voltaria a m orar conosco, preferiu se adaptar ao novo padrasto e ter m ais m ordom ia na casa da m ãe. Mas vinha todos os fins de sem ana alm oçar com igo, quando m e resolvia todos os “pepinos” da casa. Instalou m inha im pressora, ensinou-m e a gravar CDs para ouvir no carro e gostava de assistir conosco aos DVDs da nossa film oteca, sobretudo os film es europeus.

— Mulher adora dançar, m eu filho. Você vai fazer m uito sucesso se entrar para um a academ ia.

Finalm ente Yuri resolveu seguir m eu conselho. Desde pequeno ele tinha m uito ritm o e era afinado, ao contrário de m im . Não teve dificuldade em aprender salsa, forró, zukie, soltando os quadris e a inibição. Já na prim eira aula arranj ou um a nova nam orada, de 17 anos. Acabou nos contando que tinha tido um nam oro rápido no curso de inglês. Gostei de saber que a m enina era m ulata, m arcou m ais um ponto com igo.

— Estou com pletam ente apaixonado, pai. De quatro...

Quando fez 22 anos, fui à festa de aniversário na casa da m ãe. Recebeu-m e na porta, quando lhe disse:

— Seu presente está aqui.

— Onde, pai?

Mostrei m inha própria m oto, um a Honda 125. Ele pulou no m eu pescoço e m e beij ou, gritando:

— Não acredito! Não acredito, pai! Parece um sonho...

Vendeu a sua pequena para um am igo e m e deu a grana para aj udar na com pra da m inha scooter sem inova, um a lam bretinha m ais leve e econôm ica.

No m eu aniversário, deu-m e de presente m eu prim eiro livro, Erro de Pessoa, digitalizado. No cartão, a dedicatória: “Para o m elhor pai do m undo”.

Yuri continuou a m e dar grandes alegrias. Eu não poderia im aginar que ele ainda m e daria um a im portante lição de vida.