Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 47 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 8

TODOS OS SENTIDOS

 

Aperto tua carne. Fotografo.

Beijos excitantes vão cruzando fronteiras.

A posse nos possui.

Somos excessivos, somos exceção.

Desconhecemos balanças.

(Do poem a “Fronteiras”, do autor).

 

Tudo passou a ser m eio vazio. Quase sufoquei com a falta do Yuri. Chorava e ligava a secretária eletrônica para ouvir sua vozinha na m ensagem gravada. Sonhava em poder voltar a m orar com ele, deliciando-nos de pertinho, esbarrando-nos de com preensão e desej ando o m elhor um para o outro.

A princípio, dorm ia com igo duas vezes na sem ana, além das tardes em que o buscava na escola, sentado em cim a do tanque da m oto. Tom ávam os banho de piscina, brincávam os de quebra-cabeça ou m ontávam os algum a coisa com os pedaços de lego perdidos pelos cantos.

Um m ês depois, m udou de escola, e a m ãe decretou:

— Só vai vê-lo em fins de sem ana alternados.

Eu e ele perdem os a fom e. Um dia ele m e perguntou:

— Pai, se a gente não com er, vai descrescer?

Continuava sendo o m eu m elhor cartão de visita. Foi assim que conheci Gina, na pracinha do bairro.

Era viúva há cinco anos e há dois tinha perdido o filho m ais velho. Ele e o irm ão iam de carro para a casa de um a tia em Macaé quando bateram de frente num cam inhão. O caçula de nove anos sobreviveu, depois de um m ês no CTI. Com o sequela, um leve retardo m ental. Mais tarde, Gina m e com entou que a tragédia tinha lhe tornado um a pessoa m ais alerta ao presente, m enos apegada ao m aterial e m ais agradecida à vida.

Sentados no banco da praça, eu e ela olhávam os, calados, nossos filhos brincando j untos. Com eçam os a nos encontrar fora da pracinha. Era um a m ulher coraj osa e m ais preparada para as situações insólitas do que eu im aginava. Só deixei para lhe contar sobre m im na últim a hora, quando j á estava nua, pronta para o am or, deitada na m inha cam a.

Fui sucinto. Olhou-m e nos olhos, passou os dedos pelo m eu cabelo e sussurrou:

— Tudo bem . Será um a experiência nova para m im . Vam os em frente. Gosto de você.

O que eu não im aginava é que ela tinha entendido tudo ao contrário. Aquele pai am oroso, figura m asculina inquestionável, só poderia ser um hom em que se operou para virar m ulher, m as tinha se arrependido... Assim ficou por alguns dias até conseguirm os esclarecer a confusão. No fundo, não sei se m udou algum a coisa.

Era, sem dúvida, um a m ulher experiente na cam a. Tinha tido m uitos casos com hom ens de idades diferentes. Contou-m e, rindo, que um deles gostava de fazer am or na banheira, vendo um film e de sacanagem editado por ele. Para increm entar, usava na m ão um pênis artificial. Tanta novidade a fez ter orgasm os m últiplos, confessou. Sentia-m e aliviado com tanta abertura, m as, ao m esm o tem po, am edrontado em talvez não corresponder às suas expectativas. Não sabia se seria capaz de lhe proporcionar tanto prazer assim .

Queria sexo nas horas e nos lugares m ais inesperados. Solicitava-m e nu com ou sem pau, de todas as form as. Subia com a língua pelas m inhas costas, m e cheirava a nuca e acabava chupando o m eu pau m inúsculo, que crescia em sua boca. Fazia-m e gozar, num preâm bulo da noite que m al com eçava.

Gina m e fez conhecer as delícias da passividade. Podia, enfim , sentir um a m ulher em cim a de m im , m e provando, m e provocando, m e tornando o sultão de todos os sentidos. Tornou-se desim portante o “coito perceptivo”, a certeza de que m inha parceira m e percebia com o um hom em para que eu chegasse ao orgasm o. Aprendi a não m e torturar com m inha possível im agem .

 

É dentro da m inha cóclea que você diz todo lábios, língua, saliva: m inha e m eu, bico e belisco, gosto forte viscoso. Suas pernas se postam entre as m inhas e as afastam , e você j á está de novo dentro, m ucosa contra m ucosa, e continua a m e dizer que eu fique quieta, não olhe, é noite dentro de m im e há um vigor que m e penetra bem ao m eio. Me arranca de um sono sem sonhos para sonhar em vigília porque não há lógica que guie este falo, e não existe barragem que estie esta vulva.

 

Sua voz grave e pausada destacava cada palavra do conto de Josim ey Costa, que m e leu na cam a, “A pele em cinco atos”. Aprendi com Gina a m e sentir desej ado, estim ulado, fosse de que form a fosse. Não im portava o tam anho do m eu pênis, ela nunca duvidou da m inha virilidade.

Mesm o apaixonado, percebi que não queria m orar com ela. Ela era um a ótim a com panhia, saíam os para dançar, suando toda a cervej a que bebíam os. Sua alegria m e trouxe de novo à vida. Com Yuri, Gina conversava com o se tivessem a m esm a idade. Talvez pela experiência com o próprio filho, um a criança risonha que adorava m úsica.

Mas, às vezes, era inconveniente. Quando bebia, nem sem pre m antinha o bom -senso. Eu tam bém ficava inseguro com as repentinas m udanças de estado de hum or. Com o tem po, dem onstrou um ciúm e doentio. Foi a gota d’água depois de quatro anos.